Dezoito de julho de 2005. Aos 28 anos, Ronaldo Nazário de Lima marca o dia da aposentadoria da Seleção para o Mundial da Alemanha. "Será a minha quarta Copa e tenho de deixar lugar para outros jogadores". Um ano depois, em 1º de julho de 2006, o Brasil é eliminado pela França nas quartas de final. O Fenômeno cumpre a palavra. Pendura a camisa 9 no cabide à espera de um sucessor para o protagonista de 15 bolas na rede na história da principal competição da Fifa.
Vinte anos depois, a Amarelinha aguarda um herdeito à altura do jogador eleito três vezes número 1 em 1996, 1997 e 2002. Último artilheiro do Brasil em uma Copa do Mundo, Ronaldo fez oito gols na campanha do penta no Japão e na Coreia do Sul. Um dado levantado pelo Correio é estarrecedor — e explica o peso da carência de um centroavante desde o adeus do astro.
A contar da edição na África do Sul, o Brasil teve quatro camisas 9 diferentes na Copa: Luis Fabiano (2010), Fred (2014), Gabriel Jesus (2018) e Richarlison (2022). Juntos, eles foram às redes sete vezes! Menos do que Ronaldo sozinho na campanha do quinto título. Três anos e meio depois da eliminação contra a Croácia em 2022, a Seleção chegará à convocação no próximo dia 18 sem saber quem será o dono do algarismo mais badalado do Brasil depois da camisa 10 eternizada pelo Rei Pelé (1940-2022).
Das últimas quatro seleções, apenas uma orbitava em torno de um camisa 9. Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, fazia Elano, Kaká e Robinho abastecer o Fabuloso. Mesmo assim, havia dificuldade na Copa de 2010. Programado para contra-atacar, o time não encontrou os espaços do ano anterior, quando ganhou a Copa das Confederações de 2009 na terra de Nelson Madela. O jogo de gala dele foi contra a Costa do Marfim. Fez dois. Um deles, golaço! Marcou também contra o Chile nas oitavas, mas não decidiu na eliminação de virada contra a Holanda por 2 x 1. Robinho abriu o placar. O plano do hexa centralizado em Luis Fabiano naufragou em Port Elizabeth.
Paralelamente, Pep Guardiola e o Barcelona revolucionavam o futebol com uma linha de futebol retrô. Todos se encantavam com Messi no papel de falso 9. A reeencarnação de Matthias Sindelar, o austríaco lembrando como primeiro centroavante postiço nos anos 1930. A Hungria emulou a ideia com Nándor Hidegkuti na década de 1950. O ciclo para 2014 começou com Mano Menezes tentado adequar Neymar ao papel de falso 9 e terminou com Luiz Felipe Scolari preferindo Fred na Copa de 2014.
Tarde demais. Todo o poder havia sido entregue a Neymar. O Brasil havia sido adestrado para jogar por Neymar e não pelo êxito de um centroavante. Ótimo centroavante, Fred virou meme na Copa. Era o "cone" na boca do povo. Fez apenas um gol contra quatro do camisa 10. Sem Neymar, a Seleção não soube jogar para Fred no 7 x 1.
A esperança renasceu com Gabriel Jesus no meio do ciclo para a Copa de 2018, mas a camisa 9 e a responsabilidade tática dada por Tite para favorecer Neymar e Philippe Coutinho foram um fardo pesado. Pela primeira vez desde Zinho, em 1994, a camisa 9 terminou sem bola na rede. Romário era 11 e Bebeto usava a número 7.
Tite elegeu Richarlison na Copa de 2022. Neymar, Vini e Raphinha eram os arcos. Quando o Brasil precisou de Richarlison contra a Croácia, Neymar colocou a bola na rede e quase levou o Brasil à semi.
Resumo do drama: os artilheiros do Brasil no ciclo para 2026 são Vini, Rodrygo e Estêvão com com seis gols cada. Raphinha vem atrás com cinco. Híbrido, Endrick é o melhor camisa 9 no período com três.
