
Sete anos após a morte súbita do marido durante uma viagem em família, Leslie Harter-Berg ainda revisita os desdobramentos mais íntimos do luto, incluindo um aspecto acompanhado de vergonha e confusão: o surgimento inesperado de desejos românticos e sexuais logo após a perda. Em relato ao Daily Mail, Leslie descreve como essas sensações apareceram poucas semanas depois da tragédia, desafiando a imagem de dor contínua e silenciosa que sentia pressionada a sustentar.
A primeira situação aconteceu em uma loja de tênis, em Portland, onde Leslie buscava um novo par para sustentar a rotina de corridas que adotou como forma de lidar com o sofrimento. “Eu tinha começado a correr mais na época, numa tentativa de abafar meu diálogo interno incessante”, contou. No estabelecimento, a viúva se viu diante de um vendedor jovem e atraente, que lhe calçava um par de sapatos. O momento desencadeou um conflito imediato.
“Será que eu deveria ter usado essa aliança de casamento masculina grande pendurada no pescoço?”, pensou. Logo depois, a sensação de culpa tomou conta: “Nossa, ele tem lábios bonitos. Fiquei enjoada e soube que precisava fugir da cena imediatamente”, relatou, ao lembrar que deixou a loja às pressas.
Foi durante uma viagem à Disneyland, em 1º de abril de 2019, que Ryan morreu. O casal descansava à beira da piscina em Palm Springs quando ele disse: “Leslie, tem alguma coisa errada”. Pouco depois, um rompimento causado por uma malformação arteriovenosa (AVM), condição até então desconhecida, tirou sua vida aos 34 anos. Leslie ficou viúva com dois filhos pequenos: Wit, de três anos, e Rory, de um.
“Ryan Harter era mais do que o pai dos meus dois meninos”, disse. “Ele era meu sócio nos negócios e meu melhor amigo. Nossa vida era lindamente entrelaçada, daquele jeito Sonny e Cher. Era coisa de romances e comédias românticas.”
Diante da perda, Leslie passou a lidar não apenas com a ausência, mas com a reconstrução de si mesma. “Eu me descrevia romanticamente como metade de um todo, dizendo: ‘Não existe Ryan sem Leslie.’ Mas o que acontece quando metade de um todo literalmente desaparece do planeta Terra?”, questionou. Para ela, a expectativa social parecia clara: “Você fica triste e solteira para sempre como declaração de seu afeto eterno, certo?”.
Nos meses seguintes, o reconhecimento externo de sua força virou uma espécie de compromisso. “Após a morte de Ryan, o elogio ‘Você é tão forte’ foi distribuído mais do que lasanhas”, contou. A partir disso, decidiu corresponder à imagem projetada: “Eu ficaria triste com Ryan para sempre, mas não triste demais. Não choraria em público de um jeito que deixasse alguém desconfortável. Eu seria ‘tão forte’.”
Esse esforço, no entanto, entrou em choque com os próprios sentimentos. A experiência na loja de tênis foi apenas a primeira de várias situações que a fizeram confrontar desejos que não combinavam com o ideal de luto que acreditava precisar seguir. Pouco tempo depois, em uma reunião familiar, conheceu um homem que mais tarde se tornaria seu segundo marido, descrito por ela como “alto, moreno e bonito”.
Antes de qualquer envolvimento sério, ele representou uma distração em meio à dor. Ao lado da irmã, Leslie chegou a criar a chamada “Operação Beijo”, cujo objetivo era simples: permitir-se um gesto de intimidade sem compromisso. A missão, no entanto, não teve sucesso imediato. “Nenhum beijo foi conseguido nos primeiros dias do luto. A missão foi basicamente um fracasso, mas mesmo assim eu ainda me sentia culpada.”
Apesar de afirmar que não estava pronta para um novo casamento, Leslie reconhece que havia um desejo mais básico por conexão. “Mas eu estava pronta para aquele roçar de mão. Ou um beijo… ou alguns beijos que não levassem a nada, mas que me lembrassem que eu não sou apenas uma mãe solteira triste e viúva. Eu sou uma mulher.” Entre culpa, desejo e reconstrução, Leslie mostrou que a experiência de perder alguém pode incluir sentimentos inesperados e não seguir um roteiro.

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