
O Supremo Tribunal Federal (STF) marcou os três anos dos ataques golpistas com uma série de eventos. Na abertura da exposição 8 de janeiro: Mãos da Reconstrução, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, classificou a invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes como um ato "premeditado, pautado pela negação do diálogo". E advertiu que cabe ao tribunal não apenas guardar a Constituição, mas impedir que o tempo "anestesie a sensibilidade" da sociedade diante do mal cometido.
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Fachin elogiou a atuação do relator dos inquéritos, ministro Alexandre de Moraes, ao afirmar que a firmeza do magistrado foi expressão do dever institucional. "Que a sua atuação no 8 de Janeiro nos lembre que defender a Constituição é defender aqueles que, com generosidade e abnegação, puseram as instituições à frente", frisou. "Há quem confunda firmeza com jactância. Moraes se colocou firme por dever do ofício, com sacrifícios pessoais e familiares, e esteve onde precisava estar", enalteceu. O presidente do Supremo também saudou o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, lembrando o papel das instituições na reconstrução democrática.
"O 8 de janeiro, assim como os dias que se seguiram, também diz respeito à vontade de reconstruir, à dedicação, à resiliência, à fraternidade e ao compromisso inabalável com a democracia", afirmou. "Recordar é resistir."
O ministro aposentado Celso de Mello, que não pôde comparecer por razões médicas, enviou uma carta ao STF, na qual destacou que "o esquecimento é o primeiro aliado da barbárie" e que a memória democrática "não é culto ao passado, mas instrumento de defesa do futuro". Ele alertou que relativizar ataques às instituições abre espaço para que a intolerância se reorganize, ressaltando que preservar os vestígios da violência institucional é um imperativo cívico.
O balanço apresentado pelo gabinete de Moraes mostra que a resposta do Estado segue em curso. Em três anos, o STF já responsabilizou 1.399 pessoas pelos crimes relacionados ao 8 de Janeiro, com 810 condenações e 564 acordos de não persecução penal, que renderam mais de R$ 3 milhões para o ressarcimento dos danos. Ainda tramitam 346 ações penais em fase final e outras 98 denúncias aguardam a etapa de defesa prévia, em sua maioria envolvendo financiadores.
Em fevereiro, com o fim do recesso, a Corte retoma os julgamentos. Paralelamente, seguem os processos da chamada trama golpista: quatro ações resultaram em 29 condenações, e sete réus do núcleo crucial — entre eles o ex-presidente Jair Bolsonaro — cumprem pena.
Além do eixo jurídico, o STF abriu espaço para o testemunho de quem viveu o ataque na linha de frente. Em uma roda de conversa com jornalistas, a ex-coordenadora de imprensa do tribunal, Gabriela Guerreiro, relatou que a Secretaria de Comunicação foi completamente vandalizada, com perda total dos equipamentos.
O encerramento dos debates coube ao ministro aposentado Ayres Britto, que definiu a democracia como o "princípio dos princípios" da Constituição de 1988. Conforme disse, a Carta Magna é a única lei que não emana do Estado, mas da nação, e cabe ao Supremo revelar a voz desse pacto acima das vontades circunstanciais.
Ao destacar o papel do Ministério Público, da Defensoria Pública e das Forças Armadas na defesa da ordem constitucional, Britto afirmou que as sociedades não dão "saltos quânticos": a democracia exige tempo, maturação e vigilância permanente. "Sem democracia, tudo mais é nada", concluiu.

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