A caminhada de um jovem jogador brasileiro rumo ao topo do futebol europeu raramente segue uma linha reta. Ela é feita de rupturas precoces, escolhas corajosas e da capacidade de assimilar novas culturas táticas sem perder a essência.
Natural de Belo Horizonte, o lateral-direito Arthur Augusto de Matos Soares sentiu o peso dessa travessia ainda muito cedo. Dos primeiros passos no futsal às passagens pelas categorias de base do Cruzeiro, América-MG e Flamengo, cada etapa serviu como fundação para a decisão de cruzar o oceano após o título do Sul-Americano Sub-20 de 2023 ao lado de Mycael, Robert Renan, Andrey Santos, Vitor Roque, Savinho, Kaiki Bruno e Luis Guilherme, todos sob o comando de Ramon Menezes.
Liderado por Xabi Alonso no Bayer Leverkusen, Arthur viveu de perto a campanha inédita do Bayer Leverkusen no título invicto do Campeonato Alemão na temporada de 2023/2024. Ganhou também a Copa da Alemanha e a Supercopa. Mais do que títulos, a Europa exigiu dele uma transformação técnica e mental: o garoto de vocação ofensiva aprendeu a defender com rigor, dominou a leitura espacial do lateral-invertido e teve a proatividade de estudar o idioma germânico antes mesmo de desembarcar no continente.
Emprestado ao Werder Bremen em busca de minutagem e sequência de jogo, Arthur combina a disciplina e a solidez tática absorvidas na Bundesliga com a leveza do vestiário brasileiro — com drible curto do futsal e o pandeiro na mão. Em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, o lateral de 23 anos repassa a evolução defensiva, analisa a dinâmica entre laterais e pontas no futebol moderno, relembra os conselhos de liderança de Diego Ribas no Flamengo, projeta a caminhada rumo ao ciclo da Copa do Mundo de 2030 em uma posição carente e escolhe a canção Tá escrito do Grupo Revelação como trilha sonora à espera de uma oportunidade com o técnico italiano Carlo Ancelotti.
Há um debate no futebol moderno sobre a disputa por espaço nos lados do campo. Afinal, a era dos pontas atrapalha ou ajuda o jogo dos laterais?
Não atrapalham. É tudo uma questão de ocupação de espaço e leitura de jogo. Quando o ponta joga bem aberto, espetado, o lateral tem a liberdade e o espaço para construir por dentro, atacando como um meia (lateral-invertido). Se o ponta flutua para o meio, abre o corredor para o lateral ultrapassar e dar a amplitude por fora. É uma parceria: quanto mais entrosado e inteligente for o diálogo tático entre o lateral e o ponta, mais difícil fica para a marcação adversária se defender.
Como a adaptação ao futebol alemão?
No Brasil, eu jogava mais em linha de quatro como lateral, e no Leverkusen jogávamos mais com uma linha de três como ala. O Xabi foi meu primeiro treinador na Europa quando cheguei imaturo. Ele é incrível e tivemos uma relação muito boa no Bayer Leverkusen.
- Quem é ele
- Arthur Augusto de Matos Soares
- Posição: lateral-direito
- Nascimento: 17/3/2003
- Local: Belo Horizonte
- Base: Cruzeiro, Dínamo de Araxá, América-MG e Flamengo
- Profissional: América-MG, Bayer Leverkusen
- Clube atual: Werder Bremen
- Títulos
- Bayer Leverkusen
- 2023/2024: Alemão, Copa da Alemanha e Supercopa da Alemanha
- Seleção Brasileira
- 2023: Sul-Americano Sub-20
Foi campeão da Bundesliga com ele.
Pude disputar a Champions League e a Europa League, na qual chegamos à final (contra a Atalanta). A nossa única derrota da temporada... Foi um período de muito crescimento. Evoluí bastante na parte física, mental e na defensiva. Saí do Brasil com características mais ofensivas e percebi que a liga exigia muito defensivamente. Hoje, a solidez defensiva é um ponto forte.
Como convenceria o Carlo Ancelotti a convocá-lo?
