direitos femininos

Erika Hilton assume Comissão da Mulher

Deputada é a primeira trans a comandar o colegiado. Ela estuda ir ao Conselho de Ética da Câmara contra os comentários que classificou de transfóbicos das parlamentares ligadas às correntes conservadoras da Casa, que criticaram a escolha

A deputada federal Erika Hilton (PSol-SP) foi eleita, ontem, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. É a primeira vez que uma mulher trans assume o comando do colegiado. Houve protesto das bolsonaristas e a parlamentar estuda recorrer ao Conselho de Ética contra as falas transfóbicas.

O pleito foi em dois turnos. No primeiro, apesar de Erika concorrer com chapa única, não alcançou o número necessário para ser confirmada na presidência da comissão. Foram registrados 10 votos favoráveis e 12 em branco, o que impediu a eleição naquele momento. Como os votos em branco não atingiram a maioria absoluta — eram necessários 13 —, a presidente da comissão, Célia Xakriabá (PSol-MG), abriu uma segunda votação, em que bastava maioria simples. Assim, Erika foi escolhida com 11 votos favoráveis e 10 em branco.

Depois de assumir o cargo, Erika afirmou que pretende concentrar o trabalho do colegiado em políticas públicas voltadas à proteção e à dignidade das mulheres. As bolsonaristas questionaram a escolha de uma mulher trans o comando do colegiado e deputadas como Chris Tonietto (PL-RJ) e Clarissa Tércio (PP-PE) afirmaram que a comissão deveria ser presidida por uma mulher cisgênero. Elas criticaram, também, aquilo que classificaram como "ideologização" da pauta.

"Não podemos concordar com a entrega desta comissão, que deveria zelar pela dignidade da mulher, da vida e da família, a uma pauta que desvirtua a própria essência feminina", disse Chris Tonietto. Clarissa Tércio, por sua vez, considerou que o colegiado deveria ser presidido por uma "mulher de fato" — argumentou, ainda, que a eleição de Erika é um retrocesso para a pauta feminina.

O incômodo com a eleição da deputada do PSol para comandar a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara causou incômodo até mesmo no Senado. Em discurso no plenário da Casa, Damares Alves (Republicanos-DF) criticou a escolha, que, para ela, representaria um risco aos espaços historicamente ocupados por mulheres.

"Não posso permitir que um movimento no Brasil queira me tirar, inclusive, o direito de eu falar na tribuna que eu sou mulher", afirmou.

Damares acrescentou que reconhece a necessidade de defesa dos direitos de pessoas trans, mas argumentou que a Comissão da Mulher deveria ser ocupada por mulheres "que nasceram mulheres". "Sou mulher, eu nasci mulher e ninguém vai tirar o meu direito de falar que eu sou mulher", disse.

A senadora também afirmou que, embora reconheça que pessoas trans mereçam espaços para a defesa de seus direitos, a presidência do colegiado — que debate políticas voltadas às mulheres — não deveria, em sua visão, ser ocupada por uma parlamentar trans.

Reação às críticas

Ao Correio, Erika minimizou as críticas à sua eleição e disse que o foco da comissão deve ser o enfrentamento de problemas estruturais que afetam as mulheres no país. "Estou preocupada mais com o fato de que vamos trabalhar em prol da dignidade das mulheres. Precisamos enfrentar o feminicídio, a cultura do estupro, a violência doméstica e facilitar legislações que salvem a vida das mulheres", afirmou.

A parlamentar acrescentou que pretende transformar o colegiado em um espaço de acolhimento e debate sobre propostas legislativas relacionadas à pauta feminina. Segundo Erika, o objetivo é evitar disputas ideológicas que, em sua avaliação, desviem o foco das políticas públicas.

"Quero fazer da comissão um espaço de escuta e acolhimento das mulheres, mas, também, de discussão de legislações que tratem da vida das mulheres. Está decidido por maioria: fui eleita a primeira travesti, mulher trans, presidenta da Comissão das Mulheres, criando um marco histórico. Vamos trabalhar por todas as mulheres — pelas meninas, pelas mulheres trans, pelas mulheres cis, pelas mães e pela dignidade das mulheres", frisou.

As demais integrantes da mesa diretora são as deputadas Laura Carneiro (PSD-RJ), como primeira vice-presidente; Delegada Adriana Accorsi (PT-GO), como segunda vice; e Socorro Neri (PP-AC), como terceira vice-presidente.

 

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