
LUIZ ROBERTO MAGALHÃES - ESPECIAL PARA O CORREIO
Existem histórias reais tão inspiradoras que, quando levadas à luz da razão e confrontadas com as probabilidades, são tão incríveis e improváveis que dificilmente seriam imaginadas mesmo pelos melhores escritores ou roteiristas. A vida de Gustavo Kuerten, que hoje celebra seus 50 anos, é um desses casos e poderia facilmente ter saído de um filme da Disney.
Nascido em Florianópolis em 10 de setembro de 1976, Guga, como viria ser conhecido mundialmente, sofreu muito cedo um golpe do destino que mudaria sua existência para sempre. Aos 8 anos, ele e sua família se despediram de forma definitiva de seu pai, Aldo Kuerten, um entusiasta do tênis, vitimado aos 41 anos por um infarto fulminante enquanto atuava, em 1985, em Curitiba, como árbitro em uma partida do esporte que tanto amava.
Antes de partir, Aldo havia feito um pedido a um amigo, o treinador Larri Passos, para que treinasse Guga. A morte de Aldo reforçou em Larri a promessa feita a Aldo e, a partir dali, Larri e Guga se uniriam em laço que iria muito além do tênis. A história da dupla os levaria, na década seguinte, a uma das façanhas mais surpreendentes da história do centenário esporte das raquetes e bolinhas amarelas.
Para entender a real dimensão do que Gustavo Kuerten e Larri Passos protagonizaram em Roland Garros em 1997 é preciso entender um pouco a dinâmica do tênis profissional. Para ganhar pontos no ranking da ATP, a Associação de Tenistas Profissionais, os jogadores iniciam suas carreiras disputando torneios da série Future e Challenger, de menor porte, até terem ranking suficiente para disputar os principais eventos do circuito.
O circuito principal é composto pelos ATPs 250, ATPs 500, Masters 1000, o ATP Finals, disputado apenas pelos oito melhores jogadores do ano, e, é claro, pelas joias da coroa, os chamados Grand Slams, o grupo dos quatro principais torneios do tênis, composto pelo Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open.
Os torneios da série Future e Challenger não contam, para efeitos da ATP, como títulos profissionais. Ou seja: não importa quantos troféus um tenista possa ter nesses eventos, para que o item "Títulos" na ATP saia do zero na ficha do tenista na entidade ele precisa vencer, no mínimo, um ATP 250.
Do zero ao título
No final de maio de 1997, quando iniciou sua disputa em Roland Garros, em Paris, Gustavo Kuerten ocupava a posição de número 66 do ranking mundial. E a julgar por seu retrospecto, jamais seria incluído na lista dos possíveis campeões do torneio por nenhum especialista no esporte.
Afinal, até ali, Guga não tinha nenhum título como profissional e, para complicar o cenário, jamais tinha vencido sequer um jogo na chave principal de Roland Garros. Um ano antes, em 1996, ele havia disputado e vencido suas três partidas no torneio qualificatório para o Grand Slam francês, mas acabou derrotado na estreia na chave principal pelo sul-africano Wayne Ferreira por 3 x 0.
Mas o roteiro de seu filme o reservava glórias inimagináveis. E em apenas duas semanas aquele brasileiro magrelo, de cabelo desgrenhado e roupas espalhafatosas sairia do zero para o estrelato mundial.
Batalhas épicas
Embalado pelo título que havia conquistado em um Challenger em Curitiba duas semanas antes do Grand Slam na capital francesa, Guga estreou em Roland Garros naquele fim de maio de 1997 com um belo triunfo por 3 x 0 sobre o tcheco Slava Dosedel. A partir dali, o que o mundo assistiu foi um filme, ou melhor, uma série da Disney sendo escrita jogo a jogo.
Após superar o sueco Jonas Bjorkman na segunda rodada por 3 x 1, Guga enfrentou seu primeiro batismo de fogo verdadeiro: o confronto contra o austríaco Thomas Muster, então número 5 do mundo, campeão de Roland Garros em 1995, e que ali acumulava 44 títulos na carreira. A partida marcou o primeiro duelo entre os dois. E quem arriscaria um dólar que fosse em uma aposta em Gustavo Kuerten?