Eu diria que ele pode esperar um lateral que vai se comprometer ofensiva e defensivamente. Tenho versatilidade para jogar tanto pela direita quanto pela esquerda, tenho ambidestria que facilita o meu jogo e posso atuar atacando por fora ou por dentro. Passei muito tempo da minha vida jogando futsal, então tenho drible curto, o 'um-dois', parede... Isso pode ser um diferencial. Fora de campo, trago também a alegria e a resenha brasileira. Se precisar de alguém para puxar o samba na concentração ou tocar um pandeiro no ônibus pós-vitória, eu também estou pronto! O futebol brasileiro tem essa essência da alegria, do ritmo, e acho que levar essa leveza para o grupo, aliada a muito profissionalismo em campo, faz toda a diferença no ambiente.
Você disputou o primeiro amistoso do ciclo para a Copa de 2026 contra Marrocos, mas depois ficou pelo caminho. Qual música escolheria como trilha sonora para o sonho de 2030?
Um samba bem para cima, algo como Tá Escrito do Grupo Revelação. Essa música fala muito sobre ter fé, trabalhar duro, superar as dificuldades e esperar a sua hora chegar. Tem tudo a ver com a trajetória de um atleta e com a caminhada rumo ao sonho de disputar uma Copa do Mundo.
Por que topou o empréstimo do Bayer ao Werder Bremen?
Sequência. Todo jogador precisa de tempo de jogo para ter confiança e alcançar o espaço que quer. A minha vinda para o Werder Bremen foi justamente por isso: minutagem. O clube demonstrou essa confiança em mim desde o primeiro momento. Essa confiança me faz evoluir para, quem sabe, abrir portas na Seleção e me firmar.
Até que ponto as lesões o atrapalharam no Bayer?
Lesão é sempre o momento mais difícil na vida de um atleta, ainda mais quando acontece logo no início de uma trajetória no futebol europeu, longe do nosso país e em meio a tanta expectativa. Exige muita resiliência e força mental. Tive que apegar muito à minha família, à minha fé e focar 100% no processo de recuperação dia após dia. A comissão técnica e o departamento médico do Leverkusen foram sensacionais comigo, me deram todo o suporte e a paciência necessários. Entendi que aquele período parado não podia ser um tempo perdido, mas uma oportunidade para evoluir na parte física, estudar mais o jogo de fora, assistir aos treinos com outro olhar e fortalecer a mente. Voltar de uma lesão e conseguir jogar em alto nível exige paciência, porque não dá para pular etapas. Essa capacidade de superar a dor e as incertezas me deixaram um jogador e um homem muito mais forte para os desafios seguintes.
Como tem sido o trabalho com o técnico Daniel Thioune no Werder Bremen?
O futebol está cada vez mais dinâmico, as posições e os conceitos estão sempre mudando. É um jogo que exige bastante da parte mental e física durante os 90, 100 minutos. A relação com ele (Daniel Thioune) e com a comissão técnica aqui no Werder Bremen é muito tranquila. Frequentemente temos análises das partidas que passaram e das que estão por vir, e um dos auxiliares fica responsável por análises individuais com os atletas.
Lahm e Kimmich revolucionaram as laterais com versatilidade. Ambos com facilidade no papel de meias. São referências alemãs para você?
O Lahm é um espelho de inteligência tática, leitura de jogo e regularidade. Ele mostrou ao mundo como o lateral pode ser o cérebro do time sem perder a eficiência defensiva. O Kimmich seguiu esse caminho de versatilidade, jogando tanto por dentro quanto aberto, com uma capacidade de passe e construção altíssimas. Estar no futebol alemão exige exatamente essa capacidade de pensar o jogo rápido e ocupar diferentes espaços.
Você chegou ao país falando alemão?
Quando decidi que viria para a Alemanha, sabia que a língua, a cultura e o tempo exigiriam bastante de mim. Antes de chegar, iniciei um curso de alemão on-line com o professor Roberto Piantino. Deixei as pessoas muito felizes no Leverkusen, aos 20 anos, falando algumas palavras em alemão. Quanto mais a gente se entrega à cultura do lugar, mais facilita na adaptação.
Quem são as referências na lateral?
