
O roteiro da construção da primeira viagem internacional do Mirassol carrega simbolismo, histórias marcantes e até a lembrança de um elo com o futebol do Distrito Federal. Hoje, o time paulista pisa fora do Brasil pela primeira vez para enfrentar a LDU, em Quito, pela segunda rodada da Libertadores da América. O horário, 23h, amplifica o peso de um confronto marcado por altitude, tradição adversária na competição continental e, curiosamente, por uma passagem marcante pelo Estádio Serejão, em Taguatinga, ainda carregada por quem ascendeu rapidamente no cenário nacional e, agora, internacional.
Principal case de sucesso recente do futebol nacional, o Mirassol carrega um mantra, exibido até na página principal do site oficial do clube: tudo realizado um dia foi sonhado. Assim, quando embarcou no avião da empresa da presidente do Palmeiras, Leila Pereira, no domingo, o centenário clube do interior de São Paulo levou consigo toda a história das últimas seis temporadas. Em 2019, o Leão sequer tinha um lugar em alguma divisão do Campeonato Brasileiro. Agora, representará o Brasil além das fronteiras do país pela primeira vez.
A viagem até Quito começou às 14h, no Aeroporto Estadual Professor Eribelto Manoel Reino, em São José do Rio Preto, internacionalizado temporariamente para atender as viagens do clube e dos adversários durante a participação na competição sul-americana. O roteiro envolveu uma parada de 1h30 em Cuiabá para os trâmites de imigração internacional e chegada ao destino às 20h30. Ontem, o Mirassol aproveitou o dia na cidade equatoriana para se aclimatar aos 2.800 metros de altitude, fator responsável por influenciar o ritmo dos jogos, exigindo preparo físico elevado e aclimatação.
Embarcar no luxuoso avião Embraer E-190, com capacidade adaptada para 98 lugares, no entanto, remonta a momentos mais complicados. Entre várias lembranças da longa caminhada, uma leva a Taguatinga, em 27 de dezembro de 2020, diante do Brasiliense, pela terceira fase da Série D. O clube do Distrito Federal esteve no caminho do Mirassol em um momento vital da campanha responsável por abrir o caminho para a sequência de acessos. Naquele dia, o time paulista perdeu para os candangos por 2 x 1, mas avançou, graças ao 4 x 0 aplicado na ida, e ganhou impulso inicial para a escalada meteórica.
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Depois do Brasiliense, a caminhada até o duelo diante da LDU passou pelo título da Série D contra o Floresta-CE, o acesso na terceira divisão em 2022, também com taça, a chegada à elite, depois do vice-campeonato da Segundona em 2024, e a campanha em meio aos gigantes do futebol do país para ganhar uma vaga na fase de grupos da Libertadores da América. Para efeito de comparação, no recorte de seis temporadas, os clubes do Distrito Federal sequer conseguiram sair da base da pirâmide do principal campeonato nacional.
"Foi um momento muito emocionante, pelas lembranças que a gente teve, e isso ninguém vai apagar. Sabemos que a altitude é um fator de muita dificuldade. Não passamos por isso jogando, mas já temos essa noção. Vamos precisar buscar informação, conhecimento e ajuda de quem já viveu isso para tomar as melhores decisões. Como vai ser jogar na altitude, com menos ar, como pressionar como a gente pressiona normalmente. É um cenário diferente de tudo aquilo que estamos acostumados", destacou o técnico Rafael Guanaes.
Curiosamente, o elo do jogo com o Distrito Federal não se limita ao Mirassol e também tem ligação com a LDU. No banco adversário, surge um personagem com ligação direta com o futebol da capital. O técnico Tiago Nunes, hoje à frente da equipe equatoriana, viveu uma etapa importante da carreira no Campeonato Candango. Em 2015, passou pelas categorias de base do Brasília, em experiência breve de dois meses, encerrada após avaliação interna negativa sobre o trabalho. No meio do mesmo projeto, levou o Paranoá ao terceiro lugar da Segundinha, mas sem conseguir continuidade na cidade.
A resposta viria nos anos seguintes. O treinador construiu trajetória no cenário nacional e continental. Em Quito, reencontra simbolicamente um ponto de partida, agora em posição oposta, liderando uma equipe semifinalista da última edição da Libertadores e acostumada ao ambiente da altitude.
A história recente do Mirassol se encaixa em um roteiro raro no futebol brasileiro. De participante da Série D em 2020 a representante do país na Libertadores, o clube construiu trajetória baseada em planejamento e aproveitamento de oportunidades. A passagem por Taguatinga, naquele fim de ano de pandemia de covid-19, surge como marco simbólico de uma virada de dimensão internacional. O confronto com a LDU ultrapassa o campo esportivo imediato. Carrega memórias, reencontros e significados acumulados ao longo de anos de escalas em direção ao sucesso.

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