
A denúncia de racismo contra Vinicius Junior, registrada após a vitória do Real Madrid por 1 x 0 sobre o Benfica, na terça-feira, pela Liga dos Campeões, ampliou mais uma vez o debate sobre o racismo no futebol e mobilizou treinadores de peso do cenário internacional. O episódio envolvendo o argentino Gianluca Prestianni gerou manifestações de técnicos na Europa e na América do Sul, enquanto a Uefa abriu investigação para apurar os fatos.
Questionados sobre o caso, treinadores de clubes centrais do futebol europeu se posicionaram publicamente. Pep Guardiola, do Manchester City, saiu em defesa do atacante brasileiro e apontou a educação como caminho estrutural para combater comportamentos racistas. Para o catalão, a discussão ultrapassa o futebol e passa por mudanças profundas na sociedade.
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"O racismo não é uma questão do tom da pele, é sobre comportamentos. As escolas são os lugares ideais para mudar comportamentos. Paguem mais aos professores. É assim que se resolve. É aí que vamos resolver o problema. Nas escolas, não no futebol. Professores e médicos são as pessoas mais importantes da sociedade, não um técnico de futebol", discursou.
No Bayern de Munique, Vincent Kompany também se manifestou. O técnico belga criticou declarações de José Mourinho sobre a reação de Vinicius Junior após marcar o gol da vitória e afirmou que houve um ataque ao caráter do jogador brasileiro. Kompany destacou a responsabilidade de lideranças do futebol no enfrentamento ao racismo e relembrou o histórico de discriminação sofrido por atletas negros ao longo das décadas.
"Basicamente, atacou o caráter de Vini ao mencionar o tipo de comemoração dele para desmerecer o que ele estava fazendo naquele momento. Foi um erro enorme em termos de liderança", protestou. "Ele (Mourinho) disse que o Benfica não pode ser racista, porque o seu maior jogador de todos os tempos foi Eusébio. Ele sabe o que os jogadores negros tiveram que passar na década de 1960? Ele estava lá viajando com Eusébio para todos os jogos fora de casa para ver o que ele sofreu?", emendou.
Na França, o tema também chegou ao Paris Saint-Germain. Questionado sobre o episódio, o técnico Luis Enrique minimizou a discussão na primeira resposta, o que gerou repercussão negativa. "O que eu posso dizer sobre esse assunto…não é nada importante!, disparou. O PSG tem no elenco alguns dos principais jogadores negros do futebol europeu, como Ousmane Dembélé, Marquinhos, Nuno Mendes, Bradley Barcola e Désiré Doué.
No Brasil, o técnico do Flamengo, Filipe Luís, comentou o episódio após a derrota por 1 x 0 para o Lanús, no jogo de ida da Recopa Sul-Americana, na Argentina. Inicialmente, o treinador afirmou que a situação se baseava na palavra de um jogador contra a de outro, declaração que também caiu mal. "Para mim, é simples: ele (Prestianni) tapou a boca e não deveria ter tapado a boca para dizer o que deveria dizer, e isso gera toda essa revolta e, agora, é a palavra de um contra de outro", comentou.
Diante da reação, Filipe Luís se posicionou novamente e reforçou que não teve a intenção de relativizar qualquer atitude racista. O treinador afirmou que reconhece a sensibilidade do tema e reiterou que o racismo é crime no Brasil e deveria ser tratado com o mesmo rigor em todos os países.
"Em momento algum, tive a intenção de relativizar ou minimizar qualquer atitude racista. "Reconheço minha fala, diante da extrema sensibilidade do tema, pode ter aberto margem para interpretações distintas. Por isso, considero fundamental reforçar publicamente minha posição, que sempre foi inegociável: o racismo é crime no Brasil e deveria ser tratado com o mesmo rigor em todos os países", reforçou.
Segundo informações da ESPN, Gianluca Prestianni prestou depoimento à Uefa e apresentou sua versão dos fatos. De acordo com a publicação, o jogador argentino admitiu ter ofendido Vinicius Junior com a palavra "maricón", de cunho homofóbico, e negou ter utilizado o termo "mono", que significa macaco em espanhol.
A versão apresentada por Prestianni diverge do relato de Kylian Mbappé, capitão do Real Madrid, que afirmou ter ouvido o atacante brasileiro ser chamado de "mono" em pelo menos cinco ocasiões durante o episódio. Mbappé declarou que ele, Vinicius Junior e outros jogadores do clube perderam o controle diante das ofensas.
A Uefa confirmou, na quarta, a abertura de investigação para apurar o caso. O regulamento disciplinar da entidade prevê suspensão mínima de dez jogos em situações de injúria racial, punição que também pode ser aplicada em casos de ofensa homofóbica.

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