O Danilo (Flamengo) é muito experiente e líder. Está sempre orientando. Tive vários exemplos no meu início que me orientavam, como Patrick e Juninho no América-MG. Espero ser esse atleta no futuro para os mais novos. Não tem como não falar do Cafu, que foi um grande lateral e conquistou coisas incríveis na Seleção e nos clubes. Admiro o Cancelo. Assisto a vídeos para entender como ele pensa. Gosto do Hakimi e do Marcelo. Mesmo jogando pela esquerda, foi um lateral incrível.
Diego Ribas influenciou você?
Quando eu estava na base do Flamengo, tive a oportunidade de acompanhar de perto a postura de liderança de jogadores experientes como o Diego Ribas. O Diego sempre foi uma referência enorme de profissionalismo, de conduta extracampo e de mentalidade vencedora. Ver a entrega dele nos treinos e a forma como ele liderava e orientava os mais jovens foi um aprendizado prático que levei para a minha carreira na Europa.
Você foi campeão do Sul-Americano Sub-20 em 2023 na geração de Mycael, Robert Renan, Andrey Santos, Vitor Roque, Savinho, Kaiki Bruno, Luis Guilherme, e foi para o exterior. Por que não ficou mais tempo no país?
O futebol europeu é o de mais alto nível. O futebol brasileiro tem jogadores melhores e o nível mais exigente, mas senti que, naquele momento, era a hora de fazer essa ruptura, alavancar, aprender novas culturas, línguas e um novo estilo de jogar para o futebol de alto nível.
Ao contrário de muitos jovens, você não bateu na Europa e voltou. A que atribui isso?
Quando a gente faz uma mudança muito grande, passa por momentos de instabilidade. A gente pode dar esse salto e voltar, mas podemos estar pegando um impulso para daqui a um ano estar cada vez mais forte e preparado. Os clubes aqui entendem muito isso e dão tempo ao atleta. Eles sabem que estão contratando um jogador novo, inexperiente, mas têm a maturidade de dar tempo ao tempo. É um processo lento, mas temos que ter paciência, não pular etapas.
O título do Sul-Americano Sub-20 de 2023 foi a sua maior vitrine?
Aconteceu tudo bem rápido. No fim de 2022, tive a minha primeira convocação para a Seleção de base. Dois meses mais tarde, estávamos viajando para o Sul-Americano na Colômbia. Foi um momento muito feliz porque eu tinha esse sonho de representar a Seleção. O Sul-Americano é um campeonato de tiro curto e muito importante. Nesse meio-tempo, entre partidas, treino e descanso, estavam acontecendo sondagens de clubes europeus. Minha família soube administrar para que eu não perdesse o foco.
Quais são as lembranças do início da carreira na base do Cruzeiro, América-MG, Dínamo de Araxá e no Flamengo?
Foi um processo como de muitos garotos, cheio de sonhos, de expectativas, sem muita noção ainda daquilo que o futebol profissional exige. No Cruzeiro foi onde eu fiz a minha mudança de extremo para lateral-direito aos 14 anos, com o treinador Léo Cherede. Aprendi sobre a posição e fui me acostumando a esse novo estilo. No Dínamos de Araxá pude sair de casa e viver outra realidade. O América foi o clube que acreditou em mim e abriu as portas para a estreia profissional. No Flamengo foi a primeira vez que, de fato, saí de casa para morar longe da família. Amadureci e realizei o sonho de me tornar jogador profissional.
Por que não seguiu no Flamengo?
Tive uma passagem muito bacana pelo Flamengo, um clube gigantesco que me ajudou bastante no meu processo de maturação e crescimento. No entanto, por questões contratuais e de alinhamento sobre o planejamento de carreira entre meus empresários, minha família e o clube na época, entendemos que o melhor caminho para o meu desenvolvimento profissional seria buscar novos desafios e dar continuidade ao trabalho em outro projeto.
Lembranças da sua BH?
Tenho um orgulho enorme das minhas raízes. Belo Horizonte é a minha casa, onde dei os primeiros chutes e a minha família deu-me todo o suporte para sonhar alto. O povo mineiro tem essa característica do trabalho quieto, da simplicidade, de comer pelas beiradas com dedicação. Levo esse jeito mineiro comigo para onde quer que eu vá na Alemanha.
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