PARALÍMPICOS

Leandro Padovani calibra mira para realizar sonho de Paralimpíada

Depois da lesão que o deixou paraplégico no Irã, ex-zagueiro de Gama e Brasiliense mergulhou na natação, reinventou-se no tiro com arco e, hoje, busca a realização com vaga nos Jogos

Jogos Paralímpicos de 2032, na Austrália, estão na mira de Leandro Padovani -  (crédito:  Carlos Vieira/CB/DA Press)
Jogos Paralímpicos de 2032, na Austrália, estão na mira de Leandro Padovani - (crédito: Carlos Vieira/CB/DA Press)

Em 24 de fevereiro de 2018, o zagueiro Leandro Padovani teve a vida completamente mudada no Irã. Durante partida pelo Esteghlal Tehran, chocou-se com um companheiro em campo e sofreu grave lesão na coluna. O acidente o deixou paraplégico, forçou-o a encerrar a carreira nos gramados, mas não o tirou do esporte. Ao acordar na UTI, sem se lembrar do ocorrido, ouviu da esposa, Larissa, algo que levaria para a nova fase. Desde os primeiros momentos, o boleiro falava em adaptar carro, sair do hospital o mais rápido possível e encontrar uma modalidade. O desejo dele era de seguir em frente, sem lamentação. Oito anos depois, está bem, calibra a pontaria e orgulha-se em dizer que tem um novo alvo: disputar os Jogos Paralímpicos pelo Brasil competindo no tiro com arco. 

"Quando você sofre a lesão, o mundo fica escuro. Não tem direção", relata Padovani. O primeiro mergulho do ex-jogador de futebol no mundo paralímpico foi a natação. No início, houve resistência interna. A ideia de nadar sem movimento das pernas parecia impossível para ele. "A limitação estava dentro de mim. Um exemplo é o Danielzinho, multicampeão. Ele não tem braço nem perna e o que faz diferença para ele é o tronco. O atleta é 80% cabeça e 20% talento", comenta. O treinador Marcos Espírito Santo enxergou potencial no Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UnB): o ex-zagueiro conquistou Campeonato Brasiliense, obteve índice para o Brasileiro e correspondeu à expectativa do treinador. Entretanto, a partir daquele momento enxergou um desafio. O sonho sempre foi participar de Paralimpíada, mas se sentia distante se seguisse nas piscinas. 

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"Havia uma margem para índice paralímpico e eu estava muito longe. Na natação, a meu ver, diante das dificuldades, enxerguei que não conseguiria chegar o mais alto possível", refletiu. Então, buscou outro caminho. A experiência o levou ao tiro com arco, modalidade na qual conseguiu equilibrar mente e corpo. Diferentemente do futebol e das disputas nas piscinas, o arco exige paciência e controle emocional absoluto. Cada disparo envolve sequência minuciosa de movimentos e estabilidade. Essa dinâmica transformou-se em parte do processo de reconstrução pessoal após o acidente. Fez testes em meados de 2022, mas a trajetória começou, de fato, em 2023. "É um esporte de respiração e concentração. Você respira, mira e atira. Quando acerta o amarelinho, o 10 (ou X) é o ápice", destaca.

Leandro Padovani integra o Cetef e treina no 15º Grupamento de Bombeiro Militar do DF
Leandro Padovani integra o Cetef e treina no 15º Grupamento de Bombeiro Militar do DF (foto: Carlos Vieira/CB/DA Press)

A mudança também representou uma adaptação na forma de competir em alto nível. Acostumou-se aos anos no ambiente coletivo dos gramados, no qual o resultado depende do grupo. "Aqui, é você contra si. No futebol, sempre tem alguém para dividir a responsabilidade. No arco, cada flecha depende totalmente de você", compara.

Padovani representa a Associação Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetef), referência na capital. A preparação é diária no 15º Grupamento de Bombeiro Militar do Distrito Federal, sob mentoria do técnico André Xavier. Em pouco tempo, destacou-se no cenário local, passou a competir em torneios nacionais e terminou o Campeonato Brasileiro de 2025 em quarto lugar no individual e foi campeão de duplas. Para ele, é um caminho de evolução constante. Mas nem tudo são flores para Padovani. O caminho é árduo e os custos são altos. Um dos arcos utilizados por ele, por exemplo, custa aproximadamente R$ 6 mil. Um conjunto de flechas ultrapassa R$ 1,7 mil. 

Leandro Padovani tem custo elevado com equipamentos: arco chega a R$ 6 mil, enquanto kit com flechas ultrapassa R$ 1,5 mil
Leandro Padovani tem custo elevado com equipamentos: arco chega a R$ 6 mil, enquanto kit com flechas ultrapassa R$ 1,5 mil (foto: Carlos Vieira/CB/DA Press)

Bolsas também são importantes para a manutenção dos resultados e da rotina. Inclusive, Padovani aguarda liberação de verba distrital, o que o auxiliaria com fisioterapia, suplementos e deslocamento. Mas ele não desanima. Entende estar no caminho correto para obter a vaga paralímpica, um objetivo distante, mas realista. A meta é representar o Brasil nos Jogos de Brisbane-2032, na Austrália. Los Angeles-2028 é menos viável, mas tudo pode acontecer. "Se caminhar bem, posso beliscar uma vaga", analisa. 

O próximo compromisso da agenda de Padovani é a 2ª etapa do Campeonato Brasiliense Indoor 18m, no domingo (15/3), no Clube do Exército. O ex-zagueiro espera que a história de vida dele inspire pessoas com deficiência e com dificuldade em entrar no esporte, seja por qualidade de vida, seja por meta profissional. "Não importa a deficiência. O que limita é o pensamento. Antes, achava que não conseguiria fazer nada. Hoje, vejo que tudo pode ser redirecionado."

"Dê o primeiro passo, até você se encaixar. Temos, aqui, um atleta cego, que atira conosco. Se você olhar hoje o arco, que é visão, equilíbrio, concentração, ele, cego, está atirando, é recordista das Américas, representa a Seleção Brasileira. Não tem limite", reforça. 

  • Leandro Padovani tem custo elevado com equipamentos: arco chega a R$ 6 mil, enquanto kit com flechas ultrapassa R$ 1,5 mil
    Leandro Padovani tem custo elevado com equipamentos: arco chega a R$ 6 mil, enquanto kit com flechas ultrapassa R$ 1,5 mil Foto: Carlos Vieira/CB/DA Press
  • Leandro Padovani integra o Cetef e treina no 15º Grupamento de Bombeiro Militar do DF
    Leandro Padovani integra o Cetef e treina no 15º Grupamento de Bombeiro Militar do DF Foto: Carlos Vieira/CB/DA Press
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postado em 13/03/2026 06:00
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