O professor César Augusto Tibúrcio Silva, 64 anos, teve uma surpresa emocionante no fim do ano passado. Ele estava de férias em Boston, nos Estados Unidos, onde a filha mais velha cursa design, quando um passeio que parecia banal acabou com a descoberta de que um dos livros que assina integra o acervo de biblioteca da Universidade de Harvard. O momento, registrado em vídeo, viralizou nas redes sociais.
Harvard tem várias bibliotecas, que somam mais de 20 milhões de itens. Foi na Widener que Mariana Ferreira Silva encontrou o exemplar que procurava. "Já tinha passado pela minha cabeça antes pesquisar o nome dele no sistema digital de busca da universidade, mas com eles (pais e irmão) aqui e vendo o tanto que meu pai estava apaixonado pela universidade, a curiosidade voltou, principalmente porque ele já publicou alguns bons livros no Brasil e já aconteceu de ver livros dele em livrarias e na biblioteca da USP (Universidade de São Paulo), por exemplo. Então eu pesquisei pelo nome dele e apareceu a disponibilidade desse livro", relata a jovem. Ela pediu a reserva da obra e, em seguida, levou o pai até o local para fazer a surpresa.
O feito, por si só, já chama a atenção, mas a trajetória que o levou a alcançá-lo é ainda mais impressionante. Coodenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Universidade de Brasília (UnB), César acompanhou, há mais de 30 anos, a criação do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais. Antes de contar com a própria área na universidade, o curso estava atrelado ao Departamento de Administração.
Essa foi uma das primeiras graduações na área do país, o que tem colocado o professor titular da UnB à frente de uma série de participações pioneiras na história das ciências contábeis.
Nascido em Patos de Minas, César veio para Brasília na década de 1980. Nos primeiros anos, morou com o irmão, Caio Tibúrcio, servidor público, e logo foi aprovado no vestibular da UnB para o curso de administração. A escolha foi errática. Muito jovem, não sabia exatamente que carreira seguir. Como já havia trabalhado no escritório do pai e gostou muito da área de administração financeira, decidiu seguir esse caminho.
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Foi nessa época, em Brasília, que conheceu a mulher, Conceição, com quem teve dois filhos, Mariana e Gabriel. César e Conceição foram colegas na graduação da UnB. Ela veio do Maranhão e cursava serviço social. Hoje, é servidora pública aposentada do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
César trabalhava no então Ministério da Indústria e Comércio quando foi convidado para a vaga de professor substituto na UnB. Dois anos depois de sua chegada era criado o departamento. Em seguida, foi aberto concurso para professor efetivo, cargo que assumiu em 1989. Cerca de 10 anos depois ele se tornaria titular.
Inspiração em grandes mestres
César tem dois professores que considera grandes inspirações: Carlos Alberto Torres, aposentado da UnB, e Alexandre Assaf Neto, da Universidade de São Paulo (USP), que foi seu orientador no mestrado e no doutorado. E ele soube aproveitar a oportunidade de aprender com grandes mestres para também se tornar um.
Participou da criação do mestrado em ciências contábeis da UnB, o primeiro fora do eixo Rio-São Paulo, em 1999. Mais tarde, em 2007, ocorreu a criação do doutorado. À época, a única pós nesse nível em ciências contábeis no país era a da Universidade de São Paulo (USP).
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Para tirar o projeto da pós-graduação do papel, César participou da articulação que permitiu a união de quatro federais e, por isso, foi batizado de Programa Multi-institucional e Inter-Regional de Pós-Graduação em Ciências Contábeis. Participavam as federais de Brasília, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
Eram mais de 1,5 mil graduações espalhadas pelo país, mas faltavam professores para dar aulas nesses cursos e programas de pós-graduação para formá-los. "Até hoje eu penso como é que a gente conseguiu fazer isso. Na época, a Capes foi resistente e, na votação do que eles chamam de plenário, deu empate. O voto de Minerva foi do presidente da mesa, e ele votou a favor da criação. Quase não foi criado. O problema não era o projeto em si, mas o fato de aquilo ser muito novo", relembra César.
Hoje, os cursos de pós-graduação na área já estão difundidos: quase 40 programas em todo o país. "Foi um processo muito difícil. Tínhamos que, muitas vezes, respirar fundo e trabalhar."
Professor de rara habilidade
Os desafios de começar um curso praticamente do zero na década de 1980 fizeram com que César desenvolvesse uma habilidade rara. Poucos professores conseguem transitar entre as diferentes áreas das ciências contábeis. "Quando eu entrei aqui, estávamos implantando um currículo novo, que foi inclusive elaborado por dois professores, e que era bem inovador. Só que não havia professores para ministrar. Então, eu andei ministrando um bocado de disciplinas", explica César.
O colega de departamento, de sala e parceiro de longa data na caminhada acadêmica, Jorge Katsumi Niyama, acompanhava a entrevista atentamente e, nesse momento, fez questão de incluir um adendo: "Temos na contabilidade duas grandes áreas: contabilidade financeira — que cuida dessa parte de balanço, por exemplo — e gerencial — que é controladoria, custos, etc. O professor César é um dos poucos professores no Brasil que consegue transitar nas duas áreas", exalta o amigo.
