
O choque político e ideológico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no contexto das eleições brasileiras, estava escrito nas estrelas. Não é um episódio isolado, provocado apenas pelas recentes declarações de Trump sobre a política brasileira ou pela reação de Lula durante a reunião do G7. O conflito tem raízes mais profundas: a estreita ligação política e ideológica entre o bolsonarismo e a atual administração republicana, o novo posicionamento internacional do Brasil sob o governo Lula e a própria complexidade histórica das relações entre Brasília e Washington. A disputa pode reavivar uma polarização que marcou a vida política nacional nas décadas de 1950 e 1960: o confronto entre nacionalistas e "entreguistas", sob novas circunstâncias e narrativas.
As declarações de Trump na França, ao comentar a situação política brasileira e manifestar simpatia pelos Bolsonaro, não surgiram do nada. O presidente norte-americano tem afinidade política com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos desde seu primeiro mandato. Essa proximidade foi reforçada pela atuação internacional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula nas eleições, e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro junto aos círculos conservadores norte-americanos. Ele se autoexilou e se coloca como vítima de perseguição, o que aparentemente foi corroborado por sua condenação a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto por "coação" da Justiça. O elo mais importante dessa conexão é o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.
Figura central da política externa do governo Trump, Rubio compartilha com o bolsonarismo não apenas uma visão conservadora dos costumes, mas também uma visão geopolítica marcada pela oposição à China, pela crítica aos governos de esquerda latino-americanos e pela defesa de um alinhamento preferencial com Washington. A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado, a pressão tarifária sobre produtos brasileiros e as críticas dirigidas às instituições brasileiras refletem essa convergência entre setores do governo Trump e a oposição bolsonarista.
Ao reagir, Lula não fez apenas a defesa das instituições brasileiras. Reafirmou uma concepção tradicional da política externa brasileira baseada na soberania nacional e na não intervenção nos assuntos internos dos Estados. Ao dizer a Trump que não se meta nas eleições brasileiras, o presidente procurou estabelecer um limite diplomático que remete à tradição do Itamaraty desde o Barão do Rio Branco. O problema é que a relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi complexa. É tecida por interesses econômicos, afinidades culturais e disputas geopolíticas que remontam ao século XIX.
Cosmopolitismo
Maior país da América do Sul, sempre houve uma combinação contraditória de cooperação e tensão com Washington. Houve momentos de estreita convergência, como na Primeira República, no governo Dutra e nos primeiros anos do regime militar. Mas também períodos de atrito, como durante os governos de Getúlio Vargas e João Goulart. Agora, o contexto é mais complexo. Embora os Estados Unidos continuem sendo uma referência econômica, tecnológica e cultural para a sociedade brasileira, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil.
O governo Lula aposta numa política externa de múltiplos alinhamentos, fortalecendo relações com os países do Brics, ampliando laços com Pequim e defendendo uma ordem internacional multipolar. Essa estratégia colide frontalmente com a visão geopolítica de Trump e Rubio, para os quais a contenção da influência chinesa constitui prioridade absoluta. Nesse cenário, era inevitável que a política externa ganhasse densidade no embate eleitoral. O bolsonarismo busca apresentar Lula como representante de um projeto alinhado à China. O lulismo, por sua vez, acusa o bolsonarismo de ter complexo de vira-latas e subordinar os interesses nacionais aos interesses norte-americanos. O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em eleições anteriores.
Essa tensão não é nova. Remete-nos ao velho debate que dividiu o Brasil durante a industrialização do pós-guerra. De um lado, os nacionalistas, defensores do desenvolvimento autônomo, da proteção da indústria nacional, da soberania sobre recursos estratégicos e de uma política externa independente. De outro, os chamados "entreguistas", acusados de favorecer interesses estrangeiros em detrimento de um projeto nacional de desenvolvimento.
Celso Furtado e outros economistas defenderam a necessidade de um desenvolvimento apoiado na inovação tecnológica e na redução da dependência externa. Em sentido oposto, setores liberais e conservadores apostavam numa integração mais estreita ao capitalismo internacional liderado pelos Estados Unidos. A disputa marcou os governos Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart e foi um dos componentes da crise política que desembocou no golpe de Estado de 1964.
Entretanto, o mundo é outro. A economia brasileira foi globalizada. Numa inversão de papéis, quem se opõe à globalização e adota uma política protecionistas são os Estados Unidos. Nossa economia está integrada às cadeias globais, o agronegócio exporta principalmente para a China e a própria noção de soberania nacional ganhou novos contornos diante da revolução tecnológica e do nosso cosmopolitismo. No entanto, a essência do conflito permanece: qual é o lugar do Brasil no mundo? Um país capaz de formular seu próprio projeto de desenvolvimento ou uma nação dependente das decisões tomadas pelas grandes potências?
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