
Eles passaram mais de duas décadas com a vida ditada pelo relógio. Horário de treino, competição, viagem, concentração. No meio da rotina de atletas olímpicos, Arthur Zanetti e Chico Barreto aprenderam a exercer função ainda mais nobre: a paternidade. Estrearam como papais no auge da carreira. Hoje, admitem ter pagado preço que nenhuma medalha consegue devolver: o tempo com os filhos. Neste Dia dos Pais, os ex-ginastas contam ao Correio como a aposentadoria mudou — ou nem tanto — a relação com os herdeiros.
Liam nasceu em setembro de 2020, quando Arthur Zanetti ainda conciliava a rotina de atleta de alto rendimento com a paternidade. Entre viagens, treinos e competições, o campeão olímpico das argolas admite que não conseguiu acompanhar de perto parte da infância do filho. A ausência, porém, nunca foi motivo de arrependimento, mas um preço inevitável da carreira. Hoje, faz questão de aproveitar o tempo ao lado do menino.
"Acabei perdendo algumas coisas da vida dele por causa da ginástica. Mas não me arrependo, faz parte. Ele vai saber, futuramente, por que eu não estava em alguns momentos. Sempre que dá, faço o máximo possível para estar presente na vida dele."
Para o campeão olímpico das argolas em Londres-2012 e prata na Rio-2016, as maiores conquistas da paternidade não exigem medalhas nem pódios. "A vida está nos pequenos detalhes, como trocar uma roupa, dar um banho, fazer qualquer coisa simples. Isso é o bom da vida. E ver a evolução dele, perceber que a cada mês, a cada semestre, ele vai mudando bastante."
Aos 36 anos, Zanetti vive uma nova relação com a ginástica. Aposentado das competições desde janeiro de 2025, continua dentro dos ginásios, agora como árbitro, embaixador e parceiro da Confederação Brasileira de Ginástica. Em Brasília, participa do Campeonato Brasileiro como juiz. Fora das competições, mantém um projeto social em São Caetano do Sul (SP). A modalidade mudou de lugar na rotina, mas não saiu dela.
A relação com o filho também passa pelo esporte. Liam já experimentou judô, natação, futebol e ginástica, mas Arthur não pretende escolher por ele. O campeão olímpico quer apenas apresentar possibilidades. O legado que pretende deixar, porém, está menos ligado às argolas do que ao comportamento. "Prefiro que ele me admire como pessoa. Se você não é uma boa pessoa, você não tem resultado. Eu só tive os meus resultados por causa do trabalho, mas também por causa da minha família."
Se Arthur encontrou na aposentadoria espaço para valorizar os pequenos momentos, Chico Barreto descobriu uma ironia. O fim da carreira não significou necessariamente mais tempo com o filho, Francisco. Pelo contrário. Empresário e treinador, ele abriu um centro de treinamento em Goiânia e, hoje, trabalha mais horas na ginástica do que quando competia. O filho mora em Campinas (SP) com a mãe, e os encontros dos dois continuam tendo o ginásio como cenário.
"Vou te falar que a aposentadoria só dificultou mais ainda. Como atleta, eu tinha mais tempo com o Francisco do que hoje. Como aposentado, empresário e treinador, passo mais tempo trabalhando do que com ele", compartilha Chico.
Francisco nasceu em 2017, quando Chico vivia o auge da carreira. Naquele momento, conciliar fraldas e alto rendimento significava sair cedo de casa, enfrentar longos deslocamentos até o clube Pinheiros e tentar voltar o mais rápido possível. A família ajudava como podia. Hoje, o ex-ginasta reconhece que gostaria de ter acompanhado mais de perto aquela fase. "O tempo passa muito rápido, ficamos muito tempo fora de casa, sem acompanhar tudo de pertinho, cada detalhe. Acho que isso eu gostaria de ter vivido com mais calma, por ter tido mais tempo para isso", reflete.
A paternidade mudou Chico. Ele diz que passou a enxergar as crianças de outra maneira e encontrou nelas, também, um novo sentido profissional. "Depois que o Francisco nasceu, passei a enxergá-las de uma forma diferente. Antes, eu não tinha muita paciência com criança pequena. Hoje, minha paixão é trabalhar com elas. Mudou a minha forma de pensar, meu jeito de agir e o amor por envolvê-las no esporte", confidencia.

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