INVESTIGAÇÃO

Delação ou cadeia? A última chance de Daniel Vorcaro com a PGR

Ao ter as portas fechadas pela Polícia Federal para negociar delação premiada, o dono do Banco Master tem oportunidade única de firmar um tratado com a Procuradoria-Geral da República, a fim de evitar que amargue a pena por chefiar associação criminosa

Dois pontos pesam para Vorcaro aceitar colaborar com a Justiça: a crise pela qual passou Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, e a perspectiva de não sair tão cedo da cadeia -  (crédito: Reprodução)
Dois pontos pesam para Vorcaro aceitar colaborar com a Justiça: a crise pela qual passou Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, e a perspectiva de não sair tão cedo da cadeia - (crédito: Reprodução)

Depois de uma série de altos e baixos envolvendo a delação de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, investigadores da Polícia Federal estão dispostos a abrir mão de um acordo de colaboração com o banqueiro. No entanto, a Procuradoria-Geral da República (PGR) decidiu oferecer mais uma chance para que o executivo conte tudo que sabe. Os procuradores do caso aguardam novas informações repassadas pelo candidato a delator, assim como documentos e provas relacionadas ao megaesquema de corrupção e seus envolvidos.

Como mostrou a coluna Brasília-DF, publicada na edição de ontem do Correio, tudo leva a crer que Vorcaro vai contar agora tudo o que sabe. E dois pontos pesam para aceitar colaborar com a Justiça: a crise pela qual passou Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, e a perspectiva de não sair tão cedo da cadeia.

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POL-Banco Master
POL-Banco Master (foto: Valdo Virgo)

O criminalista Daniel Bialski, inclusive, foi sondado no fim de semana para assumir a defesa, com a perspectiva de que uma proposta bem mais ampla de delação venha a ser apresentada pelo banqueiro.

Agora, na avaliação de integrantes da PGR, com a rejeição do acordo de delação por parte da Polícia Federal, Vorcaro sabe que essa pode ser a última chance de firmar um acordo para reduzir a pena e evitar o bloqueio e sequestro de bens de maneira integral. Em março, ele foi transferido da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, em um sinal de abertura das autoridades para a negociação. Em seguida, houve grande expectativa em torno da eventual delação, inclusive, por parte da equipe de investigação.

A avaliação era de que Vorcaro daria detalhes sobre a participação de autoridades com foro, falaria sobre reuniões, pagamento de propina e tráfico de influência. No entanto, logo na primeira proposta apresentada pela defesa, o banqueiro decepcionou a equipe de investigação. O ex-dono do Master não disse tudo que sabia, inclusive, sobre conversas e pessoas com as quais ele manteve contato e a Polícia Federal já tinha o conteúdo das mensagens. Diante da evidente tentativa de proteger contatos próximos, de acordo com avaliação de integrantes da equipe policial, a corporação decidiu recusar a proposta do ex-banqueiro.

No entanto, a defesa obteve a oportunidade de apresentar anexos, com informações complementares e convencer o cliente a fornecer informações de relevância para a apuração. Os anexos, enviados há duas semanas, passaram por avaliação profunda na PF. Porém, mais uma vez o resultado não foi o esperado. Situações apontadas por ele não esclarecem nada além do que os investigadores já sabiam, com base nas provas, apreensão de celulares e quebras de sigilo. Diante disso, a equipe policial decidiu rejeitar por completo o acordo de delação e informar isso ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. A avaliação é de que as negociações só seriam reabertas, caso ele apresentasse provas incontestáveis, que mudassem os rumos da investigação e ajudassem a identificar todos os envolvidos.

Caminho do dinheiro

O esquema fraudulento do Master causou prejuízos aos correntistas, com a liquidação da instituição financeira; desfalcou fundo de pensão dos estados; deixou um rombo bilionário no Banco de Brasília (BRB), em razão da compra de títulos podres; forçou os caixas do Fundo Garantidor de Crédito, que terá que desembolsar R$ 51,8 bilhões para cobrir os prejuízos do banco de Daniel Vorcaro. A proposta de devolver R$ 60 bilhões cobre apenas parte do dano causado pelo esquema fraudulento.

No caso do BRB, o banco do DF tem até sexta-feira para publicar o balanço patrimonial, inclusive, apontando qual o prejuízo deixado pela compra dos títulos imprestáveis. Até agora, foram provisionados R$ 8,8 bilhões em razão da compra de títulos podres. Em relação aos fundos de pensão dos estados, o dano é de R$ 2,9 bilhões, e a liquidação do Will Bank deixou R$ 6,3 bilhões de prejuízo. Porém, mesmo não cobrindo todos os valores, o montante de R$ 60 bilhões de devolução já representa quase três vezes o levantado na Lava-Jato, tendo em vista todos os acordos de leniência das empreiteiras envolvidas e de colaboração dos condenados.

Uma dúvida que surge em relação ao caso é qual será o destino de todo esse dinheiro. A advogada constitucionalista Vera Chemim, especialista em STF, destaca que o montante deve ser destinado para diversas frentes, de acordo com a decisão da Justiça, mas que o foco será ressarcir os prejuízos causados. "A princípio, como se trata de um dinheiro supostamente desviado dos cofres públicos, esse dinheiro pode ir para a União. Tem crimes como corrupção, organização criminosa, de competência da Justiça Federal. Com certeza será destinado para ressarcir todas as instituições lesadas pelo Banco Master. É uma opção das autoridades competentes. Podem destinar parte do dinheiro para o FGC, ou diretamente para essas pessoas que acreditaram e perderam muito dinheiro", diz.

O advogado criminalista Wesley Batista explica que primeiro os valores ficam em uma ou mais contas administradas pelo Poder Judiciário, até que se defina onde de fato serão aplicados. "Em geral, esses recursos ficam sob controle judicial e podem ter destinos diferentes: devolver valores às vítimas identificadas, reparar prejuízos de instituições afetadas, recompor danos ao patrimônio público ou permanecer depositados em contas judiciais até uma decisão definitiva. É por isso que os valores são pagos apenas após a assinatura do acordo de colaboração e aval da Justiça. Justamente para que a apuração identifique todos os prejuízos causados e quem foram as pessoas e as instituições mais afetadas", destaca.

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postado em 25/05/2026 06:02
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