FUTEBOL

Candangão: como a fé guia Gama e Sobradinho na final

Altares, promessas e rituais espirituais são conduzidos por Valtinho e Neto. Eles transformam os vestiários em espaços de oração antes da decisão de sábado (21/3), no Mané Garrincha

Altar montado no vestiário do Gama antes da semifinal contra o Ceilândia -  (crédito: Filipe Fonseca/Gama)
Altar montado no vestiário do Gama antes da semifinal contra o Ceilândia - (crédito: Filipe Fonseca/Gama)

Preparo físico, qualidade técnica, inspiração e muita fé. Essa é a receita de Gama e Sobradinho para concretizar o sonho de conquistar o título do Campeonato Candango de 2026. Abençoados, graças ao trabalho duro, com a vaga na decisão deste sábado (21/3), às 16h, no Estádio Nacional Mané Garrincha, alviverdes e alvinegros caminham lado a lado quando a espiritualidade entra em campo e apostam em uma tradição consolidada para levantar a taça. Antes dos jogos, os dois clubes seguem um ritual em comum: o de montar um altar nos vestiários para canalizar a energia necessária para mobilizar o lado espiritual dos jogadores e buscar sucesso no gramado.

Até aqui, os pedidos ao Divino foram atendidos. Antes da final, o Correio foi atrás das histórias de fé para entender a liturgia adotada por Gama e Sobradinho ao longo das 11 partidas já disputadas no Candangão. Nelas, os clubes montaram um espaço de crença com imagens, velas e muita oração. Os responsáveis são membros das comissões técnicas do alvinegro e do alviverde. No Periquito, a missão de organizar as imagens é do roupeiro Francisco Pereira Neto, o Netão. No Leão da Serra, Valter Soares Leite, o Valtinho, é quem dedica o tempo, antes mesmo da chegada dos atletas, para a função.

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No Gama, o altar virou parte da rotina, quase um personagem a mais da campanha. Em um canto silencioso do vestiário, imagens dividem espaço e significado. Na semifinal contra o Ceilândia, Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião, Santa Teresinha do Menino Jesus e São Bento acolheram os pedidos dos alviverdes antes de a bola rolar. Aos poucos, os jogadores se aproximam, cada um com a própria forma de se conectar. Ao redor delas, velas acesas, mãos unidas e pensamentos voltados para um objetivo comum, alcançado depois dos 90 minutos de entrega em campo. O ambiente se transforma em um ponto de encontro espiritual dentro de um cenário dominado por concentração e tensão.

Neto mantém tradição religiosa no alviverde
Neto mantém tradição religiosa no alviverde antes das partidas (foto: Filipe Fonseca/Gama)

"Já passei por vários clubes e, geralmente, cada um tem a sua fé. Você chega e já recebe de alguém da diretoria uma santinha que seja padroeira ou que gostem. Tudo é fé. Cada um tem a sua. No Gama, temos dois santinhos: Nossa Senhora Aparecida e São Sebastião. Montamos o altar no vestiário e aparecem os jogadores. Existe aquele que acende uma vela a mais, outro reza um Pai Nosso de joelho. Em alguns dias, eles fazem uma roda no altar para fazer sua oração de fé. É algo espontâneo", conta Netão, em entrevista ao Correio. A construção desse espaço não ocorre por acaso. Existe um cuidado diário, quase ritualístico, para a tradição entrar em campo. Em jogos decisivos, a presença dela ganha ainda mais peso dentro da preparação.

O altar não é imposição, mas presença. Funciona como ponto de equilíbrio e um detalhe silencioso para preparar a mente antes de o corpo entrar em ação. "Não pode faltar. Já é um ritual do clube, do roupeiro. Você tem aquilo na mente de que os jogadores, ao chegarem da concentração, vão acender uma vela ali. Ainda mais em uma decisão como essa nossa, em que a fé está acima de tudo", garante. Dentro do elenco, o ritual ganhou força coletiva ao longo da campanha. A participação deixou de ser individual e passou a representar um momento de união antes do jogo. "Desde o princípio, temos esse ritual. Se faltasse no momento exato da glória, mentalmente não ficaríamos satisfeitos. Fé é a peça principal em uma final como essa", discursa.

