Em um cenário dominado por vídeos curtos, respostas imediatas e consumo acelerado de conteúdo nas redes sociais, especialistas em educação alertam para um desafio crescente nas salas de aula: a dificuldade de muitos estudantes em desenvolver argumentos consistentes na escrita. Para professores de redação, a ampliação do repertório sociocultural segue sendo uma das principais estratégias para fortalecer a capacidade de análise e argumentação em textos dissertativos, exigidos em avaliações como o Enem e vestibulares.
A professora de redação e língua portuguesa do Colégio Bernoulli, Sidinéia Azevedo, afirma que a base da escrita argumentativa continua sendo o contato frequente com diferentes fontes de conhecimento. Segundo ela, não é possível defender uma ideia de forma consistente sem repertório. “Ninguém escreve sobre aquilo que não conhece. A leitura é o caminho para acessar informação e transformá-la em conhecimento”, explica.
De acordo com a docente, o hábito de ler diferentes gêneros, como romances, reportagens, biografias e ensaios, contribui para ampliar a visão crítica dos estudantes e oferece referências que podem ser mobilizadas na construção de argumentos.
A formação desse repertório, segundo a professora, também ajuda os alunos a fugir do que ela chama de “repertórios de bolso”: citações prontas, repetidas de forma automática nas redações, muitas vezes sem conexão real com o tema proposto.
Entre as obras frequentemente citadas em debates contemporâneos e em propostas de redação estão títulos como 21 Lições para o Século 21, do historiador Yuval Noah Harari; A Vida Não é Útil e Ideias para Adiar o Fim do Mundo, do líder indígena Ailton Krenak; Brasil: uma biografia, de Lilia Schwarcz; além dos clássicos Quarto de Despejo e Casa de Alvenaria, de Carolina Maria de Jesus.
Para estudantes que dizem não gostar de leitura, Sidinéia recomenda começar por temas de interesse pessoal, como esportes, tecnologia ou biografias, e estabelecer pequenas metas de leitura no cotidiano. “Ler também é uma estratégia de estudo. Um bom momento é antes de dormir, substituindo o uso das telas por alguns capítulos de um livro”, sugere.
O audiovisual também pode contribuir para a formação de repertório crítico. Documentários e filmes que abordam questões sociais e culturais ampliam o olhar sobre diferentes realidades e podem servir de base para análises e comparações na redação.
Entre os exemplos citados pela professora estão os documentários A Ponte, Garapa, Lixo Extraordinário e Pro Dia Nascer Feliz, além de produções como Bacurau e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que discutem temas como desigualdade, identidade, diversidade e resistência.
Produções internacionais, como a série Maid e o documentário Jeffrey Epstein: Filthy Rich, também aparecem como exemplos de narrativas que ajudam a compreender fenômenos sociais contemporâneos.
Segundo Sidinéia, o contato com diferentes expressões artísticas funciona como um “laboratório de experiências humanas”, permitindo que os estudantes observem conflitos, desigualdades e transformações sociais por múltiplas perspectivas.
“Vai muito além do simples entretenimento. Filmes, séries e livros permitem refletir sobre questões sociais, estabelecer paralelos, ilustrar situações e até desconstruir estereótipos. Tudo isso pode enriquecer a argumentação e tornar a redação mais autoral”, afirma.
Para educadores, em um ambiente digital marcado pela velocidade e pela fragmentação da informação, cultivar repertório cultural se tornou não apenas um diferencial acadêmico, mas uma ferramenta essencial para formar pensamento crítico e capacidade de argumentação.
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