
Há um sentimento natural de solidão quando alguém decide deixar tudo para trás e recomeçar a vida em outro lugar. Ficam a família, os amigos, as ruas conhecidas e, muitas vezes, até o clube do coração. Enquanto o Gama mobiliza milhares de torcedores na campanha pelo acesso à Série C do Campeonato Brasileiro, um personagem improvável passou a engrossar a corrente alviverde. Há apenas cinco meses em Brasília, o carioca Rômulo Neves chegou ao Distrito Federal sem imaginar a possibilidade de encontrar no Bezerrão um sentimento de pertencimento capaz de dividir espaço com a paixão construída desde a infância pelo Flamengo.
Natural de Niterói, o corretor de seguros de 30 anos decidiu trocar o Rio de Janeiro por Brasília ao perceber a liberdade proporcionada pela profissão, que permite trabalhar de qualquer lugar do país. A mudança representava uma oportunidade de crescimento, mas também significava recomeçar praticamente do zero. Sem familiares ou amigos na capital, precisou construir uma nova rotina. "Hoje, olhando para trás, foi uma das melhores decisões da minha vida", afirmou.
Rômulo sempre teve uma relação forte com o futebol. Flamenguista, o carioca convive com a bola desde os três anos. Primeiro no futebol de praia e, depois, nas quadras de futsal. A chegada ao Distrito Federal, porém, apresentou uma forma diferente de viver a modalidade. "Confesso que minha visão sobre o futebol mudou bastante depois que cheguei em Brasília. Aqui, percebi que vai muito além do que acontece dentro das quatro linhas", discursou.
A aproximação com o Gama começou quase por acaso. Produzindo vídeos nas redes sociais sobre a experiência de um carioca vivendo em Brasília, Rômulo recebeu dos próprios seguidores o convite para conhecer o Bezerrão. Na primeira visita ao estádio, acabou protagonizando uma situação entre a comicidade e o constrangimento.
Sem conhecer a rivalidade local, escolheu uma camisa amarela da Seleção Brasileira para acompanhar a partida. Antes de entrar, foi barrado pelos seguranças devido à associação da cor com o Brasiliense, principal rival do alviverde.
"Aquela foi realmente minha primeira vez no Bezerrão. Como era período de Copa do Mundo, fui usando a camisa da Seleção Brasileira, achando que era completamente neutra. Só que eu não fazia ideia de que a camisa amarela era associada ao Brasiliense, principal rival do Gama. Acabei sendo barrado pelo segurança e fiquei completamente sem entender o que estava acontecendo. Depois, descobri o motivo e achei tudo muito engraçado. Gravei a situação, publiquei o vídeo e a repercussão foi enorme", contou.
O episódio abriu portas inesperadas. Os comentários se transformaram em convites para conhecer melhor a cidade, participar de encontros e ouvir histórias sobre um dos clubes mais tradicionais do Distrito Federal. Para Rômulo, o acolhimento da torcida gamense foi fundamental no processo de adaptação à capital. "As pessoas começaram a me convidar para conhecer melhor a cidade, participar de eventos, conversar, tomar um café e entender toda a história do clube. Eu deixei de ser apenas 'o carioca que faz vídeos' para realmente me sentir acolhido", relatou.
"Eu costumo dizer que não fui eu quem escolheu o Gama. Foi o Gama que me escolheu. E existe muita verdade nessa frase. Isso facilitou muito a minha adaptação. O Gama foi uma das primeiras portas que realmente se abriram para mim quando cheguei ao Distrito Federal. Sou muito grato por esse carinho e por tudo o que vivi desde então. Hoje, sinto que faço parte dessa história de alguma forma, e receber esse reconhecimento da torcida é algo que levo com muito orgulho. A coisa que mais quero para esse clube é o acesso, o título e ver o Gama novamente na Série A, pela grandeza do clube e da torcida", desejou.
*Estagiária sob a supervisão de Danilo Queiroz
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