COPA DO MUNDO

Conheça Tico, o scout que acreditou em Igor Thiago após vários 'nãos'

Admilson Oliveira enxergou vocação no então garoto quando ninguém lhe abriu as portas. Hoje, ele se dedica a realizar os sonhos de outras joias espahadas pelo Brasil

Em uma rua de Planaltina, mora um ex-jogador responsável por ajudar a pavimentar o caminho de Igor Thiago até a Seleção Brasileira. Enquanto o atacante brasiliense recebia vários "nãos", Admilson Oliveira, o Tico, enxergou no garoto a vocação para brilhar no futebol. Aos 61 anos, ele carrega a experiência de quem precisou tomar decisões em frações de segundos como atacante. Agora, dedica-se a realizar sonhos de jovens garotos espalhados pelo Brasil.

Com apenas 13 anos, Tico decidiu não herdar os negócios da família para viver da paixão pelo esporte mais popular do país. Sem muito apoio dos pais, encarou o desafio de jogar bola profissionalmente nos campos do DF na década de 1980.

Aos 15 anos, saiu de casa para jogar no Tiradentes. Aos 16, embarcou rumo ao Rio para vestir a camisa do Vasco. De volta ao DF, defendeu o Planaltina. Na juventude, foi destaque do clube em 1986. Com os holofotes voltados para ele, foi vendido ao Matsubara, do Paraná, e decolou no mundo da bola.

O atacante passou pelo Athletico-PR, Coritiba, Paços Ferreira, Vitória e retornou ao Matsubara no fim da carreira, clube no qual se aposentou. Desde então, começou a trabalhar do outro lado do balcão no esporte. Virou olheiro. Em 2015, tornou-se scout de futebol no Furacão — e Tico cruzou o caminho de Igor Thiago. No ano seguinte, Sérgio Gonçalves Silva, o Serginho, pastor-técnico de Thiago em um projeto social na Cidade Ocidental (GO), convidou Admilson para avaliar a promessa do Distrito Federal.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - Tico e as memórias dos tempos de atacante

"No primeiro treino, não foi nada de especial", revela em entrevista ao Correio. Mas um lance no fim do treino chamou a atenção: Igor Thiago domina a bola no peito e chuta de voleio no fundo da rede. Um golaço, segundo o scout. "Eu falei: 'Opa. Ali, tem uma possibilidade diferente'", recorda.

Foram 20 dias acompanhando a joia brasiliense. O suficiente para levá-lo à peneira do Athletico-PR. O primeiro "não" do atacante. Tico investiu no preparo físico do garoto e o treinou para uma nova avaliação no time rubro-negro. Igor Thiago ouviu o segundo "não".

Voltando para Brasília, Admilson recebeu uma ligação do presidente do Futebol Clube Verê, pedindo um atacante. A chance perfeita para Igor Thiago. "Ele falou assim: 'O meu time está redondinho, falta o centroavante'. Falei: 'O centroavante está aqui do meu lado, eu vou levar para você'", exclamou.

De primeira, o técnico da época não quis ficar com Igor Thiago. Pediu um jogador mais pronto. "Eu morava em Ponta Grossa, peguei meu carro e fui destinado a levar de volta o Thiago para Brasília. Fui comer uma pizza com o presidente e ele me perguntou o que eu achava do Thiago. Eu falei que ele vai ser jogador. Ele me perguntou se eu estava falando sério e respondi que sim", relembrou.

"No outro dia, nós tivemos uma reunião com o treinador. Aí, ele falou que preferia um jogador mais pronto. Eu olhei para o presidente: ele deu um tapa na mesa e disse que o Thiago ficaria. Ali, mudou a trajetória da vida dele", afirma.

Igor Thiago foi vice-artilheiro do Campeonato Paranaense Sub-17 em 2018, com 18 gols. Só não conquistou a artilharia porque o goleiro do Londrina era o responsável por bater os pênaltis e marcou 22. O Verê ganhou o Estadual com o garoto contra o Paraná.

"Hoje, eu brinco com o Juliano, que mora na Itália. O Thiago não batia no Verê, cara. Bate na Premier League, na Seleção Brasileira. Em 2018, oito anos atrás, o cara não batia pênalti no Verê. O futebol é muito doido. Eu falo que é o mundo mais louco que tem", brinca.

Mesmo assim, o brasiliense recebeu muitos "nãos" até escutar o "sim" definitivo. Na final entre Paraná e Verê, no jogo de ida, vitória para o time alviverde por 2 x 1, com dois gols de Igor. Naquela partida, o Mário Celso Petraglia, presidente do Athletico, havia enviado três scouts do futebol profissional para avaliar o jogador. O centroavante foi rejeitado pela terceira vez. "Na mesa, no outro dia, eu quase briguei com os caras", relembra Tico.

Apesar da revolta, Tico entende que a tripla rejeição foi o melhor para a vida de Thiago. Para um jogador que, desde a infância, vendeu o almoço para comer a janta, desistir nunca foi uma opção. Pouco tempo depois, ele foi para o Cruzeiro, na época em que a Raposa sofria com o rebaixamento e a gestão do clube não era das melhores. "Se o Cruzeiro estivesse bem, não o liberaria por tão pouco dinheiro para ir para a Bulgária", pontuou Tico, referindo-se à transferência para o Ludogorets.

Entre tantos "nãos" ouvidos por Igor Thiago, ele ouviu o "sim" mais importante para um jogador de futebol: o da Seleção Brasileira. Após a morte precoce do pai, aos 13 anos, ele precisou abandonar o futebol para ser servente de pedreiro. Aos 24, veste a camisa da Amarelinha depois de uma temporada extraordinária pelo Brentford. Ele é vice-artilheiro da Premier League com 22 gols, quatro atrás do norueguês Haaland, e vai em busca do sonho de conquistar o hexacampeonato a partir do dia 27, quando o plantel se apresentará na Granja Comary, em Teresópolis, Região Serrana do Rio.

Igor Thiago estreou com a Amarelinha na vitória por 3 x 1 contra a Croácia, em março, em Orlando, na Flórida. Fez o segundo gol do Brasil em uma cobrança de pênalti sofrido pelo conterrâneo Endrick. Carlo Ancelotti ordenou que ele batesse, e converteu. A próxima aparição deve ser contra o Panamá no dia 31, no Maracanã, na despedida do plantel do país rumo aos treinos em New Jersey, nos EUA. A Seleção ainda enfrentará o Egito, em 6 de junho, em Cleveland, antes da estreia contra Marrocos no dia 13, às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, o palco da finalíssima da Copa, em 19 de julho.

*Estagiária sob a supervisão de Marcos Paulo Lima

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