
Em um áudio de 1 minuto e 30 segundos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, pede milhões de reais para o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, principal investigado, até o momento, da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. O dinheiro seria para a produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Na conversa, Flávio chama o executivo de "irmão" e diz que estará sempre com ele.
A conversa, publicada pelo portal Intercept Brasil, ocorreu em novembro do ano passado, um dia antes de Vorcaro ser preso pela Polícia Federal por envolvimento em um megaesquema de corrupção que envolve pagamento de propina, lavagem de dinheiro e lobby no setor político, de mídia e econômico. O empresário foi detido tentando fugir do país.
Parte do dinheiro, supostamente destinada ao filme, teria sido paga por meio de transferências da Entre Investimentos e Participações — que atuava em parceria com empresas de Vorcaro — para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, de acordo com a reportagem.
"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", afirmou Flávio, em um trecho da conversa. O senador ainda afirma que sabe que Vorcaro está "passando por um momento difícil". "E você também, eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, né? Sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?", afirmou o parlamentar.
Em seguida, ele completou: "É porque está num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso. E fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou para o filme, né? Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus (Nowrasth, diretor)", disse. "Pô, ia ser muito ruim, né? Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara."
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Ao receber as mensagens de Flávio, Vorcaro responde que fará os pagamentos. "Deixa comigo, irmão. Vou ver agora", afirma ele. Em outra conversa, com o dono de uma agência, o dono do Master pergunta para quem paga e recebe como resposta que se trata de um fundo. Em seguida, marca um encontro com Flávio e representantes do filme, na casa do executivo, em São Paulo.
Pelo menos R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio do ano passado por meio de seis operações. A produção do filme seria nos Estados Unidos, coordenada por Eduardo Bolsonaro.
De acordo com informações obtidas pelo Correio junto a fontes na Polícia Federal, o fato apontado no áudio ainda não está sendo investigado pela corporação, mas deve entrar no rol de diligências a serem incluídas no âmbito da Operação Compliance Zero. Os investigadores devem se debruçar sobre o caso ainda nesta semana e avaliam pedir a quebra de sigilo de Flávio Bolsonaro, além de busca e apreensão em endereços ligados a ele.
Defesa
Em nota e vídeo, Flávio confirmou ter recebido dinheiro de Vorcaro. No entanto, negou ter oferecido contrapartidas. "Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet", frisou.
O parlamentar disse ter conhecido Vorcaro em dezembro de 2024 e que cobrou os valores quando ocorreu atraso no pagamento do filme. "O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme", afirmou.
"Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro", acrescentou.
Apesar das declarações, horas antes, Flávio havia desmentido o diálogo com Vorcaro. "De onde você tirou essa informação? É mentira", disse ele, ao ser questionado por um jornalista após visita ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.
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