ELEIÇÕES 2026

Crise no PL expõe disputa sobre os rumos da direita no Ceará

Ao Correio, Eduardo Girão afirma que articulações envolvendo Ciro Gomes comprometeram a unidade conservadora no estado. Embate está na origem do conflito entre Michelle e Flávio Bolsonaro

O conflito entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que ganhou dimensão nacional nesta semana, tem suas raízes a mais de 2 mil quilômetros de Brasília. O epicentro da crise está no Ceará, onde divergências sobre alianças políticas, candidaturas majoritárias e o futuro da direita local acabaram provocando um dos maiores abalos internos já registrados no bolsonarismo.

Em entrevista exclusiva ao Correio, o senador Eduardo Girão (Novo-CE), apontado por Michelle como seu candidato ao governo cearense, afirmou que a divisão entre conservadores começou antes mesmo da divulgação dos vídeos da ex-primeira-dama e atribuiu o desgaste às articulações entre setores do PL e grupos ligados ao ex-governador Ciro Gomes (PSDB).

“Unidade da chamada direita, assim como dos conservadores, está comprometida desde quando iniciou este movimento de apoio ao Ciro Gomes, uma mente brilhante do Ceará, mas que é esquerda raiz”, afirmou.

A declaração ajuda a explicar por que uma disputa regional acabou se transformando em uma crise nacional dentro do principal partido da oposição. Nos vídeos publicados nesta semana, que já ultrapassaram 9 milhões de visualizações, Michelle relatou ter sido desrespeitada por Flávio Bolsonaro durante discussões sobre a condução política do PL no Ceará.

Ao justificar sua posição, ela declarou apoio explícito a Girão e à vereadora Priscila Costa, vice-presidente nacional do PL Mulher.

“Apoio Eduardo Girão e Priscila Costa em acordo com o meu galego”, afirmou a ex-primeira-dama, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O que está em jogo no Ceará

Por trás do embate familiar existe uma disputa política complexa. Michelle defende que a direita apresente uma candidatura própria ao governo estadual, tendo Girão como representante do campo conservador. Ela também apoia Priscila Costa para uma das vagas ao Senado.

Já aliados de Flávio Bolsonaro e do deputado federal André Fernandes (PL-CE) defendem uma estratégia mais ampla para enfrentar o grupo governista liderado pelo PT no estado.

Nesse desenho, ganharam espaço conversas com setores políticos ligados a Ciro Gomes, e também a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes, ao Senado. Foi justamente essa combinação de fatores que levou Michelle a reagir publicamente.

Nos bastidores, integrantes do PL avaliam que a ex-primeira-dama considera incompatível uma aliança eleitoral com Ciro Gomes ainda no primeiro turno, especialmente por causa do histórico de confrontos entre o ex-governador e Jair Bolsonaro.

Girão compartilha dessa avaliação, e afirma que as negociações representam um afastamento dos princípios defendidos pelo eleitorado conservador.

“Todo esse movimento fisiológico da velha política está indo na contramão de tudo o que vinha sendo construído há anos no Ceará”, disse.

Críticas a acordos políticos

Na entrevista, Girão elevou o tom das críticas às articulações em curso no estado e afirmou que parte da direita cearense está sendo conduzida para um projeto que não representa suas bandeiras históricas.

“Faço a leitura de que o PL nacional está sacrificando o estado do Ceará, com a anuência das lideranças locais do partido, meramente por cargos”, afirmou.

O senador também criticou a tentativa de consolidar a candidatura de Alcides Fernandes ao Senado. “Projetos familiares jamais podem transcender interesses da população”, declarou.

Ao longo da conversa, Girão argumentou que o cenário eleitoral cearense permanece aberto, e voltou a associar Ciro Gomes ao grupo político que governa o estado há décadas. “Não tenho nada contra a pessoa do Ciro e do Elmano (de Freitas), mas eles sempre fizeram parte do mesmo projeto para o Ceará. O estado clama por uma verdadeira mudança”, disse.

Segundo o parlamentar, a discussão vai além da formação de chapas e envolve uma disputa de identidade política dentro da oposição. “Pode ser considerado uma traição com os princípios e valores da direita o que está ocorrendo na Terra da Luz”, afirmou.

Reação após os vídeos

A repercussão dos vídeos de Michelle ampliou um debate que já vinha ocorrendo nos bastidores da política cearense. Lideranças conservadoras passaram a discutir, nos bastidores, temas que antes estavam restritos às negociações partidárias, como a composição das chapas majoritárias e a possibilidade de alianças entre grupos historicamente adversários.

Para Girão, a exposição do conflito pode provocar uma reflexão entre dirigentes e eleitores.

“Acredito que tudo o que está ocorrendo nos últimos dias está servindo para que algumas dessas lideranças façam suas reflexões, sem revanchismo, sem mágoa, e serve também para a população fazer melhor sua análise de todo o contexto”, afirmou.

Apesar de ter sido um dos principais beneficiados pelo apoio público de Michelle, o senador evitou comentar diretamente a disputa entre a ex-primeira-dama e Flávio Bolsonaro. Ao encerrar a entrevista, sinalizou que prefere manter o foco na discussão eleitoral do Ceará.

O Correio procurou o deputado federal André Fernandes e a vereadora Priscila Costa para comentar os desdobramentos da crise. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.

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