
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), reagiram, ontem, a um relatório produzido pelo governo dos Estados Unidos, que aponta o sistema de pagamentos Pix como uma das barreiras impostas pelo Brasil ao comércio exterior. A posição da Casa Branca não é nova, mas a divulgação do relatório deu oportunidade para que Lula tente politizar ao máximo a questão e transformar a defesa do Pix numa bandeira eleitoral com popularidade. É a busca de uma narrativa convincente sobre o bom desempenho de seu governo para tentar aumentar a aprovação.
"O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudá-lo pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira. O que nós podemos fazer é aprimorar o Pix, para que cada vez mais ele possa atender a necessidade de mulheres e homens deste país", defendeu, durante visita às obras do VLT de Salvador. Na prática, o relatório deu de bandeja para Lula a defesa do Pix, que emerge como um elemento central da "economia do afeto".
A Casa Branca ajudou Lula a converter o Pix em símbolo político de seu governo, embora esse meio de pagamento tenha sido criado pelo Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto, em meados de 2020. Ou seja, durante o governo Bolsonaro. A forma subalterna como Bolsonaro e seus filhos se relacionam com Trump facilita a vida de Lula. Ao reagir às críticas da Casa Branca e afirmar que "o Pix é do Brasil", Lula desloca a questão do terreno econômico, onde enfrenta dificuldades, para o campo da soberania nacional e do orgulho tecnológico. Assim, define uma agenda positiva em meio à adversidade.
A busca de Lula por uma narrativa eleitoral convincente ocorre sob pressão: de um lado, a ofensiva crescente da oposição liderada por Flávio Bolsonaro; de outro, uma conjuntura internacional adversa, marcada pela guerra no Irã e seus efeitos inflacionários sobre combustíveis e custo de vida. Esse contexto redefine o eixo da disputa e impõe ao governo um desafio clássico de campanhas eleitorais governistas: traduzir a vulnerabilidade econômica numa agenda positiva do discurso eleitoral de forma eficaz
Houve uma mudança significativa de cenário. Lula aparecia com vantagem confortável em fevereiro (43% a 38%), porém, passou a um empate técnico em março (41% a 41%). Ou seja, houve estagnação de sua base e crescimento do adversário. Esse movimento não é apenas estatístico. Ele reflete uma alteração qualitativa no humor dos eleitores, especialmente diante da percepção de piora no custo de vida, ainda que indicadores macroeconômicos não confirmem integralmente essa sensação. Nas eleições, percepção vale mais do que o fato em si. É nesse terreno que a oposição nada de braçada.
A guerra no Irã está tendo um efeito catalisador dessa percepção negativa. A alta do petróleo pressiona combustíveis, transporte e alimentos, afeta diretamente o cotidiano da população. Embora o Brasil seja exportador de petróleo, isso não elimina o problema interno: o governo foi obrigado a adotar subsídios e medidas compensatórias, o que expõe fragilidades fiscais e limita a margem de ação política. Fora do controle do Planalto, a guerra do Irã é uma espécie de "inimigo invisível" que ameaça a reeleição de Lula.
Percepção popular
Diante das dificuldades, uma mudança na postura "olímpica" de Lula. A adoção de um discurso mais combativo indica que o presidente compreendeu a necessidade de confrontar Flávio, seu princiopal adversário, para recompor a base. A resolução do PT que associa o bolsonarismo a um projeto antidemocrático e a decisão de intensificar ataques nas inserções de rádio e TV revelam essa mudança da posição defensiva para a de ataque. O objetivo é se apresentar como defensor das políticas públicas com amplo apoio da população, que hoje são encaradas como mera obrigação do governo.
Essa estratégia permite ao governo falar diretamente com o cotidiano do eleitor, como no caso do Pix. E cria um contraponto narrativo à oposição, que centra seus ataques em corrupção, custo de vida e insegurança. Ao mesmo tempo, traz para o debate eleitoral uma dimensão geopolítica do Brasil, ao mostrar que interesses externos ameaçam o país. Trata-se de uma tentativa de mobilização nacionalista.
Entretanto, nada disso resolve o problema central da campanha: a desconexão entre os indicadores econômicos e a percepção popular. O eleitor que sente o impacto da inflação no supermercado ou no posto de gasolina dificilmente será convencido apenas por uma narrativa de soberania digital. Há dissonância entre discurso e realidade, o que facilita a vida da oposição. Na verdade, a polarização é ambivalente. Ao atacar Flávio Bolsonaro e reforçar a dicotomia entre dois projetos de país, Lula busca consolidar seu eleitorado tradicional. Contudo, isso pode dificultar a conquista do eleitor de centro, que se mostra cada vez mais decisivo em um cenário de empate técnico.
A movimentação de candidaturas como a de Ronaldo Caiado e as articulações no PSD indicam que Lula pode estar sendo alvo de um movimento em pinça, para atrair o centro num cerco eleitoral. O tripé ataque direto à oposição, valorização das políticas públicas e defesa da soberania nacional, a estratégia adotada pelo PT, tem coerência com o governo e a trajetória de Lula, porém, enfrenta um ambiente muito mais hostil do que em eleições anteriores.
Saiba Mais

Política
Política
Política
Política