O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, confirmou, nessa quarta-feira, a retirada das credenciais de um agente do Serviço de Imigração dos Estados Unidos (ICE) que atuava junto à corporação brasileira, em Brasília. A medida segue o princípio da reciprocidade que rege as relações internacionais, após a Casa Branca "solicitar", na terça-feira, a saída do país do delegado federal Marcelo Ivo de Carvalho, que trabalhava em colaboração com o ICE.
Segundo Rodrigues, a autorização para atuar no Brasil ficará suspensa até que o governo dos EUA esclareça a real situação do policial federal brasileiro, que já retornou ao Brasil. Sem as credenciais, o agente de imigração dos Estados Unidos (que não teve o nome divulgado) perde o acesso a instalações e bancos de dados no Brasil. A decisão foi informada a diplomatas da embaixada dos Estados Unidos, em reunião no Itamaraty, na terça-feira.
"À medida que uma agência tira as credenciais do meu policial (delegado Carvalho), eu retiro as credenciais do policial norte-americano que está aqui, e faço com muito pesar", declarou Rodrigues, em entrevista à Globonews. Ele garantiu que não houve a expulsão "de nenhum brasileiro no exterior". "Ao chegar ao trabalho, ele teve a credencial de acesso ao sistema negada. Portanto, eu entendi que seria mais prudente (o delegado) voltar ao Brasil", disse o chefe da PF.
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A aplicação do princípio da reciprocidade havia sido determinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao tomar conhecimento do problema, durante a viagem oficial à Europa. O retorno de Carvalho ao Brasil, porém, já estava previsto há dias. Na sexta-feira da semana passada, Rodrigues assinou ato de nomeação da delegada Tatiana Torres para ocupar a função de oficial de ligação no ICE, no lugar de Carvalho. O delegado federal atuava havia dois anos nos Estados Unidos com base em protocolos e acordos de colaboração entre os órgãos de segurança dos dois países. Nesse período, segundo Rodrigues, 49 foragidos da Justiça brasileira foram presos e 55 imigrantes em situação irregular, deportados.
O nome de Marcelo Ivo de Carvalho não foi citado na mensagem do Escritório do Hemisfério Ocidental do governo dos EUA — publicada apenas na rede social X — que acusa "um funcionário brasileiro relevante" de "manipular o sistema de imigração (dos EUA) para contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território dos EUA". Na mesma mensagem, republicada em português pela embaixada dos EUA em Brasília, esse "funcionário relevante" deveria deixar o país por "solicitação" do governo de Donald Trump.
Segundo escalão
O Palácio do Planalto e o Itamaraty ainda não receberam nenhuma comunicação oficial da Casa Branca sobre o imbroglio diplomático envolvendo o delegado brasileiro. No fim da tarde de terça-feira, o diretor do Departamento de América do Norte do Ministério das Relações Exteriores, ministro Christiano Figuerôa, chamou à sede do Itamaraty a ministra-conselheira da embaixada dos EUA em Brasília, Kimberly Kelly, que ocupa interinamente a chefia da representação diplomática para prestar esclarecimentos sobre o caso.
O encarregado de negócios, Gabriel Escobar, que responde pelo comando da embaixada na ausência de um embaixador nomeado, está de férias. O principal cargo da representação diplomática está vago desde que Trump assumiu a Presidência dos Estados Unidos — um dos sinais do esfriamento das relações entre os dois países.
A reunião com Kimberly Kelly, no nível de segundo escalão da diplomacia, pouco acrescentou às informações que o Planalto dispunha. A embaixada não esclareceu a situação do delegado brasileiro nem os motivos reais que motivaram o governo dos EUA a pedir a saída dele do país, apenas confirmou a "comunicação verbal" ao PF "sobre a interrupção imediata de exercício de suas funções oficiais em território norte-americano", de acordo com nota oficial do Itamaraty, divulgada no início da noite dessa quarta-feira.
Como resposta, o Itamaraty comunicou à diplomata, também verbalmente, que o governo brasileiro aplicaria o princípio da reciprocidade "diante da decisão sumária contra o agente da Polícia Federal, que não foi precedida de qualquer pedido de esclarecimento ou tentativa de diálogo", como prevê um dos memorandos de entendimento bilateral que regula esse tipo de cooperação policial.
Na avaliação de autoridades brasileiras, a solicitação para que o delegado brasileiro deixasse os Estados Unidos foi consequência da prisão do ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Informações (Abin) e deputado federal cassado Alexandre Ramagem, na semana passada, por agentes do ICE, na Flórida. Após articulações de bolsonaristas que vivem nos Estados Unidos junto a autoridades do governo Trump, Ramagem foi solto depois de ficar dois dias detido, sem pagamento de fiança. Condenado na trama golpista, ele aguarda, agora, uma decisão sobre o pedido de asilo político que fez ao governo dos EUA após fugir do Brasil, em setembro do ano passado.
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