Então, naquele épico 31 de maio de 1997, Gustavo Kuerten travou uma batalha emocionante na quadra central com Thomas Muster e, após levar o jogo para o quinto set e estar perdendo por três games a zero, virou a parcial com direito a 14 aces e conquistou um triunfo que chocou o mundo do esporte.
O cartão de visitas estava dado. Mas vencer uma batalha é uma coisa. Triunfar na guerra é outra completamente diferente...
Mais campeões...
No duelo seguinte, Guga encarou outra pedreira, o ucraniano Andrei Medvedev, então número 20 do ranking, e, novamente em cinco sets, arrancou outra vitória memorável. Kuerten estava nas quartas de final. Para muitos, entretanto, seu conto de fadas estava prestes a terminar. O rival no duelo por uma vaga nas semifinais era ninguém menos do que o russo Yevgeny Kafelnikov, número 3 do mundo e o atual campeão de Roland Garros.
Depois de vencer o primeiro set por 6/2 e perder as parciais seguintes por 7/5 e 6/2, Guga se impôs com um surpreendente 6/0 e, no set decisivo, brilhou por 6/4 para, mais uma vez, despachar um ex-campeão de Roland Garros do torneio e, novamente, chocar Paris e o mundo das raquetes.
A semifinal não foi disputada contra uma estrela. Diante de Guga estava uma outra surpresa, o belga Filip Dewulf, sobre quem Kuerten triunfou por 3 x 1 para se classificar para uma das mais improváveis finais do Grand Slam francês.
Então, em 8 de junho de 1997, Gustavo Kuerten pisou na quadra central de Roland Garros para, pela terceira vez em duas semanas, desafiar um campeão do torneio, na verdade um bicampeão, o espanhol Sergi Bruguera, que havia levantado os troféus naquele mesmo palco em 1993 e 1994.
Guga simplesmente desconsiderou o retrospecto do rival, o nervosismo e a pressão por disputar o jogo mais importante de sua vida diante de milhares de torcedores em Paris e milhões no Brasil que acompanharam a partida pela televisão. De um modo primoroso, Guga venceu por inquestionáveis 3 x 0, com parciais de 6/3, 6/4 e 6/2, e escreveu o emocionante desfecho do improvável e inspirador filme que sua vida lhe havia reservado.
O Brasil e mundo do tênis tinham um novo herói. Um jogador diferente de todos os outros. Um menino magrelo cujo sorriso fácil contrastava com a potência de seus golpes e cujo jeito descolado destoava da determinação que havia mostrado nas últimas duas semanas em Paris.
Rei do mundo
Ao assombroso triunfo em Roland Garros em 1997 somaram-se outros 19 títulos, entre eles mais duas conquistas no mesmo Grand Slam francês, em 2000 e 2001, e o histórico troféu, em Lisboa, na Masters Cup em 2000, como era chamado o hoje ATP Finals. Esse resultado, com uma vitória gloriosa sobre o norte-americano Andre Agassi na decisão, consagrou Gustavo Kuerten como o melhor jogador do mundo naquele ano e confirmou de forma definitiva sua posição como um dos maiores tenistas de todos os tempos.
Vida longa!
As glórias, os títulos, as proezas nas quadras estão eternizados como capítulos especiais do esporte brasileiro. Para Guga, suas cinco décadas de vida lhe reservaram, depois de todos as conquistas, o desafio de seguir como um ídolo nacional, como marido, como pai, como amigo de quem tem o privilégio de conviver com ele, e como o filho e irmão dedicado que sempre foi.
Guga é um ídolo acessível, que jamais perdeu o sorriso e a simpatia de menino que o fizeram tão querido e respeitado em todo o país. Sua história de sucesso marcou um período especial para uma nação de apaixonados pelo esporte que descobriu no tênis uma emoção diferente e uma nova forma de torcer por um dos seus.
Seus 50 anos merecem ser celebrados com todas as honras por tudo o que representou e ainda representa para o país. Parabéns, Guga! Vida longa ao manezinho da ilha!

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