
Nova Jersey — A Copa do Mundo dificilmente premia aluno irresponsável, reincidente, com histórico de 7 x 1 no currículo escolar. O Brasil se comportou como estudante tresloucado durante o ciclo de três anos e meio. Quem comandava a CBF brincou de trocar de técnicos depois dos seis anos e meio da Era Tite.
Ednaldo Rodrigues iniciou o projeto da Copa de 2026 delegando a prancheta a Ramon Menezes, comandante da Seleção Sub-20, na expectativa de que ele emulasse Lionel Scaloni, da Argentina. O ex-presidente contratou Fernando Diniz, Dorival Júnior, mas desejava técnico importado. Empurrou com a barriga até realizar o sonho de consumo. No último ato antes da queda, contratou Carlo Ancelotti.
A derrota do Brasil por 2 x 1 para a Noruega, ontem, pelas oitavas de final da Copa de 2026, foi o 17º jogo do italiano no cargo. Sim, ele avisou: “Não sou mago”. Porém, algumas decisões necessárias não demandam poderes sobrenaturais. Escolher um cobrador de pênalti, por exemplo.
O início da Era Ancelotti é confuso nesse sentido. No amistoso contra a Tunísia, no ano passado, Estêvão assumiu a responsabilidade e converteu. O menino ainda estava em campo quando Lucas Paquetá tomou a frente em outra cobrança, errou e o Brasil deixou de vencer o adversário africano.
“Paquetá é o cobrador de pênaltis. Quando chegou o segundo pênalti, eu mudei porque pensei em tirar um pouco de pressão do Estêvão e o Paquetá geralmente cobra muito bem”, justificou em novembro do ano passado, depois do amistoso disputado na França.
Houve novo ruído no amistoso de março deste ano contra a Croácia. Endrick havia sofrido um pênalti. De personalidade forte, o brasiliense pegou a bola para bater. Do banco, Carlo Ancelotti apontou para Igor Thiago. O especialista acertou a rede e deu início à virada.
“No jogo, quem tinha que bater o pênalti era o Matheus Cunha. Ele saiu (substituído), e o Igor Thiago é muito bom cobrador. Treinamos e ele bateu bem”, justificou.
Mas repare a incoerência
Quando Matheus Cunha sofreu pênalti depois do belo lançamento de Gabriel Martinelli, a expectativa era pela cobrança de Vinicius Junior. O protagonista do Brasil na Copa tinha quatro gols. Era um dos batedores no Real Madrid de Ancelotti. Ele até estava com a bola na mão, com pinta de que assumiria a responsabilidade.
Surpreendentemente, a missão não coube a Vini e muito menos a Matheus Cunha.
Bruno Guimarães fazia uma bela Copa com quatro assistências, mas, àquela altura, tinha somente três cobranças de pênalti no tempo regulamentar: uma pelo Lyon e duas com o Newcastle, a última delas em fevereiro. O aproveitamento era de 100% até cobrar à meia altura e começar a tornar o goleiro Nyland um dos heróis vikings.
Levantamento do Correio aponta que o Brasil fez 12 gols de pênalti no ciclo encerrado ontem contra a Noruega. Lucas Paquetá acertou quatro, Raphinha fez três, Vinicius Junior converteu dois e Neymar, Estêvão e Igor Thiago colocaram uma na rede, cada.
Portanto, dos seis, apenas Vini estava em campo no momento crucial da partida. A Noruega havia aberto o placar em um gol corretamente anulado e dominava a partida no MetLife Stadium.
Questionado pelo Correio na entrevista coletiva sobre o motivo de Bruno Guimarães ter batido o pênalti, e não Vini, Carlo Ancelotti deu uma resposta atribuída aos números e não ao melhor momento do protagonista da Seleção na Copa.
“A escolha foi porque fizemos uma estatística de um ano de jogadores rivais e dos nossos. O melhor a bater o pênalti é Neymar, depois Igor Thiago, depois Raphinha, depois Bruno Guimarães, depois Martinelli”, alegou.
