HOMENAGEM

Ao receber honraria na PUC, Dino afirma que "STF não é inimigo da nação"

Ministro defendeu a legitimidade da Corte, criticou acusações de ativismo judicial e alertou sobre o avanço de facções criminosas no mercado de capitais

Para Dino, magistrados que se rotulam rigidamente como
Para Dino, magistrados que se rotulam rigidamente como "ativistas" ou "da contenção" são maus juízes, pois o ato de julgar é indissociável da interpretação - (crédito: Antonio Augusto / STF)

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino recebeu, nesta sexta-feira (22/5), o Título de Notório Saber pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em seu discurso de aceitação, Dino utilizou a honraria como um “escudo” para defender a legitimidade da jurisdição constitucional, afirmando enfaticamente que “o STF não é o inimigo da nação”.

Ele justificou a atuação expansiva da Corte como uma escolha deliberada do Congresso Nacional no pós-ditadura militar, e um reflexo de uma Constituição Federal analítica que busca proteger segmentos historicamente minorizados.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O ministro classificou a revolução científico-tecnológica como o maior desafio atual ao iluminismo e ao constitucionalismo, alertando para o risco de uma "invasão da alma", em que a inteligência artificial (IA) e hologramas transformem a imortalidade em objeto de mercado.

Citando o jurista João Maurício Adeodato, ele defendeu uma regulação estatal coercitiva que não negue a inovação, mas a adeque aos valores humanos para evitar a substituição da imaginação.

Dino também rebateu as críticas de "ativismo judicial" ligadas à defesa de direitos sociais, relembrando sua experiência como governador na pandemia, quando o comando de isolamento enfrentou a realidade de pessoas sem moradia — o que se refletiu nas altas taxas de mortalidade na Amazônia.

Para ele, magistrados que se rotulam rigidamente como "ativistas" ou "da contenção" são maus juízes, pois o ato de julgar é indissociável da interpretação.

O homenageado ainda fez um duro alerta sobre o fortalecimento do "bloco da ilegalidade" no Brasil, apontando a conexão entre facções armadas e o mercado de capitais que lava dinheiro para o crime, além de denunciar a venda de decisões judiciais e desvios em emendas parlamentares.

Ao contextualizar a atuação do STF, Dino explicou que a Constituição de 1988 inverteu a lógica das Cartas de 1967 e 1969 ao posicionar os direitos fundamentais em seu pórtico inicial, estabelecendo um vetor axiológico para o poder.

Referências pessoais

Relembrando sua chegada ao Parlamento em 2007, o ministro pontuou que tentativas de "limpar" o texto constitucional se mostraram inviáveis devido à necessidade de proteger minorias e o pacto federativo, gerando uma Carta analítica que centraliza as demandas do país — exemplificada, de forma bem-humorada, pela disputa entre Flamengo e Sport pelo Campeonato Brasileiro, julgada três vezes pela Corte.

O pronunciamento também foi marcado por simbolismos e referências pessoais. Dino celebrou o recebimento de seu primeiro título honorífico fora do Nordeste e da Amazônia como um marco de brasilidade e unidade nacional, exaltando amizades de longa data, como os 58 anos de convivência com o amigo Sérgio e a antiga parceria como juiz auxiliar de Nelson Jobim.

Ao definir sua visão jurídica, fundamentou-a no Salmo 67 e nos ensinamentos dos profetas Amós e Miqueias, que preconizam a justiça social, a misericórdia e a humildade. Por fim, em tom descontraído, o ministro encerrou pedindo que, caso a plateia decida falar mal dele, aplique o artigo 59 do Código Penal para garantir uma "dosimetria justa" na crítica.

  • Google Discover Icon
postado em 22/05/2026 13:23
x