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"Se você um dia for a uma aula dele, presta atenção, porque a hora que ele começar a balançar a perna é porque ele não está gostando", conta Jorge, aos risos. Ele também é um dos pioneiros da área no país e participou de todas as etapas de evolução do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais. Não à toa, os dois foram agraciados com um posto no chamado "Hall da Fama da Contabilidade", um reconhecimento concedido pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Contábeis (ANPCONT). Houve um momento, relembram-se, bem-humorados, em que eles eram os únicos doutores em ciências contábeis em Brasília.
A chegada à prateleira de Harvard
A obra que figura no acervo da Universidade de Harvard é Custos no Setor Público. "Tem toda uma história esse livro. Ele começou originalmente porque o TCU (Tribunal de Contas da União) fez uma uma pesquisa e constatou que o custo-aluno da UnB era o mais caro do Brasil. O reitor à época falou: 'Está errado, tem algum problema'. E aí eu comecei a ajudá-los nessa apuração de custos, no início dos anos 2000", explica César, mencionando o reitor Lauro Morhy, que esteve à frente da gestão na UnB entre 1997 e 2005.
O resultado foi a publicação de um livro, pela Editora UnB, com trabalhos frutos dessa pesquisa. Além de coordenar o projeto de apuração dos custos da universidade, César organizou a obra. "Não deixa de ser uma surpresa, uma coisa bacana", confessa, ao comentar o feito de chegar a Harvard.
Assista ao vídeo do momento da surpresa:
Ao longo da carreira acadêmica, César já escreveu, participou e organizou mais de 20 livros, e acredita que o mais relevante dessa biografia seja o de Teoria da Contabilidade, que está na quarta edição, pela Editora Atlas, assinado com o professor Jorge Niyama.
Mas não foi só o "livro de Harvard" que teve desdobramentos. César era diretor da Faculdade de Administração, Contabilidade, Economia e Gestão de Políticas Públicas (Face/UnB) quando recebeu o desafio de construir um curso de especialização para funcionários da UnB. Por muitos anos, a universidade manteve uma prática herdada da gestão da ditadura militar, que impedia funcionários de estudarem na própria instituição. A criação de um curso separado foi a forma encontrada para driblar essa proibição e melhorar a qualificação do quadro de profissionais sem que eles próprios tivessem que pagar por isso.
"Os funcionários fizeram monografias que foram transformadas nesses artigos e publicados também pela Editora da UnB", explica. "Tinha funcionários com quase 40 anos de universidade que fizeram o curso. Na época, isso era importante, porque dava uma promoção. E teve uma coisa de autoestima. Isso deu origem aos dois volumes de Gestão Universitária — Estudos sobre a UnB, que eram as monografias dos dois ou três primeiros cursos."
Carreira em sala de aula continua
César segue atuando em sala de aula, com uma grade mais reduzida, já que também exerce o cargo de chefia na pós-graduação, e acredita que os desafios da atualidade não são maiores nem menores. "Acho que eu sou minoria dentro do corpo docente. Geralmente os professores têm a visão de que os alunos de hoje são piores do que os alunos de antigamente. Eu acho que são diferentes", avalia.
"Uma das coisas que você percebe claramente é a inserção deles na tecnologia, e que às vezes é difícil. Quando apareceu o smartphone, eu tive muita dificuldade de lidar. Com o passar do tempo, você vai ajustando. Hoje, é a questão da IA. Até o ano passado, eu tinha no meu critério de avaliação um trabalho que o aluno precisava desenvolver. Com a IA, isso perdeu o sentido", exemplifica.
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E foi a tecnologia que ajudou a promover um dos encontros de César com seu legado. Antes do vídeo de Harvard, outro vídeo da filha, Mariana, viralizou no TikTok, justamente um em que ela postou a dedicatória do trabalho de conclusão de curso na USP. "À minha família, que me ensinou o significado de casa muito antes da faculdade de arquitetura", escreveu a jovem, que em seguida recebeu uma enxurrada de comentários positivos.
"Eu recebi comentários como 'professor Tibúrcio foi meu professor, melhor professor que eu tive na Face'. E em outros momentos eu tive essa confirmação do meu pai como um professor que já inspirou gerações e que deixou seu legado lecionando."
Depoimento: "Paixão pela profissão"
"Meu pai me inspirou muito, pois ele e minha mãe sempre reforçaram o poder da ciência, da academia, da educação. Cresci com ele não só falando isso em palavras, mas mostrando por meio da profissão e do amor que ele tem pela profissão. Com certeza isso pautou a forma como eu encarei a educação na minha vida. E ter colocado a educação como uma prioridade com certeza me trouxe onde eu estou hoje. Meu pai sempre me incentivou muito a investir nos meus sonhos e na minha felicidade."
Mariana Ferreira Silva, filha de César e mestranda de design em Harvard
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