Com Manuela Sá*
A alimentação saudável é a base para o desenvolvimento integral das crianças. No ambiente escolar, porém, é comum que parte dos alunos apresente resistência ao cardápio oferecido. Diante disso, muitas famílias acabam enviando lanches industrializados, o que pode gerar custos extras no orçamento.
Para enfrentar esse desafio, escolas públicas de educação infantil do Distrito Federal têm investido na chamada alimentação lúdica. A estratégia transforma o momento da refeição em uma experiência mais atrativa e interativa, com apresentações criativas que utilizam frutas, legumes e outros alimentos para formar figuras temáticas no prato. Além da montagem criativa dos pratos, as ações de educação alimentar e nutricional também incluem produção de materiais pedagógicos e atividades em sala de aula que estimulam a conscientização sobre hábitos saudáveis.
Na Escola Classe 03 de Ceilândia, a supervisora administrativa Carla Caroline Caetano idealizou o projeto, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), para aproximar as crianças da alimentação saudável. Em 2024, Carla notou a alta no desperdício de lanches e que a apresentação dos alimentos não incentivava os alunos a comerem bem.
"Precisávamos fazer com que as crianças lembrassem da conexão entre o lanche e a energia utilizada para brincar. Era necessário relembrar que a merenda é importante e pode ser saborosa", explica.
Mudar a apresentação do lanche fez toda a diferença. Certo dia, o cardápio incluía polenta cozida, carne moída refogada e legumes. Com milho, cenoura e vagem, foram montadas três flores em cada prato. O resultado foi imediato: as crianças amaram a refeição. Outras alternativas também foram criadas para datas especiais, como hambúrguer artesanal, pão-pizza e dindin saudável.
"Notamos o resultado, principalmente, na redução do desperdício e no aumento da vontade das crianças de se alimentarem. O que chama a atenção da criança é o visual", afirma.
Para além do sabor
O merendeiro da escola, Ricardo de Oliveira, conta que o trabalho na cozinha vai além do preparo das refeições. "Tentamos, todos os dias, introduzir um alimento diferente, incentivando a provarem, até que no fim, que é o nosso desejo, eles comam de tudo", relata. Ele destaca que alguns pratos ainda enfrentam resistência inicial, mas acabam conquistando o paladar dos alunos. "O purê de abóbora é algo que eles subestimam muito, pois não têm o costume de comer em casa. Mas quando colocamos no prato com arroz e carne moída, muda toda a estrutura, e eles adoram", afirma.
O aluno do 5º ano Otávio Augusto Marques, 10 anos, morador de Ceilândia, elogia o cardápio e diz que já ampliou seus hábitos alimentares desde que chegou à escola. "O lanche daqui é muito bom. Às vezes eles dão comida especial, tipo fricassê e chocolate quente. É meu primeiro ano aqui na escola e já aprendi a comer pão com queijo e pepino, que não comia em casa", conta.
A nutricionista da Secretaria de Educação Tamara Braz Ribeiral, responsável técnica pelo Programa de Alimentação Escolar do DF, explica que a alimentação lúdica é um dos pilares. "Por meio de abordagens pedagógicas lúdicas e práticas, como jogos temáticos, atividades sensoriais, hortas escolares e oficinas culinárias, promovemos aprendizagens, estimulamos a curiosidade e desenvolvemos a capacidade das crianças de fazerem escolhas alimentares mais conscientes", afirma. Segundo ela, ao integrar os conteúdos trabalhados em sala com a alimentação ofertada, o processo educativo se torna mais efetivo e contribui para a prevenção do sobrepeso, da obesidade e de deficiências nutricionais.
Gloriete Rosa, também nutricionista da SEEDF, explica que todas as escolas do DF recebem os mesmos ingredientes, que consistem em 24 itens não perecíveis e 59 perecíveis. No entanto, eles podem ser usados de diferentes formas criativas. "Não vai alterar o teor nutricional e vai fazer com que a criança tenha uma aceitação melhor. Quando o preparo é transformado, os gêneros alimentícios não mudam. A secretaria prioriza que todos os gêneros que estão no cardápio naquele dia sejam utilizados", avalia.
