
Uma declaração do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) viralizou na rede social X. Em vídeo, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro falou sobre o uso de mecanismos financeiros dos Estados Unidos supostamente semelhantes ao Pix, que podem servir para “ir para uma mesa de negociação com bons argumentos” com os norte-americanos.
A declaração foi divulgada após o governo dos EUA propor um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros exportados para território americano. No documento do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), o Pix aparece entre os principais pontos de crítica. No texto, o governo norte-americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix ao atuar simultaneamente como regulador e proprietário da plataforma criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".
“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos”, disse Eduardo Bolsonaro.
Nas redes sociais, perfis usaram o trecho para criticar o deputado, que repercutiram também no campo governista. Após a repercussão da fala, Eduardo se defendeu, publicando novamente um vídeo nas redes sociais, dizendo que jamais falou em substituir o Pix pelo Zelle.
"Pix foi criado pelo meu pai, sem taxas e assim deve permanecer. Sou pró-PIX", escreveu na rede social X. Vale lembrar projeto que deu origem ao PIX foi iniciado ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2018.
Mas no meio disso tudo, surgiram questionamentos sobre a natureza do Zelle e comparações com o Pix. Em primeira instância, é preciso entender as diferenças e semelhanças entre os sistemas.
O que é o Zelle e como ele se compara ao pix?
Zelle é uma rede de pagamentos digitais criada em 2017 e operada por uma empresa privada, a Early Warning Services. A empresa que é copropriedade de sete dos maiores bancos americanos: Bank of America, Capital One, JPMorgan Chase, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo. Apesar de ter sido chamado de "Pix americano", o Zelle é um serviço limitado e é menos usado do que o sistema brasileiro.
Nos Estados Unidos, a operação é privada e concentrada em operações de grandes bancos. Segundo a empresa, o Zelle está disponível em mais de 2,4 mil aplicativos bancários no país, e depende de cada banco a decisão de usar ou não.
O Pix, por sua vez, foi criado em 2020 e é um sistema de pagamentos público, operado pelo Banco Central brasileiro. Sua participação é obrigatória para todas as instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central, com mais de 500 mil contas ativas.
O alcance e integração também são mais restritos nos EUA. O Zelle não cobre todo o território do país e não funciona fora do ecossistema bancário aderente, ao contrário do Pix, que se espalhou por quase todas as instituições e estabelecimentos no Brasil.
A velocidade pode variar. Assim como o Pix, o serviço norte-americano permite que um cliente bancário envie recursos rapidamente para outra pessoa usando apenas seu endereço de e-mail ou número de telefone, no Brasil, os clientes podem usar também o CPF ou uma “chave aleatória” para transferências. O Pix, porém, é instantâneo, já o Zelle costuma demorar um pouco mais para concluir a transação. Por problemas comuns no sistema, pode levar horas ou até dias para concluir a operação.
No Brasil, o Pix é gratuito para pessoas físicas, microempreendedores individuais (MEI) e empresários individuais, cobrando taxas baixas de pessoas jurídicas, que variam de 0,89% a 1,45% por transação, dependendo do banco, do volume de recebimento e do canal utilizado.
No Zelle, segundo a Early Warning Services, normalmente não há tarifas para consumidores enviarem e receberem dinheiro por meio do Zelle, mas essa não é uma regra. É possível que bancos cobrem taxas para transações, se fazendo necessário verificar com as instituições financeiras.
Em um artigo publicado em 2025, o economista americano Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel, elogiou o Pix e disse que “o Pix é uma versão pública do Zelle”. No texto, Krugman elogiou o sistema brasileiro pelo sucesso, rapidez e custo muito baixo, comparando-o diretamente com a tecnologia americana. Ele destacou que o sistema brasileiro é muito mais fácil de usar e tem uma adoção massiva, alcançando a marca de 93% dos adultos no Brasil.“
"E, embora o Zelle seja grande, o Pix se tornou simplesmente enorme. Parece estar rapidamente substituindo dinheiro em espécie e cartões", escreveu Krugman.
Defesa do Pix
Depois da menção do Pix pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o meio de pagamento e disse que a conclusão da investigação dos EUA parte de “informações incompletas” acerca dos objetivos e funcionamento do sistema financeiro.
"O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras", afirmou a entidade.
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