ALÉM DAS FRONTEIRAS

Bangladesh tem a maior torcida brasileira fora do Brasil

Herança da era Pelé e identificação com o Sul Global fazem de Bangladesh o maior reduto da Seleção no exterior

Por Letícia Passos — A cada quatro anos, milhões de brasileiros se reúnem diante da televisão para acompanhar a trajetória da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Única equipe presente em todas as edições do torneio, a Amarelinha continua ocupando um lugar especial no imaginário nacional e ultrapassa os limites do próprio país.

Em Bangladesh, país do sul da Ásia com cerca de 170 milhões de habitantes, o apoio à Seleção Brasileira atravessa gerações e ganha força a cada Copa do Mundo. O Embaixador do Brasil em Bangladesh, Paulo Dias Feres, afirmou à ESPN que calcula que até 100 milhões de pessoas na nação asiática torcem pela Seleção. "O país onde há o maior número de torcedores da seleção brasileira fora do Brasil é o Bangladesh", disse.

Sem nunca ter disputado um Mundial, os bengaleses adotaram Brasil como principal paixão futebolística. O torneio mobiliza cidades inteiras, reúne multidões diante de telões improvisados e transforma o futebol em um dos maiores acontecimentos culturais do país.

A expectativa para a Copa do Mundo de 2026 segue o mesmo roteiro. Segundo informou o The Guardian, moradores pintaram casas inteiras de verde e amarelo, decoraram fachadas com murais de jogadores brasileiros e exibem bandeiras gigantes pelas ruas.

A mobilização dos bengaleses ajuda a explicar como o legado construído pela Seleção Brasileira ainda resiste ao tempo, avaliou o jornalista e comentarista esportivo Claudio Arreguy, em entrevista ao Correio. Para ele, "o carinho dos bengalis com a Seleção Brasileira, herança dos anos de ouro da equipe que dominou a cena no futebol mundial nos anos 1960 e 1970" mostra que a imagem construída naquele período permanece viva décadas depois.

As origens dessa relação vão além do futebol. Conforme destacou o jornal bengalês Prothom Alo, muitos moradores enxergam no Brasil uma nação que, assim como Bangladesh, enfrentou a pobreza e o passado colonial.

As conquistas brasileiras nos gramados passaram a representar, simbolicamente, a vitória de um país do chamado Sul Global sobre antigas potências, fortalecendo uma identificação que acabou incorporada à cultura local.

Nesse processo, Pelé tornou-se a principal referência. Ainda segundo o Prothom Alo, a trajetória do Rei do Futebol passou a integrar livros didáticos utilizados em escolas primárias bengalesas, fazendo com que muitas crianças conhecessem sua história antes mesmo de assistirem a um jogo da Seleção Brasileira.

Para Arreguy, isso ajuda a explicar por que o prestígio internacional da equipe resistiu ao longo das últimas décadas.

"O Brasil, leia-se o futebol do ainda único país cinco vezes campeão mundial, não queimou todos os seus cartuchos na memória popular internacional. Apesar do jejum de títulos desde 2002, de vexames como a surra sofrida para a Alemanha na semifinal de 2014 no Mineirão, e das desastrosas — para dizer o mínimo — gestões no comando da CBF."

A devoção, porém, não é exclusiva da Amarelinha. O país também abriga milhões de torcedores da Argentina. Conforme mostrou o jornal, há um recorte geracional nessa disputa: os mais velhos tendem a manter a fidelidade ao Brasil por influência de Pelé, enquanto os mais jovens foram conquistados por Diego Maradona e, posteriormente, Lionel Messi.

Em anos de Copa, a rivalidade toma conta das ruas, com bandeiras gigantes, casas decoradas e provocações entre vizinhos que reproduzem, à distância, um dos maiores clássicos do futebol mundial.

O interesse também aparece no ambiente digital: de acordo com o periódico britânico, aproximadamente 20% do tráfego ao vivo da estreia da Argentina no Mundial veio de Bangladesh, um indicativo de que a internet apenas ampliou uma devoção que, décadas atrás, era alimentada por transmissões de rádio e televisores movidos a bateria.

Sem uma seleção nacional classificada para disputar a Copa do Mundo, Bangladesh encontrou em Brasil e Argentina uma forma de viver intensamente o maior torneio do futebol. Às vésperas do Mundial de 2026, a paixão dos bengaleses reafirma que o prestígio da camisa amarela sobrevive muito além dos resultados recentes.

Para Arreguy, "a magia dos tempos de Pelé e cia. sobrevive e se perpetua em algumas partes do planeta. Do que dá exemplo a admiração da torcida de Bangladesh."

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