
A ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou em bombardeios e na captura do presidente Nicolás Maduro, não começou neste sábado (3/1). O confronto foi o desfecho de ao menos seis meses de escalada diplomática, econômica e militar, afirma o professor de Relações Internacionais Gunther Rudzit.
“Não deveria surpreender ninguém. Essa crise vinha sendo construída há meses e desembocou nessa ação militar”, afirma.
Rudzit aponta que a origem do conflito está ligada à reformulação da política externa americana, conduzida dentro do governo Trump pelo secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional Marco Rubio.
Essa mudança ficou formalizada na National Security Strategy de 2025, publicada há menos de um mês. “O documento afirma claramente que os Estados Unidos não aceitariam a presença de potências extra-regionais no hemisfério ocidental”, explica. “Eles não citam países, mas é evidente que se referem à China.”
Segundo o professor, a Venezuela aparece como alvo prioritário dentro dessa lógica. “É o país da região com os vínculos mais profundos com o governo chinês. Por isso, foi o primeiro”.
Petróleo entra como peça-chave da disputa geopolítica
O especialista destaca que se trata de uma estratégia para retirar da China o acesso a um recurso considerado essencial. “Cerca de 90% do petróleo venezuelano hoje é exportado para a China”, afirma Rudzit. “Se houver uma mudança de regime na Venezuela, o governo americano estará negando à China uma commodity estratégica".
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Ele ressalta que os Estados Unidos não dependem desse petróleo. “Os EUA hoje são pequenos importadores de petróleo. Não é uma invasão para obter petróleo, mas para negar petróleo ao governo chinês”.
Sanções marcaram o início da escalada
Antes da ação militar, Washington utilizou sanções econômicas como primeiro instrumento de pressão. “Nenhum governo parte diretamente para o uso da força”, explica. “As sanções serviram para sinalizar ao governo Maduro que os Estados Unidos estavam dispostos a escalar.”
Na sequência, segundo ele, vieram ações mais duras. “Houve captura e perseguição de navios, ataques a portos usados por narcotraficantes e, depois, a transição do econômico para o militar.” Para Rudzit, o recado foi claro: “O governo americano mostrou que estava disposto a ir até o fim.”
Captura de Maduro simboliza mudança histórica na região
Para o professor, a prisão de Nicolás Maduro não representa uma exceção, mas sim o símbolo de uma mudança profunda na atuação dos Estados Unidos na América Latina. “A captura de Maduro é o reflexo dessa nova postura americana, já anunciada em documento oficial”, afirma. Ele compara a estratégia ao retorno da Doutrina Monroe sob uma nova roupagem. “É um corolário Trump inspirado no corolário Roosevelt”.
Rudzit lembra a política do “Big Stick”, adotada no início do século 20. “O uso da força voltou a ser uma opção declarada. Isso já estava escrito”. Ele vai além: “Não acredito que essa seja a última ação. É apenas a primeira.” Segundo o especialista, Nicarágua e Cuba estão no radar. “Não sei em que ordem, mas são os dois próximos”.
Mundo reage com choque e dificuldade diplomática
A ofensiva americana provocou reações imediatas no cenário internacional. “O mundo diplomático está em choque, especialmente na América Latina”, diz Rudzit. “Ninguém esperava uma ação desse tipo”.
Na Europa, a situação é ainda mais delicada. “Os governos europeus não reconhecem Maduro como líder legítimo, mas também não apoiam uma ação que viole princípios clássicos do direito internacional”.
Para o especialista, o episódio marca uma ruptura histórica. “Essa ação prova que entramos em uma nova era. A ordem internacional baseada no direito internacional virou peça de museu, assim como a Guerra Fria”.
Futuro da Venezuela segue indefinido
Sobre os próximos passos, Rudzit evita previsões. “Ainda não dá para dizer como o regime venezuelano vai reagir”, afirma. “Não sabemos como os militares e os demais membros do regime responderão”.
Segundo informações preliminares, os ataques também atingiram quartéis e instalações militares. “Isso deixou claro que a infraestrutura de defesa venezuelana não é páreo para a capacidade militar americana”.Ainda segundo o especialista, agora, tudo depende da dinâmica interna do regime. "Vamos ter que esperar para ver”, conclui.

Flipar
Flipar
Flipar
Flipar
Flipar
Política