Uma das cenas mais curiosas da minissérie Brasil 70 – A Saga do Tri, lançada recentemente pela Netflix, mostra um momento pouco conhecido da trajetória de Pelé durante a Copa do Mundo de 1970. Na cena, o Rei deixa escondido a concentração da Seleção Brasileira para visitar uma igreja católica em Valle de Bravo, no México.
A sequência chama atenção por retratar um período de grande pressão vivido por Pelé durante o Mundial. Na época, o Brasil estava sob a ditadura militar e rumores sobre um possível sequestro do craque fizeram com que sua rotina fosse cercada por medidas rígidas de segurança.
Em sua autobiografia, Pelé relembrou o clima de apreensão vivido durante a competição. "A polícia mexicana tinha recebido informe de que eu seria alvo de um sequestro. Daquele momento em diante, a polícia passou a vigiar mais de perto as concentrações do Brasil e dos outros times do nosso grupo", contou.
A preocupação aumentou quando o então presidente da República, General Emílio Garrastazu Médici, solicitou uma declaração pública do jogador para tranquilizar os brasileiros diante do cenário político do país. Segundo relatos, Pelé demonstrou resistência ao pedido por não querer ser associado à propaganda do regime militar.
Na trama, o Rei é pressionado pelos jogadores, para que, entenda o tamanho de sua influência, principalmente por Paulo Cézar Caju, que é conhecido por sua forte consciência política. Enquanto Caju tenta fazer com que Pelé use o futebol como uma arma de protesto ativo, o Rei mostrado pela série se sente sufocado pela cobrança.
Com a crescente pressão e a vigilância constante, o camisa 10 buscou uma forma de escapar, ainda que por algumas horas, da rotina sufocante. Com a ajuda do jornalista João Saldanha e do técnico Mário Zagallo, Pelé conseguiu despistar os seguranças e deixar a concentração sem chamar atenção.
Na série da Netflix, o destino do craque é uma igreja católica mexicana, onde ele busca um momento de paz e oração. A escolha do local também serve para construir um diálogo marcante entre Pelé e João Saldanha. Ao encontrar o jornalista no templo religioso, o jogador brinca: “Achei que ateu não entrasse em igreja.” Saldanha responde com humor: “Eu sou ateu, não vampiro.”
O que aconteceu na vida real
Apesar da cena retratada na produção, Pelé não se refugiou em uma igreja. Na realidade, o local que serviu como abrigo para a Seleção Brasileira durante a Copa de 1970 foi a sede da Conferência Interamericana de Segurança Social (CISS), na Cidade do México.
A adaptação para a igreja foi uma licença criativa utilizada pela série para reforçar a relação entre os personagens e representar simbolicamente a busca de Pelé por tranquilidade em meio à pressão que enfrentava.
O verdadeiro refúgio do Rei
Fundada em 1942, a Conferência Interamericana de Segurança Social é um organismo internacional dedicado ao desenvolvimento da proteção social e da previdência nos países das Américas.
Foi em uma de suas instalações que Pelé descansou durante a campanha histórica que trouxe o tricampeonato mundial da Seleção Brasileira. O quarto utilizado pelo craque foi preservado e transformado em um espaço de memória, atraindo visitantes de diferentes partes do mundo.
O local mantém diversos elementos originais da época, incluindo a cama, os móveis de madeira e a decoração simples que faziam parte da rotina do jogador durante o torneio. Entre os itens expostos estão camisas autografadas da Seleção Brasileira, fotografias históricas, troféus e uma réplica da Taça Jules Rimet, conquistada pelo Brasil após a vitória por 4 a 1 sobre a Itália na final disputada no Estádio Azteca.
Outro destaque é uma televisão de época que reproduz continuamente imagens dos gols e das jogadas de Pelé durante o Mundial de 1970. Na porta do quarto, uma placa comemorativa recorda a passagem da delegação brasileira pelo local e faz referência aos eventos realizados na sede da CISS naquele período, preservando um dos capítulos mais curiosos da história do futebol mundial.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.
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