COPA DO MUNDO

Famiglia Ancelotti: Gabriel Magalhães, o goleador que virou zagueiro

Levado pelo pai ao local errado para um teste na infância, defensor viu a carreira mudar de rumo ao deixar de ser atacante. Hoje, o beque do Arsenal estreia em Copas do Mundo como sucessor de Thiago Silva e praticamente intocável ao lado de Marquinhos

Em um sistema desenhado para potencializar o talento de quatro atacantes, é pouco provável que o Brasil de Carlo Ancelotti precise recorrer aos defensores para resolver problemas ofensivos na Copa do Mundo. Em caso de emergência, porém, Gabriel Magalhães oferece uma alternativa valiosa. Na infância, em Pirituba, na zona norte de São Paulo, o defensor usava e abusava da estatura acima da média para atuar como referência no ataque. Era tão talentoso para definir jogadas quanto descobriria, anos depois, que era para impedir as dos adversários. Arsenal e Seleção Brasileira agradecem.

A mudança de posição aconteceu quase por acaso. Gabriel chegou a uma escolinha de futebol da Grande São Paulo após um desencontro do pai, Marcelo Magalhães, que o levou ao local errado para uma avaliação. O porte físico chamou atenção imediatamente. Muito mais alto do que os garotos da mesma idade — a ponto de despertar suspeitas de que era "gato", expressão usada para atletas que adulteram a idade nas categorias de base —, ouviu de um treinador que a combinação entre força, impulsão e estatura seria mais valiosa na defesa. Sugestão aceita, que o levou profissionalmente ao Avaí. Não demorou para se destacar em Florianópolis e partir rumo à Europa. Antes de brilhar no Arsenal, aventurou-se na França, por Lille e Troyes, viveu o futebol croata no Dinamo Zagreb e se mudou para o Norte de Londres.

Aos 28 anos, Gabriel disputará a primeira Copa do Mundo da carreira. A estreia pode parecer tardia para um jogador consolidado em uma das principais ligas do planeta. Com a mesma idade, Marquinhos já havia participado de dois Mundiais. Thiago Silva assumiu a titularidade da Seleção quatro anos antes, na Copa de 2014. A saída gradual do ex-capitão abriu espaço para uma nova liderança defensiva. É justamente esse posto que Gabriel ocupará na América do Norte.

Antes tarde do que nunca. Embora seja hoje um nome incontestável ao lado de Marquinhos, o zagueiro do Arsenal conviveu com lesões que limitaram a participação no ciclo conduzido por Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. A convocação chega em boa hora. Nos 11 jogos sob o comando do treinador italiano, o Brasil sofreu 10 gols. Em busca da formação ideal, Ancelotti testou oito duplas de zaga diferentes, mas jamais escondeu a preferência pela parceria entre os xerifões de Arsenal e Paris Saint-Germain.

Não é simples agradar a Carlo Ancelotti quando o assunto é defesa. Orgulhoso representante da escola italiana, o treinador cresceu ao lado de dois dos maiores defensores da história, Franco Baresi e Paolo Maldini. Como técnico, transformou a obsessão por solidez em marca registrada e construiu equipes apoiadas em líderes do calibre de Alessandro Nesta, Fabio Cannavaro, John Terry e Sergio Ramos.

Tetracampeão mundial em 1994, justamente nos Estados Unidos, Ricardo Rocha também tem uma dupla favorita para a Copa. "Marquinhos e Gabriel Magalhães. Não significa que os outros não possam jogar, mas acho que ele deve começar com os dois. E Copa do Mundo muda muita coisa. Em 1994, a dupla titular era eu e Ricardo Gomes. O Ricardo se machucou uma semana antes da Copa. Depois, eu me machuquei no primeiro jogo. Entrou o Aldair e foi muito bem. O Brasil tem bons zagueiros", analisou ao Correio.

A história das Copas costuma reservar lugar especial para grandes defensores. Desde o uruguaio José Nasazzi, campeão em 1930, zagueiros aparecem repetidamente entre os capitães vencedores do torneio. Entraram para esse seleto grupo os brasileiros Bellini, em 1958, e Mauro Ramos, em 1962, além do inglês Bobby Moore, do alemão Franz Beckenbauer, do argentino Daniel Passarella e do italiano Fabio Cannavaro. Gabriel Magalhães não carregará a braçadeira na América do Norte, mas tentará seguir os passos de uma linhagem acostumada a erguer a taça mais cobiçada do futebol.

Léo Pereira

Léo Pereira desembarca na primeira Copa do Mundo da carreira inspirado em um dos grandes zagueiros da história recente da Seleção Brasileira. Assim como Juan, titular dos Mundiais de 2006 e 2010, o defensor do Flamengo se destaca pela qualidade na construção das jogadas e pela elegância para sair jogando. Há, porém, uma diferença importante. Enquanto o antigo camisa 4 é destro, Léo oferece a rara alternativa de um zagueiro canhoto em um setor tradicionalmente dominado por jogadores de pé direito.

Aos 30 anos, o flamenguista colhe os frutos de uma trajetória marcada pela adaptação e pela superação. Antes de se firmar como zagueiro, iniciou a carreira atuando como lateral-esquerdo. A relação com as Copas do Mundo também não é inédita. Em 2015, integrou a Seleção Brasileira vice-campeã do Mundial Sub-20 da Nova Zelândia, sob o comando de Rogério Micale. Uma década depois, retorna ao principal palco do futebol mundial em condição bem diferente.

Depois de conviver com críticas no início da passagem pela Gávea, transformou-se em peça indispensável do sistema defensivo rubro-negro e conquistou a confiança de Carlo Ancelotti praticamente na última curva antes da Copa. A convocação começou a ser construída na data Fifa de março, quando aproveitou a oportunidade recebida nos momentos finais do ciclo e entrou definitivamente no radar da comissão técnica. 

Além da segurança defensiva, passou a se apresentar como opção nas bolas paradas e até nas cobranças de falta, fundamento pouco comum para jogadores da posição. Embora inicie o Mundial atrás de Gabriel Magalhães e Marquinhos na disputa por uma vaga, desembarca na América do Norte com uma vantagem curiosa: conhece os Estados Unidos desde 2017, quando atuou pelo Orlando City, antes de defender o Athletico-PR.

Kleber Sales/CB/D.A. Press - Léo Pereira é artigo raro na zaga: canhoto, técnico e cobrador de faltas

 

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