
A decisão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de adiar a visita que faria ontem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso no 19° Batalhão de Polícia Militar — a Papudinha —, abriu um novo capítulo nas disputas internas da direita sobre a candidatura do bolsonarismo para a corrida presidencial. Embora o pedido para o encontro tenha partido do próprio Bolsonaro ao governador, e a autorização tenha sido concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), Tarcísio optou por permanecer em São Paulo. E registrou na agenda oficial: "despachos internos".
Em publicação no X (antigo twitter), Tarcísio tentou amenizar as críticas que vem recebendo por não ter visitado Bolsonaro. Disse que vai vê-lo na próxima quinta-feira e, também, que é candidato à reeleição em São Paulo. Isso, porém, não apaga a impressão de que não pretende se submeter àquilo que o clã Bolsonaro quiser.
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A visita estava prevista para ocorrer entre 8h e 10h, mas foi cancelada sob a alegação de conflito de compromissos. Em nota, o Palácio dos Bandeirantes afirmou que houve incompatibilidade de agenda e que uma nova data será solicitada. Nos bastidores, porém, a avaliação é de que o adiamento teve peso político maior do que o argumento para não encontrar Bolsonaro sugere.
Interlocutores relatam que Tarcísio seria pressionado, no encontro, a explicitar apoio público à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a reafirmar que seu projeto eleitoral se limita à reeleição ao governo paulista. A cobrança teria incomodado o governador, que, embora nunca tenha declarado intenção de disputar o Palácio do Planalto, enfrenta estímulos de setores da direita para manter o nome no jogo presidencial.
O senador tem enfatizado, publicamente, que Jair Bolsonaro o apontou como candidato natural da direita, ao mesmo tempo em que insiste que Tarcísio deve concentrar-se na reeleição em São Paulo. A estratégia busca afastar o governador da corrida presidencial.
Nos bastidores, contudo, cresce o desconforto de Tarcísio com a insistência dos filhos do ex-presidente para que ele exponha, enfaticamente, seu apoio a Flávio. Pessoas próximas ao governador avaliam que a pressão pública constrange e limita sua margem de articulador nacional, sobretudo porque a direita não conseguiu unificar-se em um único nome para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A disputa não se restringe a Tarcísio e Flávio. Dentro da própria família Bolsonaro, há sinais de conflito. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro nunca afirmou que pretende disputar a Presidência, mas tem adotado um discurso com forte projeção nacional e ampliado sua presença política como líder do PL Mulher. Aliados defendem abertamente seu potencial eleitoral e não descartam, nos bastidores, a hipótese de uma chapa em que Michelle figure como vice de Tarcísio, caso o governador venha mesmo a entrar na disputa.
Michelle tem demonstrado capacidade de mobilização, influência na base conservadora e habilidade nas articulações, fatores que reforçam seu peso no tabuleiro do bolsonarismo. Esse movimento adiciona mais um elemento de tensão ao processo de escolha de um sucessor para o ex-presidente, que, mesmo preso, segue como figura central do campo político que aglutina.
Sem empolgação
As fissuras ficaram ainda mais evidentes depois da declarações do pastor Silas Malafaia, uma das vozes mais estridentes do bolsonarismo. Ele afirmou, em entrevista na quarta-feira ao SBT News, que a pré-candidatura de Flávio não empolga lideranças nem o eleitorado da direita. Ainda aponta Tarcísio como um nome com maior potencial para disputar o Planalto. Para Malafaia, falta ao senador densidade política para unificar o campo conservador e, segundo ele, parte dos apoiadores evita críticas públicas ao senador por receio "de se queimar".
"Tarcísio encarna o novo, vem com rótulo de competência e governabilidade, e consegue dialogar com a direita e com a esquerda", explicou Malafaia, ao defender que apoiará, em eventual segundo turno, o candidato de direita que considerar mais viável eleitoralmente.
Em sentido oposto, parlamentares alinhados ao núcleo familiar reforçam a candidatura de Flávio. A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) afirmou que Jair Bolsonaro continua a "dar as cartas" na direita, e que o o filho 01 seria o principal beneficiário dessa influência. "Ele empolgou os aliados e a base bolsonarista", disse, ao mencionar, porém, que uma chapa com Tarcísio e Michelle também seria "uma ótima opção", caso o cenário mude.
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro foi ainda mais direto ao afirmar que Tarcísio não tem peso político para se opor à candidatura do irmão. Segundo ele, qualquer movimento fora desse arranjo representaria um rompimento com a base que o elegeu governador. "Ele não tem a opção de ir contra o Bolsonaro", afirmou, ao sustentar que a corrida presidencial está definida em favor do irmão.
Apesar das tentativas de enquadramento, o adiamento da visita de Tarcísio a Bolsonaro foi lido por aliados como um gesto de autonomia do governador, ainda que não seja ostensivo. Ao priorizar compromissos internos, sinalizou que não pretende se deixar emparedar e que amplia articulações com empresários e investidores.
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