
O Haiti tem dois gols na Copa. Ambos marcados pelo mesmo personagem há 52 anos: Wilfried Louis Emmanuel Sanon, o Manno Sanon. Para o futebol do país, ele representa muito mais do que um ex-atacante. É o símbolo da maior façanha do esporte nacional.
A história remete a 1974. O Haiti jamais havia disputado o Mundial e surpreendeu a Concacaf. Deixou para trás concorrentes tradicionais, assegurou presença na Alemanha e tornou-se o primeiro representante do Caribe em uma Copa desde Cuba, em 1938.
Sanon era a referência do elenco haitiano. Rápido, oportunista e decisivo, concentrava as esperanças de uma nação que encontrava no futebol a projeção internacional.
A estreia parecia um exercício de sobrevivência. Do outro lado estava a poderosa Itália. Na meta, um dos maiores goleiros de todos os tempos: Dino Zoff. Os primeiros 45 minutos terminaram sem alteração no placar. Para os haitianos, aquilo tinha sabor de feito.
O melhor estava por vir. Logo após o reinício, Philippe Vorbe encontrou Sanon em velocidade. O camisa 9 ganhou da marcação e tocou na saída de Zoff. Haiti 1 x 0.
Por alguns instantes, o improvável tomou conta da Alemanha. A jogada teve um peso ainda maior. O atacante acabava de interromper uma sequência de 1.142 minutos sem que Dino Zoff fosse vazado defendendo a seleção italiana. A marca considerada inalcançável caiu diante de um desconhecido vindo da América Central.
A Itália reagiu. Venceu por 3 x 1 e seguiu a caminhada naquele torneio. O resultado, porém, tornou-se secundário. A arrancada de Sanon atravessou décadas e permanece como uma das imagens mais celebradas do futebol haitiano.
O atacante guardava mais um capítulo para aquela competição. Depois da goleada sofrida por
7 x 0 diante da Polônia, os caribenhos encerraram a participação contra a Argentina. Na derrota por 4 x 1, Sanon voltou a marcar. Era o segundo gol no Mundial.
Seria também o último da seleção haitiana em Copas durante mais de cinco décadas. Nenhum compatriota repetiu o feito desde então.
A repercussão daquele torneio abriu as portas da Europa. O atacante se transferiu para o Beerschot, da Bélgica, virou ídolo e conquistou a Copa da Bélgica. Pelo Haiti, acumulou 37 gols em 65 partidas e se consolidou como a principal referência do futebol haitiano.
O reconhecimento veio em diferentes formas. Em 1994, a revista France Football incluiu o nome dele entre os 100 heróis dos Mundiais. Cinco anos depois, recebeu o título de Atleta Haitiano do Século. Uma distinção rara para quem participou de apenas três partidas na principal competição do planeta.
Wilfried Louis Emmanuel Sanon morreu em 2008, aos 56 anos, vítima de câncer no pâncreas. A presença do ex-atacante, no entanto, continua viva na memória coletiva do país. Sempre que a seleção desafia adversários mais poderosos, a lembrança daquela arrancada contra a Itália ressurge. Não será diferente contra o Brasil. O time de Carlo Ancelotti foi vazado nas últimas seis partidas. Há craques que deixam números. Outros, legado. Sanon é deste time. (MPL)

Copa 2026
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