Resiliência. Talvez, essa seja a melhor palavra para definir o famoso Patinho Feio, um lendário Fusca remontado. O veículo ficou marcado na história do automobilismo do Distrito Federal e do Brasil. Em 1967, quatro amigos uniram forças para construir um automóvel e colocá-lo para disputar entre Porsches, Ferraris e marcas renomadas do mundo. No entanto, o segundo lugar na prova de 500km nas ruas da cidade surpreendeu até os mais otimistas. Quase seis décadas depois, o Patinho feio retorna a Brasília para ficar exposto no Museu V12 Auto Club.
Na época, o pai de Alex Dias Ribeiro, um dos integrantes do quarteto, havia sofrido um acidente de carro em uma colisão com um caminhão. Isaac Ribeiro precisou ficar seis meses internado, enquanto o Fusca sofreu perda total, restando apenas a parte do motor. Tempos depois, pelo mesmo sonho de disputar uma corrida, os amigos Zeca Vassalo, Jean Louis da Fonseca, Helladio Monteiro e Alex aproveitaram o que restou do veículo para construir um novo.
Sem muito dinheiro, mas com um objetivo em mente, o quarteto tinha cerca de três semanas para finalizar o carro. Com o que dava, compravam as peças para a montagem em ferros velhos até que, de pouco em pouco, o automóvel ficou pronto, exatamente em 17 de dezembro de 1967, a data do desafio. Era uma corrida do Campeonato Brasileiro. Os amigos não tiveram tempo de testar o carro antes de entrarem na pista. A única certeza era do apelido do carro: Patinho Feio.
"O carro era tão feio", conta Jean Louis ao Correio. A sorte não aparentava estar ao lado deles, a largada foi por sorteio e, Patinho Feio ficou na 33ª posição, a última. Para piorar, na hora da disputa, os outros corredores não queriam permitir que os amigos fossem competir. "Eles falaram: Não, vocês vão se matar. Esse carro aí não vai dar certo", recorda. Ninguém se intimidou. Com coragem, encararam o desafio. O percurso iniciou perto da Rodoviária de Brasília, passava pelo Eixinho, W3, Torre de TV e pontos turísticos da capital.
Jean foi o primeiro a conduzir o carro. "Quando largou, o motor era bem fraquinho, só que o carro era muito leve. Eu olhei, passei por um, passei por outro e falei: 'Ué, o que está acontecendo? Até me assustei. Por uma hora de corrida, do último lugar, que eram mais de 30 carros, já estava em quinto. Uma hora e meia, quando entreguei para o Alex, estava no quarto", relata. Alex, que mais tarde viria se tornar piloto da Fórmula 1, assumiu o volante. O brasiliense relembra que foram cerca de seis horas de corrida e os dois se revezavam a cada uma hora e meia.
Na reta final da prova, os amigos perceberam que havia chances reais de bater os adversários em carros luxuosos. Mas, por conta de uma lâmpada queimada, que dava sinais, o Patinho Feio precisou ficar muito tempo parado, perdendo a oportunidade do primeiro lugar. O vencedor daquela edição foi um Alfa GTV da renomada Scuderia Jolly Gancia, da Alfa Romeo. Os holofotes, contudo, ficaram para a exótica engrenagem que muitos duvidaram no começo.
Eles foram das chacotas aos aplausos. "Para Brasília e para nós, foi uma vitória. Tanto sucesso que, com essa história, a gente resolveu continuar correndo. O carro foi pegando fama. Fomos correr em Goiânia, Anápolis, Belo Horizonte e acabamos indo para o Rio de Janeiro. Até na inauguração do Autódromo de Fortaleza nós corremos", celebra.
"Além de ser uma história bonita de como a pessoa que quer correr um dia, corre. É uma lição de empreendedorismo. Falar, poxa, eu não tenho dinheiro, mas quero correr e dou um jeito. É de buscar atrás. De acreditar. Acreditar no sonho e chegar lá", incentivou. Com tanto sucesso, a história virou filme: O Fantástico Patinho Feio. Mais tarde, conquistou prêmio no Festival de Cinema Brasileiro.
Deu tão certo que os amigos decidiram abrir uma oficina juntos, a Camber PTI. Mais um acerto do quarteto. O negócio cresceu e, um tempo depois, outros colegas que também tinham esse sonho de correr pediram um emprego no local. Roberto Pupo Moreno e o tricampeão mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet, com o dinheiro que recebiam como mecânicos, começaram no kart e migraram para os carros, até chegarem à categoria principal do automobilismo.
"Nelson Piquet começou como mecânico na nossa oficina e no final foi tricampeão mundial. Tudo por conta desse carro aí. É uma lição de vida, mesmo. Em vez de ir pra festa, em vez de ficar passeando, você resolve se dedicar a uma coisa. Tudo pra gente era novidade, era sonho, era festa. Tudo era uma beleza", concluiu.
*Estagiária sob a supervisão de Marcos Paulo Lima
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