
Fátima Sousa, Valéria Mendonça, e Katarinne L. Moraes — Professoras da Universidade
de Brasília (UnB)
O avanço das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação no Sistema Único de Saúde deixou de ser uma projeção de futuro. Prontuários eletrônicos, telessaúde, aplicativos e sistemas de informação já integram a rotina dos serviços. A questão não é mais se o SUS será digital, mas como garantir que essa transformação produza cuidado, acesso, equidade e autonomia?
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Essa pergunta ganhou novo peso com a Política Nacional de Informação e Saúde Digital (PNISD), instituída pelo Ministério da Saúde em outubro de 2026. Ao reconhecer a transformação digital como elemento estruturante do SUS, a política coloca o cidadão no centro do cuidado, amplia a inclusão e o letramento digital e incorpora a soberania digital entre seus princípios.
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O letramento digital em saúde não se reduz ao domínio de equipamentos ou aplicativos. Envolve acessar, compreender, avaliar e utilizar informações e tecnologias de maneira crítica, ética e segura. Na Atenção Primária à Saúde, significa transformar dados em decisões, reconhecer informações confiáveis, proteger dados pessoais e apoiar o usuário em sua jornada digital. Sem esse preparo, a tecnologia pode criar mais barreiras.
É nesse contexto que o Estudo Nacional sobre fatores formadores da Inclusão e Letramento Digital dos profissionais da Atenção Primária à Saúde vem produzindo evidências no país. Com quase 4 mil participantes, os dados mostram que 97,4% acessam a internet por smartphone e, para 70,2%, ela já integra a rotina de trabalho. O acesso, porém, não resolve sozinho o problema.
A aplicação da versão brasileira da eHEALS revela um paradoxo: os profissionais relatam capacidade para encontrar e utilizar informações digitais, mas demonstram menor segurança quando precisam apoiar decisões a partir delas. Estar conectado não significa estar preparado para decidir em ambientes digitais.
Esse achado ganha relevância diante da PNISD. A política determina que a saúde digital seja incorporada à formação e à educação permanente e prevê ações de letramento em âmbito nacional. Também orienta a redução das desigualdades territoriais e digitais e a qualificação da infraestrutura e da conectividade, o que torna a responsabilidade compartilhada entre profissionais, gestores e instituições.
As diferenças regionais encontradas no estudo reforçam essa perspectiva, pois não é razoável exigir o mesmo desempenho digital de trabalhadores submetidos a condições desiguais de conectividade, infraestrutura, suporte técnico e organização do trabalho. O letramento digital também é organizacional, uma vez que os serviços precisam oferecer condições para aprendizagem, uso seguro das ferramentas e participação na construção das soluções.
Por isso, treinamentos pontuais não bastam; a educação permanente em saúde digital deve considerar as condições de trabalho e as necessidades dos territórios e, ainda, incorporar proteção de dados, qualidade da informação, enfrentamento à desinformação, uso responsável da inteligência artificial e capacidade crítica para avaliar tecnologias. Assim, a PNISD avança ao prever governança, supervisão humana e gestão de riscos para aplicações de inteligência artificial no SUS.
A soberania digital amplia esse debate por meio dos dados de saúde, sistemas de informação e infraestruturas digitais como ativos estratégicos. Transformar digitalmente o SUS também implica fortalecer a capacidade nacional de governar esses recursos, proteger informações sensíveis, reduzir dependências tecnológicas e estimular pesquisa e inovação orientadas pelo interesse público. Letramento digital e soberania não são agendas separadas: exigem pessoas e instituições capazes de compreender e avaliar as tecnologias que passam a mediar o cuidado.
O desafio alcança também as universidades, uma vez que a formação em saúde precisa preparar futuros profissionais para trabalhar com informação, dados e tecnologias sem dissociá-los da ética, da comunicação e do cuidado. As ferramentas mudarão, mas a capacidade de avaliar evidências e tomar decisões responsáveis terá de permanecer, devendo a mesma formação alcançar os usuários do SUS, cujo protagonismo na transformação digital é reconhecido pela nova política.
A transformação digital não se mede apenas pela quantidade de sistemas implantados ou pelo volume de dados interoperáveis, mede-se também pela capacidade de pessoas e organizações utilizarem esses recursos para produzir cuidado, decisões mais seguras, acesso equitativo e autonomia pública sobre informações essenciais.
A PNISD oferece um marco para transformar conexão em capacidade, dados em conhecimento e tecnologia em cuidado e, ao incorporar a soberania digital, amplia também o horizonte dessa transformação. O próximo passo é fazer do letramento digital uma política cotidiana de formação, gestão e participação social, porque a tecnologia só inclui quando quem cuida e quem é cuidado conseguem compreendê-la, utilizá-la e questioná-la.
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