Se no Gama a tradição se consolidou ao longo do tempo, no Sobradinho a fé ganhou um novo significado durante a campanha. O altar montado por Valtinho carrega uma história pessoal, marcada por promessa, memória familiar e uma sequência de resultados capazes de transformar crença em convicção. "Essa santa tem uma história curiosa. No jogo contra o Gama (revés por 1 x 0), eu estava em Aparecida (SP). Tinha marcado a viagem há muito tempo. Comprei na Basílica de lá e fiz uma promessa de levar aos jogos. Depois da derrota para o Samambaia (3 x 0), levei em todos e não perdemos mais. Fiz a promessa de que voltaria lá para agradecer e acender quatro velas", conta, lembrando a bênção especial de um padre na imagem e em um boné do clube. "Só acabar o campeonato que vou voltar", garante.

No altar alvinegro, além da imagem, outro elemento chama atenção. Uma blusa azul, colocada como base, carrega um significado além do futebol. A peça pertenceu ao pai de Valtinho e se transformou em símbolo de proteção, memória e conexão emocional. "É a minha herança. Ela era do meu pai, que faleceu há quatro anos. Ia para casa dos meus pais, minha mãe me dava com cuidado, mas falava: "Lave e traga de volta". Quando meu pai faleceu, ela me disse: 'Agora é sua'. Virou meu amuleto. Passei por oito finais (com o Cataventos, time amador de Sobradinho) com essa blusa e não perdemos nenhuma", destaca. Hoje, ele promete repetir todo o ritual no Mané Garrincha.

Valtinho tem detalhe familiar no ritual diário do alvinegro
Valtinho tem detalhe familiar no ritual dos jogos do alvinegro (foto: Eduardo Ronque/Sobradinho)

A fé, no Sobradinho, também virou combustível coletivo, rendendo ocasiões marcantes para Valtinho no vestiário. "Teve um momento que juntou todo mundo. As pessoas que eu achava que não estavam ligando para a presença da santa. Praticamente o elenco todo fazendo uma oração. Isso me marcou muito. Foi uma coisa deles. A santa trouxe essa pegada de união e de fé que estava faltando", vibra. Para além das histórias, o sentimento compartilhado aponta para um mesmo caminho. Entre estratégias, treinos e ajustes táticos, existe um elemento invisível responsável por guiar cada passo até a final. "Independentemente da fé e da religião de cada um, que busquemos essa inspiração na fé. O que precisávamos fazer para chegarmos à final, nós fizemos", indica.

No Mané Garrincha, quando a bola rolar, os altares ficarão no vestiário. As velas, porém, seguirão acesas na memória de cada jogador. Entre orações silenciosas e promessas guardadas, Gama e Sobradinho entram em campo acreditando em algo além do futebol. No fim, quando o apito final ecoar, o título vai escolher apenas um lado. Mas, antes disso, a decisão já terá passado por um território cujo resultado não se mede em números. Ali, onde a fé encontra o jogo, cada lance carrega um pedido e cada gol pode soar como resposta.

  • Altar montado no vestiário do Gama antes da semifinal contra o Ceilândia
    Altar montado no vestiário do Gama antes da semifinal contra o Ceilândia Foto: Filipe Fonseca/Gama
  • Valtinho tem detalhe familiar
no ritual dos jogos do alvinegro
    Valtinho tem detalhe familiar no ritual dos jogos do alvinegro Foto: Eduardo Ronque/Sobradinho
  • Neto mantém tradição religiosa no alviverde antes das partidas
    Neto mantém tradição religiosa no alviverde antes das partidas Foto: Filipe Fonseca/Gama
  • Muito além da bola: devoção também entra em jogo para o Sobradinho
    Muito além da bola: devoção também entra em jogo para o Sobradinho Foto: Eduardo Ronque/Sobradinho
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postado em 21/03/2026 06:00
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