Operação Tempus Veritatis

Conversas mostram que militares temiam ser presos se plano falhasse

Com a propagação de desinformação sobre a segurança das urnas eletrônicas, Mauro Cid reconhece a diversos militares, que defendiam um golpe de Estado, que não foram encontrados indícios de fraude

A operação da PF é embasada em partes pela delação premiada feita por Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA.Press)
A operação da PF é embasada em partes pela delação premiada feita por Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro - (crédito: Ed Alves/CB/DA.Press)
postado em 08/02/2024 14:54 / atualizado em 08/02/2024 14:58

O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, afirma, em uma troca de mensagens com o coronel Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros, em outubro de 2022, dias após o primeiro turno das eleições, que temia ser preso pelo “processo de propagação de desinformação para gerar descrédito contra o processo eleitoral brasileiro”, como afirma o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na determinação de busca, apreensão e prisões, obtida pelo Correio.

Bolsonaro, assessores, militares e ex-ministros são alvos, nesta quinta-feira (8/2), da Operação Tempus Veritatis, que apura a organização criminosa suspeita de tentativa de golpe de Estado. A campanha de desinformação sobre o processo eleitoral foi potencializada a partir de outubro de 2022, como comprovou uma troca de mensagens entre Cid e “Cavalo”, como é identificado o coronel nas mensagens de WhatsApp.

Em 4 de outubro de 2022, Cavaliere afirma esperar “sinceramente que vocês saibam o que estão fazendo”. “Eu tb. Senão estou preso (...) Nenhum indício de fraude”, responde Mauro Cid.

Em áudios, o coronel trata com o então ajudante de ordens sobre a identificação de uma suposta fraude no primeiro turno das eleições, em que afirma ter encontrado “um monte de inconsistência”, e que teriam procurado políticos para falar sobre falhas nas urnas eletrônicas, mas ninguém respondeu.

A narrativa era de que as urnas, especialmente aquelas que foram enviadas ao Nordeste, registravam votos após o fim do horário de encerramento, às 17h pelo horário de Brasília. “Ela (urna) sempre vai ‘startar’, ou seja, ela vai liberar a votação às oito horas da noite. Por lei, poderia votar até as cinco horas da tarde.”

“A maioria das… tinha um monte de urna, principalmente essas daí do Nordeste que deu esse rolo. Os caras votaram até 23h59. Se você olhar e vai ter o último voto que foi enviado. A gente falou ‘cara, tá muito estranho isso daqui’. Aí a gente considera a Bahia, que tem um quarto da população do estado de São Paulo, teve 623 mil votos após as cinco horas da tarde. No estado de São Paulo acho que teve duzentos e sessenta e pouco. Agora aí tem que ver…”, diz um áudio enviado por Cavaliere a Cid.

A investigação aponta para mensagens de teor semelhante trocadas entre Bernardo Romão Correa Neto, o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, e Mauro Cid “sempre no intuito de buscar suporte às notícias fraudulentas e ampla desinformação sobre inexistentes fraudes no pleito eleitoral para desacreditar as eleições brasileiras”.

“HÉLIO FERREIRA LIMA, inclusive, disponibilizou a MAURO CID documento escrito em língua inglesa com o título "2022 FIRST ROUND BRAZILIAN ELECTIONS VULNERABILITY ANALYSIS REPORT” e um arquivo em formato PDF com o nome fraude nas Urnas 2022, mediante mensagens que insinuam a existência de dois códigos-fontes das urnas eletrônicas; tendo inclusive afirmado que havia necessidade de quebra institucional, diante das respostas do interlocutor (MAURO CID) no sentido de que não teria logrado êxito na identificação de vulnerabilidades do sistema eleitoral”, aponta Moraes na decisão.

Em uma das conversas, Correa Neto questiona Cid se haveria alguma evolução no plano golpista que pudesse ser “otimista”. “Até agora... nada. Nenhuma bala de prata... Por mais que tudo pareça”, responde o ex-ajudante de ordens.

A operação da PF é embasada em partes pela delação premiada feita por Mauro Cid, e o objetivo da trama golpista seria a manutenção de Bolsonaro na Presidência da República. Foi expedido um pedido para que o ex-presidente entregasse seu passaporte às autoridades e não mantenha contato com outros investigados.

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