
SOLNA (SUÉCIA) — Pouco resta da atmosfera de estádio que durante décadas marcou a paisagem de Solna, município vizinho a Estocolmo. No terreno onde ficava o lendário estádio Råsunda, palco da conquista do primeiro título mundial do Brasil em 1958, hoje predominam cenas comuns do cotidiano urbano sueco: estudantes conversando após as aulas, crianças praticando esportes, moradores pedalando e frequentando cafés e pequenos restaurantes.
A transformação é tão profunda que um visitante desavisado dificilmente imaginaria que ali existiu uma das arenas mais importantes da história do futebol mundial. Inaugurado em 1937 e demolido em 2013, o Råsunda foi durante 75 anos a casa da seleção sueca e do AIK, um dos clubes mais tradicionais do país. O estádio entrou para a história por sediar a final da Copa do Mundo de 1958, quando o Brasil derrotou a Suécia por 5 a 2 e conquistou seu primeiro título mundial, com uma atuação memorável do então jovem Pelé, de apenas 17 anos.
Além da Copa masculina de 1958, o estádio recebeu a final da Copa do Mundo Feminina de 1995, tornando-se um dos únicos do planeta a sediar as decisões dos dois torneios. A última partida disputada lá, inclusive, teve a participação da Seleção Brasileira: 3 a 0 nos donos da casa.
Equipamentos comunitários
A visita ao local revela uma paisagem completamente diferente da que existia durante os dias de jogos. O enorme anel de concreto que abrigava até 50 mil torcedores desapareceu. Em seu lugar surgiu o Kvarteret Lagern, um projeto de reurbanização que integrou moradias, áreas públicas, comércio e equipamentos comunitários.
A região tem perfil predominantemente residencial. Pequenos restaurantes, uma pizzaria, um pub e alguns cafés dividem espaço com edifícios residenciais modernos. O movimento é tranquilo e distante da agitação típica de um grande estádio.
No centro do antigo terreno há uma ampla praça pública cercada por áreas de convivência. É a Rasunda Torg. Bicicletas estacionadas, mesas ao ar livre e moradores utilizando o espaço ajudam a compor o cenário. O ambiente foi planejado para estimular encontros e permanência das pessoas na rua.
Uma das mudanças mais perceptíveis é a presença de uma escola municipal instalada em um prédio que anteriormente servia às atividades administrativas ligadas ao futebol. Durante a visita, era possível observar estudantes reunidos nos espaços externos, conversando e praticando esportes. Um deles, identificado como Larssen, contou que, de em vez em quando, amantes do futebol vão ao local atrás de uma foto entre os monumentos. "Você não é o primeiro brasileiro com quem converso. Outros já tiveram aqui", diz o rapaz de 17 anos.
Embora o futebol tenha marcado a história do local, hoje outras modalidades parecem dividir a atenção dos jovens. Quadras de basquete recebem mais praticantes do que os campos de futebol, refletindo hábitos esportivos diferentes daqueles associados ao passado do estádio.
Apesar da transformação urbana, a história do Råsunda não foi completamente apagada. Ao caminhar pela área, o visitante encontra diferentes referências ao passado esportivo do local. Uma placa memorial instalada em 2022 marca a importância histórica da antiga arena. Há também elementos artísticos espalhados pelo espaço público que fazem referência a atletas, eventos esportivos e personalidades ligadas à região.
Próximo à praça, em uma caminhada de menos de 200m, logo ao lado da estação do metrô, pequenas fontes e monumentos ajudam a construir uma conexão entre passado e presente. O projeto urbanístico procurou preservar a memória coletiva sem manter a estrutura física do estádio.
As próprias ruas do novo bairro carregam referências ao futebol. Algumas receberam nomes inspirados em elementos do jogo e em personagens históricos ligados ao AIK e à seleção sueca.
Entre as homenagens mais simbólicas está a presença do nome de Pelé gravado na instalação artística Stjärnskott, um grande mosaico urbano construído ao longo do espaço público. A obra ocupa mais de 4.400 metros quadrados e reúne referências ao esporte, ao cinema e à história local.
Do estádio à sustentabilidade
A substituição do Råsunda não representou apenas uma mudança arquitetônica. O projeto buscou atender às necessidades de crescimento populacional da região metropolitana de Estocolmo.
O novo bairro foi planejado para receber entre 600 e 700 unidades habitacionais. Parte dos empreendimentos ainda está em construção, com previsão de novas entregas até o fim da década.
Além das moradias, a área ganhou infraestrutura educacional, espaços verdes e sistemas de drenagem voltados para enfrentar eventos climáticos extremos. Jardins especiais foram criados para absorver grandes volumes de água da chuva e reduzir riscos de alagamentos.
O projeto também priorizou a circulação de pedestres e ciclistas, característica comum no planejamento urbano sueco. A presença constante de bicicletas e a redução da dependência do automóvel são facilmente percebidas por quem visita a região.
O contraste entre passado e presente
A principal impressão deixada pelo antigo Råsunda é justamente a normalidade. O local que recebeu finais de Copa do Mundo, partidas históricas da seleção sueca e momentos marcantes do futebol internacional transformou-se em um bairro comum da vida urbana escandinava. Não há grandes estruturas remanescentes nem monumentos grandiosos dominando a paisagem.
Em vez de multidões vestidas com as cores de seus times, surgem estudantes voltando da escola, moradores tomando café e famílias utilizando os espaços públicos. A mudança reflete uma estratégia adotada por Solna para evitar que a área se tornasse um grande vazio urbano após a construção da Friends Arena, novo estádio da região inaugurado em 2012.
Mais de uma década após a demolição, o antigo palco da final da Copa de 1958 segue vivo na memória e nas referências espalhadas pelo bairro. Mas a rotina que hoje ocupa o terreno é outra. Onde antes milhares de torcedores comemoravam gols, agora crianças brincam, moradores circulam de bicicleta e a vida cotidiana segue seu curso em uma praça cercada por cafés, escolas e residências.

Esportes
Esportes
Esportes
Esportes
Esportes
Esportes