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Master pode subir tensão entre o STF e o Congresso

Aliados de Bolsonaro e integrantes do Centrão se preparam para usar supostos envolvimentos dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli para tentar colocar o Supremo na defensiva e fazer evoluir matérias que afetem funcionamento da Corte

Liquidação extrajudicial do Master tornou-se um tema que o bolsonarismo utilizará na campanha permanente de desgaste do Supremo -  (crédito:  Divulgação)
Liquidação extrajudicial do Master tornou-se um tema que o bolsonarismo utilizará na campanha permanente de desgaste do Supremo - (crédito: Divulgação)

A ligação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao caso envolvendo o Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC) depois de acusação de promover uma fraude bilionária, gerou um processo de desgaste da imagem da Corte — acelerado por críticas de parlamentares, especialmente do Senado. Os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli estão no centro de supostas interferências no processo. No Legislativo, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e integrantes do Centrão aproveitam para fortalecer as críticas já conhecidas ao Supremo, mas uma ala moderada também defende a necessidade de se investigar, no Parlamento, a relação dos magistrados com o Master.

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Para a professora de ciência política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Luciana Santana, o desgaste causado pelo caso Master acirra uma tensão já existente entre o Supremo e o Congresso. Ela destaca, porém, que o caso requer atenção e transparência, e que o Senado tem a obrigação constitucional de investigar atos e omissões dos poderes Executivo e Judiciário.

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"É um ano relativamente curto para atuação parlamentar. (Os senadores) teriam que estar dispostos a embarcar em um processo desgastante, e que pode ter prós e contras. Claro, vai ter uma utilização, uma exposição maior por parte da base bolsonarista, tentando reafirmar narrativas levantadas há muito tempo, focadas no Alexandre de Moraes. Ao mesmo tempo, pode ser um tiro no pé, porque a população também está cansada. Essas narrativas já estão dadas. Teria que haver algo muito novo nessa investigação para, por exemplo, beneficiar um candidato bolsonarista", avalia Luciana.

Ponto de tensão

Por sua vez, Leonardo Paz, cientista político e analista de Inteligência Qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (NPII) da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que as possíveis relações envolvendo Moraes, sua esposa e Toffoli com o caso Master podem virar uma "grande mancha" caso confirmadas. Especialmente para Moraes, que se cacifou como defensor da democracia ao atuar nos julgamentos dos golpistas que tentaram romper o Estado Democrático de Direito depois das eleições de 2022 — entre eles o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo STF.

"É um ponto de tensão forte dentro do Supremo, que cada vez mais tem sido puxado para dentro da política, e se coloca como uma instituição que gera tensões, que não mais fica isenta das disputas políticas", lamenta.

Sobre a atuação do Congresso, Leonardo aponta que a possibilidade de uma pressão de Moraes sobre Galípolo em favor do Master, ainda que não tenha sido confirmada, é um discurso sob medida para os bolsonartistas tentarem avançar com um pedido de impeachment do ministro — que virou, inclusive, plataforma eleitoral para os candidatos ao Senado da extrema-direita. Ele considera, ainda, que a situação pode também beneficiar eleitoralmente parlamentares de direita mais moderados.

"Na minha leitura, esse pessoal está querendo uma CPI ou uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), e a gente já descobriu que podem ser plataformas políticas muito grandes. Podem alavancar a imagem de alguns atores, e enterrar a de outros. Mas é um perigo sempre. A gente não sabe para que lado vai", adverte.

No caso de Moraes, a mulher do ministro, a advogada Viviani Barci de Moraes, teria um contrato firmado no valor de até R$ 129 milhões, pagos em três anos a partir de 2024, para atuar na defesa do Master. Em nota, o magistrado afirmou, ainda, que falou com com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, apenas sobre a aplicação da Lei Magnitsky contra o casal, e negou terem os dois discutido o caso do Master. Ele esclareceu, ainda, que o contrato com o escritório de sua mulher "jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central". Por consequência, a Procuradoria-Geral da República (PGR) arquivou, na segunda-feira passada, um pedido de investigação contra o magistrado por não ver indícios de irregularidades no contrato de Viviane. "No que tange ao contrato mencionado entre a doutora Viviane Barci de Moraes e o Banco Master, não se vislumbra, a priori, qualquer ilicitude que justifique a intervenção desta instância", escreveu o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O BRB tentou comprar o Master, no ano passado, mas a transação foi negada em setembro pelo BC em meio às suspeitas de irregularidades por parte do banco de Daniel Vorcaro. Dois meses depois, ele foi preso pela Polícia Federal (PF), que revelou apuração de mais de R$ 12 bilhões em títulos fraudulentos vendidos pelo Master. Após as revelações, senadores e deputados da oposição anunciaram que vão apresentar novos pedidos de impeachment contra Moraes, que já acumula mais de 40. Em outra frente, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), anunciou que vai reunir, após o recesso parlamentar, assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a relação dos Moraes com o Master. Em publicação nas redes sociais, o parlamentar disse que o contrato de R$ 129 milhões está "fora dos padrões da advocacia".

Já Dias Toffoli virou alvo de críticas depois que foi divulgado que ele viajou em um jatinho particular para Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras. Na aeronave, também estava o advogado Augusto Arruda Botelho, que representa o ex-diretor de Compliance do Master Luiz Antonio Bull, preso na mesma operação em que Vorcaro e outros executivos da instituição financeira foram detidos.

Toffoli ainda determinou uma acareação, ocorrida na terça-feira passada, entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa depois de prestarem depoimento à delegada Janaína Palazzo, que conduz o inquérito — também foi ouvido o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino.

 

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postado em 05/01/2026 03:55
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