Ao longo de seus discursos e ações de política externa, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem afirmado reiteradamente que lidera uma ofensiva global contra o narcotráfico. No entanto, decisões tomadas por ele ao longo de 2025 e no início de 2026 expõem uma contradição central nesse discurso: enquanto acusa o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de chefiar um “narcoestado” e autoriza uma operação que culmina em sua captura, Trump concedeu perdão presidencial a um ex-chefe de Estado condenado nos Estados Unidos pelo mesmo tipo de crime.
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Em novembro de 2025, Trump concedeu indulto total e incondicional ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado pela Justiça americana por narcotráfico. Hernández havia sido sentenciado a 45 anos de prisão após ser considerado culpado de facilitar o envio de centenas de toneladas de cocaína aos Estados Unidos.
A condenação foi definida em março de 2024 por um júri de Nova York. Segundo a Justiça americana, as atividades criminosas remontam a 2004, antes mesmo de Hernández assumir a presidência de Honduras. A investigação apontou que a rota do tráfico envolvia o território hondurenho e cargas provenientes principalmente da Colômbia e da Venezuela.
Após a sentença, o então procurador-geral dos Estados Unidos, Merrick Garland, afirmou que Hernández “abusou de seu poder para apoiar uma das maiores e mais violentas conspirações de narcotráfico do mundo”.
Apesar disso, Trump justificou o indulto afirmando, em publicação na rede social Truth Social, que o ex-presidente hondurenho foi “tratado de forma muito dura e injusta”, citando pessoas que disse respeitar como base para sua decisão.
O perdão foi anunciado às vésperas das eleições em Honduras. Na ocasião, Trump declarou apoio público ao candidato de direita Nasry Asfura e chegou a ameaçar reduzir a ajuda dos Estados Unidos ao país caso seu aliado fosse derrotado nas urnas.
A decisão também ocorreu em meio a uma movimentação militar dos Estados Unidos no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, que Washington afirma ter como objetivo o combate ao tráfico de drogas na região.
Poucos dias antes do anúncio do indulto, em 28 de novembro, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que o país estava apenas “começando a matar narcoterroristas”, reforçando o discurso de endurecimento contra o crime organizado.
Em contraste, na manhã deste sábado (3/1), Donald Trump confirmou ter autorizado uma operação “de larga escala” contra a Venezuela e assumiu publicamente a autoria da ação que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro.
Antes dos ataques, autoridades americanas voltaram a acusar Maduro de comandar um “narcoestado” e de ter fraudado as eleições venezuelanas de 2024. O presidente venezuelano é alvo de processos penais em tribunais federais dos Estados Unidos desde 2020, quando foi indiciado por acusações que incluem narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína, crimes relacionados a armas, corrupção e lavagem de dinheiro.
- Leia também: Venezuela: vice-presidente diz que paradeiro de Maduro é desconhecido e pede prova de vida
Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, Maduro teria liderado o chamado Cartel de los Soles, atuando em colaboração com organizações criminosas internacionais, incluindo as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), para enviar cocaína ao território americano.
Desde o governo Trump, autoridades americanas descrevem reiteradamente Nicolás Maduro como um líder ligado ao tráfico de drogas, com anúncios públicos de recompensas e declarações oficiais que reforçam sua suposta ligação com o crime organizado internacional.
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