COPA DO MUNDO

Desordem marca eliminação no Brasil em jogo contra a Noruega

Erro na escolha do cobrador de pênalti, improvisos em momentos decisivos e show de Haaland eliminam o Brasil pela sexta Copa seguida contra rival europeu

 Brazil's Italian head coach Carlo Ancelotti (2L) reacts during the 2026 World Cup round of 16 football match between Brazil and Norway at the New York/New Jersey Stadium in East Rutherford on July 5, 2026.  (Photo by Pedro UGARTE / AFP)
       -  (crédito:  AFP)
Brazil's Italian head coach Carlo Ancelotti (2L) reacts during the 2026 World Cup round of 16 football match between Brazil and Norway at the New York/New Jersey Stadium in East Rutherford on July 5, 2026. (Photo by Pedro UGARTE / AFP) - (crédito: AFP)

Nova Jersey — A Copa do Mundo dificilmente premia aluno irresponsável, reincidente, com histórico de 7 x 1 no currículo escolar. O Brasil se comportou como estudante tresloucado durante o ciclo de três anos e meio. Quem comandava a CBF brincou de trocar de técnicos depois dos seis anos e meio da Era Tite.

Ednaldo Rodrigues iniciou o projeto da Copa de 2026 delegando a prancheta a Ramon Menezes, comandante da Seleção Sub-20, na expectativa de que ele emulasse Lionel Scaloni, da Argentina. O ex-presidente contratou Fernando Diniz, Dorival Júnior, mas desejava técnico importado. Empurrou com a barriga até realizar o sonho de consumo. No último ato antes da queda, contratou Carlo Ancelotti.

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A derrota do Brasil por 2 x 1 para a Noruega, ontem, pelas oitavas de final da Copa de 2026, foi o 17º jogo do italiano no cargo. Sim, ele avisou: “Não sou mago”. Porém, algumas decisões necessárias não demandam poderes sobrenaturais. Escolher um cobrador de pênalti, por exemplo.

O início da Era Ancelotti é confuso nesse sentido. No amistoso contra a Tunísia, no ano passado, Estêvão assumiu a responsabilidade e converteu. O menino ainda estava em campo quando Lucas Paquetá tomou a frente em outra cobrança, errou e o Brasil deixou de vencer o adversário africano.

“Paquetá é o cobrador de pênaltis. Quando chegou o segundo pênalti, eu mudei porque pensei em tirar um pouco de pressão do Estêvão e o Paquetá geralmente cobra muito bem”, justificou em novembro do ano passado, depois do amistoso disputado na França.

Houve novo ruído no amistoso de março deste ano contra a Croácia. Endrick havia sofrido um pênalti. De personalidade forte, o brasiliense pegou a bola para bater. Do banco, Carlo Ancelotti apontou para Igor Thiago. O especialista acertou a rede e deu início à virada.

“No jogo, quem tinha que bater o pênalti era o Matheus Cunha. Ele saiu (substituído), e o Igor Thiago é muito bom cobrador. Treinamos e ele bateu bem”, justificou.

Mas repare a incoerência

Quando Matheus Cunha sofreu pênalti depois do belo lançamento de Gabriel Martinelli, a expectativa era pela cobrança de Vinicius Junior. O protagonista do Brasil na Copa tinha quatro gols. Era um dos batedores no Real Madrid de Ancelotti. Ele até estava com a bola na mão, com pinta de que assumiria a responsabilidade.

Surpreendentemente, a missão não coube a Vini e muito menos a Matheus Cunha.

Bruno Guimarães fazia uma bela Copa com quatro assistências, mas, àquela altura, tinha somente três cobranças de pênalti no tempo regulamentar: uma pelo Lyon e duas com o Newcastle, a última delas em fevereiro. O aproveitamento era de 100% até cobrar à meia altura e começar a tornar o goleiro Nyland um dos heróis vikings.

Levantamento do Correio aponta que o Brasil fez 12 gols de pênalti no ciclo encerrado ontem contra a Noruega. Lucas Paquetá acertou quatro, Raphinha fez três, Vinicius Junior converteu dois e Neymar, Estêvão e Igor Thiago colocaram uma na rede, cada.

Portanto, dos seis, apenas Vini estava em campo no momento crucial da partida. A Noruega havia aberto o placar em um gol corretamente anulado e dominava a partida no MetLife Stadium.

Questionado pelo Correio na entrevista coletiva sobre o motivo de Bruno Guimarães ter batido o pênalti, e não Vini, Carlo Ancelotti deu uma resposta atribuída aos números e não ao melhor momento do protagonista da Seleção na Copa.

