ELEIÇÕES

Palestra na UnB abordará como a extrema-direita conquista espaço entre os mais pobres

Antropóloga Rosana Pinheiro-Machado fala ao Correio antes de palestra na UnB sobre o avanço do extremismo às vésperas das eleições deste ano

Mannu Leones
postado em 19/08/2026 13:21 / atualizado em 19/08/2026 14:38
Pesquisadora chama a atenção para a capilaridade do discurso da extrema-direita entre as camadas populares -  (crédito: Caio Gomez)
Pesquisadora chama a atenção para a capilaridade do discurso da extrema-direita entre as camadas populares - (crédito: Caio Gomez)

A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado ministra nesta quarta-feira (19/8), às 18h30, a palestra "A extrema-direita no Brasil Popular", no Auditório Esperança Garcia, na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). A pesquisadora é professora catedrática de Antropologia na University College Dublin (Irlanda) e uma das principais referências brasileiras no estudo do extremismo político e das transformações da democracia. Em entrevista ao Correio, ela antecipou os principais argumentos que vai apresentar ao público brasiliense durante o evento.

Segundo Rosana, o crescimento da extrema-direita no país não pode ser explicado apenas pela adesão das elites, tradicionalmente mais alinhadas a esse campo político em todo o mundo. Para a pesquisadora, o fenômeno mais relevante, e mais difícil de entender, é a capilaridade desse discurso entre as camadas populares, que representam a maioria do eleitorado brasileiro. "É importantíssimo que a gente entenda como um discurso de elite consegue se pulverizar, consegue ganhar a capilaridade na sociedade brasileira. O Brasil Popular ainda resiste, em grande medida, à extrema direita. Mas quando há qualquer mudança na base da pirâmide, ela decide a direção das eleições, porque a base da pirâmide é a vasta maioria da população", afirmou.

Raiva e sonho: como a extrema direita conquista o Brasil popular; antropóloga Rosana Pinheiro-Machado fala ao Correio Braziliense ;
Raiva e sonho: como a extrema direita conquista o Brasil popular; antropóloga Rosana Pinheiro-Machado fala ao Correio Braziliense (foto: Arquivo pessoal)

A pesquisadora explicou que iniciou seus estudos sobre o tema durante a crise econômica de 2014 e 2015, período em que identificou entre trabalhadores desempregados um misto de frustração e revolta que, segundo ela, se tornaria terreno fértil para o discurso bolsonarista. Ela destacou que esse discurso não se sustenta apenas na dimensão econômica, mas em uma frustração social e cultural diante de expectativas de vida que cresceram sem que as condições materiais acompanhassem esse crescimento.

Um dos pontos centrais da entrevista foi o mecanismo pelo qual a extrema-direita direciona o ressentimento popular contra grupos vulneráveis, e não contra as elites econômicas. Rosana exemplifica que na Europa e nos Estados Unidos esse mais fraco vai ser o imigrante, mas no Brasil não necessariamente: "Sempre vão ser as pessoas que precisam de benefícios sociais, as pessoas mais pobres, as pessoas negras, as mulheres, as pessoas trans. Você vai criando diversos inimigos internos para acreditar que a sua frustração não é nem culpa sua, nem do sistema estrutural econômico, mas na verdade era culpa daquela pessoa que está ali usurpando e conseguindo tudo", afirmou a pesquisadora.

A antropóloga também associou o avanço desse discurso a uma vertente cada vez mais libertária dentro da extrema direita contemporânea, marcada pela rejeição a qualquer forma de regulação estatal. Rosana citou o pânico gerado por propostas de taxação do Pix e a resistência à regulamentação de aplicativos como o Uber: "Isso está achando que o Estado só quer sugar. Quando o discurso da direita diz que a culpa é do Estado, que ele só serve para beneficiar suas elites, num discurso populista de 'nós contra eles', isso tem uma ressonância histórica, mesmo que distorcida, porque o Estado brasileiro tem historicamente uma crença de violência e de ausência", analisa a pesquisadora.

Para explicar a adesão de parte da juventude a esse campo político, Rosana apontou o papel da economia de influenciadores, hoje dominada, segundo ela, por redes de marketing digital fortemente vinculadas à extrema-direita. "Você tem dois ou três na escola que ganham um dinheiro por um tempo, conseguem fazer uns dois mil reais, compram um tênis da Nike, e isso vira modelo para toda uma geração", afirmou. Ela reforçou, no entanto, que isso não significa que a maioria dos jovens que consome esse conteúdo se torne, de fato, militante de extrema direita.

A antropóloga defendeu que a reversão desse quadro depende de políticas públicas que combinem proteção social e incentivo ao empreendedorismo, além do fortalecimento de pautas como a escala 6x1. Ela mencionou uma pesquisa recente, ainda não relacionada à palestra desta quarta-feira, com jovens beneficiados por programas como o Bolsa Família e por cotas universitárias: "São pessoas que não são ricas, mas que conseguiram ser advogados, personal trainer e profissionais liberais. Batalham muito, trabalham doze horas por dia, mas estão conquistando seus pequenos sonhos, num processo real e sustentável de mobilidade social", disse, ao contrapor essa trajetória à narrativa de ascensão meteórica vendida pelo discurso da extrema direita.

"O que a gente precisa entender é que a extrema direita mobiliza os sonhos: você pode, você merece, você pode ser CEO de si próprio, você merece ter milhões, você merece conforto. A explicação de que a raiva é o sentimento que mobiliza está correta, mas ela não é tudo, porque a raiva sozinha não se sustenta", afirmou. Segundo ela, o desafio do campo democrático é reconectar-se com esse imaginário de futuro, hoje monopolizado pela direita.

O evento na UnB também marca a passagem da pesquisadora pela universidade para ministrar, ao lado do professor Evandro Piza Duarte, a disciplina de pós-graduação "Subjetividades Conservadoras, Autoritárias e Libertárias no Brasil", cujas vagas já estão esgotadas. Rosana dirige o laboratório Digital Economy and Extreme Politics (DeepLab), em Dublin, que já recebeu mais de 20 estudantes brasileiros pelo Programa Abdias Nascimento, iniciativa da UnB em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o maior programa de intercâmbio da universidade brasiliense.

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