"Monstro do lixo"
No ano passado, a Escola Classe 04 do Cruzeiro colocou em prática o projeto "Descasque mais, desembale menos", com o objetivo de incentivar hábitos alimentares mais saudáveis entre os estudantes e conscientizar a comunidade escolar sobre os impactos do consumo de alimentos ultraprocessados.
Segundo a professora Camila Manciola, a iniciativa mobilizou toda a escola. "Fizemos um cronograma de atividades que envolveu orientação às merendeiras, visita ao depósito de alimentos, análise do cardápio e orientação aos professores sobre como aplicar o projeto em sala de aula. Os alunos também aprenderam sobre tipos de alimentos, o que é processado, a quantidade de açúcar e o que é bom para o corpo", observa.
O trabalho também se estendeu às famílias. "A escola oferece a merenda do governo, mas muitos pais ainda mandam lanche de casa, como suco de caixinha e biscoito. Fizemos essa orientação com os pais, sugerindo alternativas mais práticas, saudáveis e, até mesmo, mais baratas para melhorar a qualidade da lancheira", destaca Camila.
Uma das ações que mais chamou a atenção foi a criação do "monstro do lixo". Todas as embalagens levadas pelos alunos, de sucos, biscoitos, balas e refrigerantes, foram recolhidas e transformadas em uma escultura. "Construímos um monstro feito só com o que eles consumiram. As crianças batizaram de Zeca Pacotinho. Ele ficou exposto na escola para alertar sobre a quantidade de lixo não reciclável que produzimos e alimentação desequilibrada", ela lembra.
Camila completa que os próprios alunos começaram a fiscalizar os colegas. Houve melhora entre aqueles que não lanchavam na escola e passaram a experimentar novos alimentos. Eles descobriram que o lanche daqui é muito gostoso. "Não é só nutricionalmente bom, mas saboroso. Tivemos maior adesão à merenda e também alunos trazendo lanches mais equilibrados de casa", conclui.
Para a professora Vanessa Forcione, uma das atividades mais marcantes foi a separação de lanches saudáveis e não saudáveis. "Foi muito interessante ver como eles conseguem diferenciar o que é saudável e o que não é. A gente sempre reforça que não é proibido comer algo menos saudável, mas é importante evitar o exagero. Comer ultraprocessados todos os dias não é o ideal. A principal questão é conscientizar", afirma.
O projeto mostrou que pequenas mudanças podem transformar a relação das crianças com a alimentação dentro e fora da escola. A estudante do 5° ano Laura Ramos, 10, do Sudoeste, conta que o projeto modificou sua rotina alimentar. "Agora, a merenda está mais reforçada e saudável. Ficou bem melhor. Eu trago frutas todos os dias para a escola. Hoje mesmo trouxe uma ameixa. Meus colegas também pararam de trazer salgadinhos", disse. Ela relembra que antes levava com frequência biscoitos e bolinhos: "Isso mudou. Tem dias que como a merenda; em outros, levo sanduíche com patê que a minha mãe faz. O que eu mais gostei foi aprender a olhar a tabela nutricional e entender quanto açúcar e gordura tem nos produtos".
Já a estudante do 5° ano Eloísa Vitelli, 10, do Cruzeiro Velho, também percebe a diferença, principalmente por ter aprendido a comer maxixe na escola, alimento que não gostava. "Temos que ter noção do que estamos comendo. Isso é muito importante", afirmou. Segundo ela, a mudança chegou ao lar: "Agora minha mãe compra bastante fruta para durar o mês todo e diminuir os industrializados".
Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti
Saiba Mais
-
Educação básica
Escola em tempo integral atinge maior patamar desde 2022 no Brasil
-
Educação básica
Censo Escolar 2025 mostra queda de matrículas no DF
-
Educação básica
Encontro discute desigualdades e políticas públicas para alfabetização
-
Educação básica
MEC promove encontro internacional de alfabetização nesta semana
Educação básica
Educação básica
Educação básica
Educação básica