
Uma fonte influente nos bastidores da Fifa indica curto e grosso ao Correio Braziliense sob anonimato: "Eu não acredito que o Irã vai desistir de disputar a Copa do Mundo". Argumentos não faltam, mas a última palavra sobre a participação (ou não) da seleção persa daqui a 90 dias no Canadá, nos Estados Unidos e no México não pertence ao governo teocrático. Precisa ser oficializada pela Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), é negociada nos bastidores e depende de um poderoso senhor de 66 anos influente há mais de três décadas.
Mehdi Taj tem a caneta nas mãos. Em meio aos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país do Oriente Médio, é dele a prerrogativa de oficializar ou não a desistência da vaga conquistada em campo nas Eliminatórias da Ásia para disputar a Copa no Grupo G. Os adversários são a Nova Zelândia e a Bélgica em Los Angeles; e o Egito em Seattle.
Esse é apenas mais um capítulo da queda de braço entre Irã e EUA. Em dezembro, Taj não conseguiu ir a Washington para o sorteio dos grupos por falta de visto. "Informamos ao presidente da Fifa que se trata de uma posição puramente política e intercedemos para que ele detenha esse tipo de comportamento. Isso não tem relação com o esporte", desabafou.
Embora tenha forte vínculo com o regime teocrático, Mehdi Taj ostenta cordão de três dobras com a Fifa. Nascido em 20 de janeiro de 1960 em Isfahan, cidade de 2,3 milhões de habitantes localizada a 440km da capital Teerã, ele fez do pentacampeão nacional Sepahan porta da entrada no futebol e tornou-se o principal articulador do futebol iraniano. Ganhou trânsito livre entre clubes, na liga nacional, na federação e em organismos internacionais. Foi conselheiro e presidente do clube da terra natal e passou a conquistar espaço.
Acessou a Federação Iraniana em 2008 no papel de primeiro vice-presidente e não parou de crescer. Centralizou as principais decisões no cargo até 2012. Saltou para o posto de líder da Liga de Futebol do Irã e modernizou a organização do principal campeonato nacional do país. A visibilidade fez dele candidato forte para assumir a presidência da federação.
Eleito em 2016, renunciou em 2019 por causa de problemas cardíacos. Mesmo pressionado por disputas políticas e críticas administrativas, manteve o controle da entidade com pulso firme de dentro do hospital. Votou ao cargo máximo em 2022 ao vencer um novo pleito.
A força política tornou Mehdi Taj influente na Confederação Asiática. Ele é um dos cinco vices do presidente da AFC, o xeque bahreinita Salman bin Ebrahim Al Khalifa Salman. Os outros representam a Índia, o Líbano, a Coreia do Norte e o Timor-Leste. Portanto, Taj é o segundo mais poderoso. O responsável por apresentar soluções diplomáticas às constantes tensões políticas. Ele dá peso político ao Irã nas decisões do futebol do continente.
Os tentáculos de Mehdi Taj não se limitam ao futebol. Ele foi jornalista. Trabalhou como editor-chefe do diário esportivo Jahan Varzesh, um dos periódicos especializados em esportes no Irã. É frequentemente citado pelas ligações com a Guarda Revolucionária do Irã, a organização militar extremamente influente na política iraniana. A proximidade com instituições do governo e forças bélicas reforça a influência da política no futebol iraniano.
Controverso, Mehdi Taj ficou exposto ao contratar o ídolo Marc Wilmots para assumir a seleção do Irã. O acordo firmado em 2019 previa salários considerados altos e com cláusulas desfavoráveis à federação. A demissão do treinador virou uma disputa levada à Fifa e o dirigente perdeu. A entidade iraniana teve de indenizar Wilmots. O imbróglio deixou a vitória de Taj na eleição de 2022 da federação em xeque.
Controverso
As maiores polêmicas referentes a Taj dizem respeito aos costumes: restrições à presença de mulheres em estádios, sanções políticas e tensões diplomáticas em competições internacionais. Resistente, ele faz parte da rede de dirigentes nacionais considerados pilares da sustentação do sistema político da Fifa. Recentemente, ele se abriu ao diálogo. A pedido de Infantino, começou a liberar o acesso limitado das mulheres aos estádios.
Um dos trunfos de Infantino na mesa de negociações com o Irã são as sanções econômicas. O bloqueio do repasse de verbas causa danos econômicos na federação. Taj precisou negociar várias vezes com a Fifa alternativas para o depósito de recursos como prêmios de Copa do Mundo ou do investimento em programas de desenvolvimento. O cartola é quem conversa com a entidade máxima do futebol para viabilizar mecanismos legais de crédito e essa pode ser uma das chaves para o convencimento da permanência do Irã na Copa. A outra é a sucessão do presidente da AFC. O mandato do xeque Salman acaba em 2027.

Esportes
Esportes
Esportes
Esportes
Esportes
Esportes