“A escolha foi porque fizemos uma estatística de um ano de jogadores rivais e dos nossos. O melhor a bater o pênalti é Neymar, depois Igor Thiago, depois Raphinha, depois Bruno Guimarães, depois Martinelli”, alegou.

Endrick decepciona

Bruno Guimarães não pecou sozinho. Requisitado pela torcida desde a estreia contra Marrocos, Endrick entrou com pinta de iluminado. Vini compensou a fraquejada na hora de requisitar o direito de bater o pênalti com um lançamento milimétrico para o brasiliense. Ele invadiu a área sozinho, atrapalhou-se na frente de Nyland e perdeu a melhor oportunidade.

Endrick é jovem. O erro aos 19 anos na primeira Copa da vida é tolerável. Inaceitável é o Brasil não ter um camisa 9 minimamente confiável há 20 anos, desde a aposentadoria de Ronaldo, o Fenômeno.

Sucessores dele, Luis Fabiano (2010), Fred (2014), Gabriel Jesus (2018) e Richarlison (2022) eram esforçados. Matheus Cunha também. Brilhou contra o Haiti e balançou a rede contra a Escócia. Nenhum deles, porém, é como Erling Haaland.

O centroavante parecia morto, como nos referíamos ao Romário na Copa de 1994, mas tem o instinto “assassino” do Baixinho. Aos poucos, foi minando o par de zagueiros formado por Gabriel Magalhães e Marquinhos. Começou a ganhar duelos na base da força, deixava os defensores no chão e fez valer a altura de 1,95 m ao cabecear para superar Gabriel Magalhães e o goleiro Alisson na finalização letal no canto direito, aos 34 minutos do primeiro tempo.

Grandão depois do gol, Haaland ignorou a presença de Neymar em campo. Explorou a confusão tática de Carlo Ancelotti depois das entradas de Endrick, Danilo Santos, Neymar e Éderson. Diante de um Brasil fragilizado e desentrosado com a repentina postura ofensiva, Haaland colocou Danilo e Gabriel Magalhães no bolso antes de acertar o canto esquerdo.

Melancolia e futuro difícil

Culpado nas últimas duas eliminações em Copas, o goleiro Alisson fazia a melhor partida dele em mata-mata. Protelou a eliminação enquanto foi possível, mas novamente não evitou.

Em uma cena melancólica, Neymar ainda teve direito a cobrar um pênalti e conseguiu se irritar com a guerra mental proposta por Nyland. Converteu a cobrança. Balançou a rede pela nona vez em quatro participações e se despediu do torneio com cartão amarelo durante os 23 minutos em que esteve em campo.

Quem aplaudiu a convocação do camisa 10 em 18 de maio testemunhava, provavelmente, o último ato de Neymar com a camisa do Brasil.

A história iniciada ali mesmo no MetLife, em 10 de agosto de 2010, quando vestia a camisa 11 sob o comando de Mano Menezes e fez o primeiro gol da vitória por 2 x 0 contra os Estados Unidos, estava encerrada.

“Agora acabou. Comecei aqui e fechei aqui”, disse na saída de campo.

O Brasil deixa a Copa do Mundo eliminado por uma seleção europeia pela sexta vez consecutiva. A sina começou em 2006, diante da França; continuou com a Holanda em 2010; acelerou em 2014, na maior derrota da história da Seleção, o 7 x 1 para a Alemanha no Mineirão; foi ampliada pela Bélgica em 2018, pela Croácia em 2022 e decretada pela Noruega em 2026. Há eliminações contra adversários de todas as regiões do Velho Continente.

Fantasma de 1990

Contratado por um Brasil cansado de técnicos brasileiros, o italiano Carlo Ancelotti repete Sebastião Lazaroni em 1990. Aquela havia sido a última queda da Seleção nas oitavas de final, na derrota por 1 x 0 para a Argentina.

A geração de 1992, formada por Alisson, Danilo, Alex Sandro, Casemiro e Neymar, acabou. Uma nova, com Estêvão, Endrick e Rayan, reforçada pela experiência de Vinicius Junior e Rodrygo, começará a nascer em setembro contra a Austrália com a missão de encerrar, em 2030, a maior abstinência do Brasil em Copas: 28 anos.

Vale lembrar: de 1930 a 1958, quando o Brasil conquistou o primeiro título, não houve Copa do Mundo em 1942 nem em 1946 devido à Segunda Guerra Mundial.

 

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MP
postado em 06/07/2026 04:00
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