
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu manter a tramitação da proposta de emenda à Constituição (PEC) do fim da jornada 6x1 mesmo diante da ofensiva do governo federal, que tenta conduzir o tema por projeto de lei para agilizar a votação — a aprovação é uma meta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição. "Nós vamos seguir o cronograma da proposta de emenda da Constituição", afirmou o deputado.
A declaração explicita o impasse entre Legislativo e Executivo sobre o caminho para viabilizar a mudança. Motta, inclusive, minimizou o impacto da iniciativa do Executivo sobre o planejamento da Câmara. "O envio da parte do governo do projeto de lei não muda o cronograma pré-estabelecido pela presidência", afirmou. Para ele, a proposta de emenda constitucional permite um debate mais amplo e estruturado. "Com a PEC, nós temos um âmbito maior para a discussão", argumentou.
Ele disse não haver previsão para a definição do relator que tratará do projeto do Planalto. "Nós seguiremos com o cronograma de PEC. Isso não afeta a nossa relação com o governo. Nossa relação com o governo está a mais institucional e correta possível, como tem que ser. Cada um tendo a sua independência, mantendo a harmonia", enfatizou. "Na Câmara, já havíamos traçado uma tramitação para que a matéria seja apreciada por meio de proposta de emenda à Constituição. Vamos seguir dialogando com a liderança do governo, com o deputado Paulo Pimenta, com o ministro José Guimarães, das Relações Institucionais, com a equipe econômica do governo, porque essa tem sido a marca da nossa gestão."
O deputado acrescentou haver um sentimento favorável entre lideranças para a aprovação da medida, mas ressaltou a necessidade de uma tramitação "muito responsável", com escuta de todos os setores e atenção aos impactos econômicos e às regras de transição.
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Suspensão
Momentos antes da coletiva de Motta, o relator da PEC, Paulo Azi (União-BA), apresentou, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), parecer favorável à admissibilidade da proposta. Apesar do aval, a análise foi interrompida por pedido de vista da oposição. O deputado Lucas Redecker (PSD-RS) justificou ser necessário mais tempo de análise do assunto. O regimento interno determina que a vista tem duração de duas sessões deliberativas.
Em seu relatório, Azi considerou constitucionais as propostas que tratam da redução da jornada de trabalho, mas ressaltou a necessidade de cautela na implementação das mudanças.
A principal preocupação está na forma de adoção da nova escala. Azi apontou que é preciso avaliar os efeitos sobre diferentes setores e discutir mecanismos de adaptação gradual, com possíveis medidas compensatórias para as empresas.
Sobre o travamento na CCJ, Motta afirmou que a Presidência trabalha para destravar o calendário rapidamente. "Nós estamos fazendo sessão até a próxima sexta-feira, visando que a votação possa se dar na CCJ na próxima quarta, após o feriado (de Tiradentes)", explicou. Segundo ele, a definição dos relatores nas próximas etapas dependerá da aprovação na comissão.
Cautela
Especialistas defenderam a análise aprofundada por meio da PEC. Na visão da advogada trabalhista Elisa Alonso, o ritmo acelerado da tramitação de um projeto de lei, como propõe o governo, está mais ligado ao ambiente político do que a uma construção técnica consistente.
"Em um ambiente marcado por forte apelo político e eleitoral, era esperado que essa pauta, com alta capacidade de mobilização social, avançasse nas etapas iniciais do processo legislativo", afirmou. Ela alertou, no entanto, que a falta de análises setoriais pode gerar impactos relevantes em áreas como comércio, saúde e indústria, especialmente pela ausência de uma transição estruturada.
Na mesma linha, a especialista em direito empresarial e do trabalho Débora Cursine frisou que o tema deixou de ser apenas uma bandeira social e passou a ocupar o centro da agenda institucional, ainda que enfrente entraves, como o pedido de vista que suspendeu temporariamente a discussão. Segundo ela, o debate agora exige aprofundamento técnico, sobretudo diante da proposta do Executivo de reduzir a jornada para 40 horas semanais sem corte salarial.
Débora destacou que o principal desafio será a implementação prática da medida em setores com funcionamento contínuo, em que os custos tendem a ser redistribuídos. "Trata-se de uma discussão legítima, mas a maturidade dependerá menos do apelo político inicial e mais da capacidade de estruturar uma implementação tecnicamente sustentável, com segurança jurídica e sensibilidade às diferenças entre os setores", concluiu.
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