GUERRA

Crime de guerra, estratégia: especialistas analisam ameaças de Trump

Especialistas avaliam que retórica pode indicar pressão diplomática com implicações jurídicas e risco global

Do ponto de vista jurídico, especialistas ressaltam que fala de Trump não configura automaticamente crime, mas pode indicar intenção -  (crédito:  AFP)
Do ponto de vista jurídico, especialistas ressaltam que fala de Trump não configura automaticamente crime, mas pode indicar intenção - (crédito: AFP)

A declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que “uma nação inteira morrerá” em caso de escalada contra o Irã provocou reação de especialistas em direito internacional e relações exteriores. Para analistas, a fala pode ser interpretada como uma ameaça que, no campo jurídico, se aproxima da antecipação de crimes internacionais, além de representar uma estratégia de pressão em negociações envolvendo o Estreito de Hormuz e o equilíbrio geopolítico do Oriente Médio.

A pós-doutora em direito internacional Priscila Caneparo afirma que a gravidade da declaração reside no fato de mencionar diretamente a possibilidade de ataques generalizados contra civis. Segundo ela, esse tipo de fala pode ser enquadrado no debate jurídico internacional. “Quando há referência a ataques contra infraestrutura civil ou contra toda uma população, isso pode indicar a perspectiva de crime de guerra ou até crime contra a humanidade”, explica.

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A jurista destaca que a interpretação se baseia em dispositivos do Estatuto de Roma, que definem crime contra a humanidade como um ataque sistemático ou generalizado contra civis. Para ela, embora a declaração não configure genocídio — que exige intenção contra grupos específicos — a amplitude da ameaça eleva o grau de preocupação.

Na mesma linha, o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, Roberto Goulart Menezes, afirma que o discurso amplia a tensão global e sugere o uso de intimidação estratégica. “Se a ameaça fosse levada ao extremo, implicaria um cenário de destruição massiva, possivelmente com armamentos de grande escala”, avalia.

Em complemento, Menezes pondera que a retórica não necessariamente indica ação imediata, mas serve como instrumento político. Segundo ele, os Estados Unidos teriam duas opções: ação militar direta ou pressão psicológica. “A intimidação faz parte da estratégia. Mas se essa retórica se concretizasse, o conflito poderia se espalhar por toda a região”, afirma.

Retórica como instrumento de negociação

Para Caneparo, o tom agressivo pode estar vinculado a uma negociação envolvendo a abertura do Estreito de Hormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo. “Esse tipo de ameaça funciona como pressão diplomática para forçar concessões”, diz.

O entendimento é reforçado por Menezes, que afirma que o controle do estreito se tornou instrumento central do conflito. “O Irã utiliza o Estreito de Hormuz como mecanismo de negociação, enquanto os Estados Unidos tentam reduzir o impacto econômico global”, explica.

Risco internacional e impacto econômico

Os especialistas convergem ao apontar que, mesmo sem conflito direto, a retórica já produz efeitos concretos. Entre eles:

  • aumento do preço do petróleo
  • instabilidade nos mercados
  • impacto inflacionário global

Caneparo destaca que o Brasil seria afetado principalmente pela elevação das commodities energéticas. Já Menezes acrescenta que os efeitos atingem logística, transporte e custo de vida.

Do ponto de vista jurídico, Caneparo ressalta que a fala não configura automaticamente crime, mas pode indicar intenção. “Ainda não há ato concreto, mas a ameaça pode ser interpretada como prospectiva de violação do direito internacional.”

Menezes pondera que o discurso também revela fragilidade estratégica. “Se houvesse uma operação militar iminente, a retórica seria acompanhada de movimentos militares claros”, afirma.

Apesar da tensão, os especialistas consideram improvável uma guerra mundial tradicional. Caneparo avalia que o cenário atual é de guerra assimétrica, com atores indiretos e conflitos regionais. “Não estamos diante de uma Terceira Guerra Mundial nos moldes clássicos, mas de uma guerra fragmentada, com múltiplos atores e frentes indiretas”, conclui.

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postado em 07/04/2026 15:20
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