Campinas (SP) — O Brasil vive os louros de uma nova era de hegemonia no futsal. Dominante por praticamente todo o período de ascensão da modalidade em âmbito mundial durante os anos 1990 e 2000, a Seleção superou um breve período de baixa para encontrar, sob a batuta do técnico Marquinhos Xavier, o caminho para voltar a empilhar taças. Com a mentoria do catarinense de 52 anos, a equipe verde e amarela ostenta o status de atual campeã da Copa do Mundo, da Copa América e da Copa das Nações, conquista obtida em Brasília, em 2025. Em meio ao sucesso, a conexão com o povo surge como trunfo extra. O fator é compartilhado pelo treinador, inclusive, como elemento capaz de inspirar também as equipes nacionais de futebol de campo nos próximos mundiais.
Em entrevista concedida ao Correio durante participação no CBC & Clubes Expo, fórum promovido pelo Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), em Campinas, entre 22 e 25 de abril, Marquinhos Xavier celebrou o momento especial atravessado pela Seleção de futsal após liderar um amplo processo de renovação. O treinador assumiu a equipe nacional em 2017, pouco depois da pior campanha brasileira em Copas do Mundo da modalidade. Na edição de 2016, o país caiu pela primeira vez nas oitavas de final da competição. Gradualmente, o técnico tricampeão da Libertadores pavimentou o caminho para recolocar o Brasil no topo do cenário internacional, feito concretizado em mais de 100 partidas à frente da equipe.
A retomada do protagonismo mundial passa, na visão do treinador, por um processo estrutural construído nos bastidores. Para Marquinhos Xavier, o crescimento recente da modalidade no país também encontra sustentação no investimento profissional e no fortalecimento institucional proporcionado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), gestora da modalidade desde 2021. "É realmente um momento especial, que acaba encontrando uma estrutura um pouco mais adaptada, com o apoio de uma entidade muito forte, que é a CBF, dentro do futebol e do beach soccer também. E o investimento nos profissionais, na formação de todos nós, isso tem garantido para gente a manutenção da hegemonia. Isso é fundamental", avalia.
O cenário de domínio internacional também traz uma consequência inevitável: a pressão permanente por resultados. Acostumado à cobrança diária desde a chegada ao comando da Seleção, Marquinhos Xavier admite o desgaste provocado pela exigência constante, mas trata o contexto como parte natural da função de dirigir uma seleção nacional. O treinador defende, inclusive, a divisão de responsabilidades dentro da comissão técnica e do grupo como mecanismo importante para preservar equilíbrio emocional e continuidade do trabalho.
"Passa a ser natural na medida em que a gente vai se adaptando com tudo que acontece. Claro que tem a parte cruel, que é a saúde mental, o estresse, o desgaste. Temos focado muito no desenvolvimento de atletas e de outros profissionais para conseguirmos seguir. Não acho que uma pessoa só consiga carregar tudo isso sozinha. Então, dividimos bastante essa responsabilidade e tem dado certo. O mais importante, além do resultado que todo mundo busca dentro do esporte, é a gente continuar transmitindo valores e propósitos de trabalho que vão ajudar as pessoas a crescerem de uma forma geral", explica.
Embora modalidades distintas, a pressão é algo compartilhado pelos profissionais do futebol e do futsal. Se a Seleção da modalidade da bola pesada está em alta pela conquista do hexacampeonato na Copa do Uzbequistão, em 2024, a de campo atravessa o período de cobrança para colocar a sexta estrela no peito no Mundial dos Estados Unidos, do México e do Canadá, em 2026. No próximo ano, as atenções vão se voltar ao time feminino. Ainda sem conquistas no torneio da Fifa, a equipe tentará a taça inédita na edição disputada no Brasil. Para Marquinhos, há um caminho capaz de fortalecer a confiança: a potencialização da identificação entre campo e arquibancada.
O treinador da Seleção de futsal vê a aproximação com a torcida como algo pendente a ser retomado no futebol. "Quebrar a barreira do distanciamento com o torcedor, com a comunidade, e mostrar dentro de campo valores que o brasileiro naturalmente já demonstra todos os dias: esforço e dedicação. Não é só a técnica que vence jogo. A energia de um país contagia, ajuda", sugere. "Acredito que o grande passo é esse. Romper essa distância que passou a existir entre o atleta, as comissões e o povo. Se não conseguirmos isso, dificilmente vamos ter essa força que empurra, às vezes, a bola para dentro e tira a do adversário do nosso gol", projeta.
Em meio ao atual domínio internacional do futsal, Marquinhos Xavier defende a manutenção da essência brasileira como peça indispensável para sustentar o país no topo. Além dos títulos, o treinador enxerga a modalidade como um espaço de reconstrução da identidade esportiva nacional, baseada em proximidade com o torcedor, senso coletivo e entrega dentro de quadra. Em um período no qual o futebol brasileiro busca recuperar protagonismo mundial também nos gramados, o case de sucesso recente das quadras surge como exemplo de um caminho capaz de aproximar novamente Seleção e arquibancada.
Três perguntas para...
Marquinhos Xavier, técnico da Seleção Brasileira de Futsal
Qual a importância de compartilhar conhecimento em eventos como o CBC & Clubes Expo?
Foi especial não só para mim, mas para comunidade do futsal. Um evento dessa grandeza... a gente acompanha o trabalho que o CBC faz há muito tempo. Poder ser incluído no hall de muitos clubes e modalidades é motivo de satisfação. Aproveitamos a oportunidade para deixar uma mensagem, para marcar a presença como uma modalidade importante na cultura do Brasil e, acima de tudo, encontrar tantas pessoas e aprender com a lição que o esporte tem dado para crianças e jovens dentro do nosso país.
O que falta para o futsal entrar no programa dos Jogos Olímpicos?
Esse alinhamento entre as entidades. É uma campanha orquestrada de toda a comunidade do futsal de trazer o Comitê Olímpico do Brasil (COB) mais para próximo para que ele também nos ajude nessa luta junto ao Comitê Olímpico Internacional (COI). É paciência. Não quemos excluir nenhum esporte. Achamos que todos os que estão no programa são importantes. Falamos em aumentar o número, mostrar que temos uma força muito grande. Daqui a pouco, essa oportunidade vai acontecer. Enquanto não acontece, a gente precisa se preparar e estar estruturado.
No ano passado, o Brasil foi campeão da Copa das Nações em Brasília. Qual impressão teve da cidade?
Muito boa. Fomos muito bem acolhidos. Temos a perspectiva de ter competições esse ano ainda em Brasília. A cidade tem se credenciado a ser não só a capital federal, mas também a capital do esporte. Isso é muito bacana, porque é uma oportunidade das pessoas conhecerem um centro que foi reconhecido mundialmente pelo sistema que é gerido por meio das instituições políticas, mas também, o lado da saúde, o lado do bem-estar, do esporte, da educação, da cultura. E a gente fica feliz de estar na capital federal junto com a nossa Seleção.
*O repórter viajou a convite do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC)
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