Endrick decepciona
Bruno Guimarães não pecou sozinho. Requisitado pela torcida desde a estreia contra Marrocos, Endrick entrou com pinta de iluminado. Vini compensou a fraquejada na hora de requisitar o direito de bater o pênalti com um lançamento milimétrico para o brasiliense. Ele invadiu a área sozinho, atrapalhou-se na frente de Nyland e perdeu a melhor oportunidade.
Endrick é jovem. O erro aos 19 anos na primeira Copa da vida é tolerável. Inaceitável é o Brasil não ter um camisa 9 minimamente confiável há 20 anos, desde a aposentadoria de Ronaldo, o Fenômeno.
Sucessores dele, Luis Fabiano (2010), Fred (2014), Gabriel Jesus (2018) e Richarlison (2022) eram esforçados. Matheus Cunha também. Brilhou contra o Haiti e balançou a rede contra a Escócia. Nenhum deles, porém, é como Erling Haaland.
O centroavante parecia morto, como nos referíamos ao Romário na Copa de 1994, mas tem o instinto “assassino” do Baixinho. Aos poucos, foi minando o par de zagueiros formado por Gabriel Magalhães e Marquinhos. Começou a ganhar duelos na base da força, deixava os defensores no chão e fez valer a altura de 1,95 m ao cabecear para superar Gabriel Magalhães e o goleiro Alisson na finalização letal no canto direito, aos 34 minutos do primeiro tempo.
Grandão depois do gol, Haaland ignorou a presença de Neymar em campo. Explorou a confusão tática de Carlo Ancelotti depois das entradas de Endrick, Danilo Santos, Neymar e Éderson. Diante de um Brasil fragilizado e desentrosado com a repentina postura ofensiva, Haaland colocou Danilo e Gabriel Magalhães no bolso antes de acertar o canto esquerdo.
Melancolia e futuro difícil
Culpado nas últimas duas eliminações em Copas, o goleiro Alisson fazia a melhor partida dele em mata-mata. Protelou a eliminação enquanto foi possível, mas novamente não evitou.
Em uma cena melancólica, Neymar ainda teve direito a cobrar um pênalti e conseguiu se irritar com a guerra mental proposta por Nyland. Converteu a cobrança. Balançou a rede pela nona vez em quatro participações e se despediu do torneio com cartão amarelo durante os 23 minutos em que esteve em campo.
Quem aplaudiu a convocação do camisa 10 em 18 de maio testemunhava, provavelmente, o último ato de Neymar com a camisa do Brasil.
A história iniciada ali mesmo no MetLife, em 10 de agosto de 2010, quando vestia a camisa 11 sob o comando de Mano Menezes e fez o primeiro gol da vitória por 2 x 0 contra os Estados Unidos, estava encerrada.
“Agora acabou. Comecei aqui e fechei aqui”, disse na saída de campo.
O Brasil deixa a Copa do Mundo eliminado por uma seleção europeia pela sexta vez consecutiva. A sina começou em 2006, diante da França; continuou com a Holanda em 2010; acelerou em 2014, na maior derrota da história da Seleção, o 7 x 1 para a Alemanha no Mineirão; foi ampliada pela Bélgica em 2018, pela Croácia em 2022 e decretada pela Noruega em 2026. Há eliminações contra adversários de todas as regiões do Velho Continente.
Fantasma de 1990
Contratado por um Brasil cansado de técnicos brasileiros, o italiano Carlo Ancelotti repete Sebastião Lazaroni em 1990. Aquela havia sido a última queda da Seleção nas oitavas de final, na derrota por 1 x 0 para a Argentina.
A geração de 1992, formada por Alisson, Danilo, Alex Sandro, Casemiro e Neymar, acabou. Uma nova, com Estêvão, Endrick e Rayan, reforçada pela experiência de Vinicius Junior e Rodrygo, começará a nascer em setembro contra a Austrália com a missão de encerrar, em 2030, a maior abstinência do Brasil em Copas: 28 anos.
Vale lembrar: de 1930 a 1958, quando o Brasil conquistou o primeiro título, não houve Copa do Mundo em 1942 nem em 1946 devido à Segunda Guerra Mundial.

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