
A carta enviada por Flávio Bolsonaro a Donald Trump, pedindo o adiamento por 180 dias do tarifaço contra produtos brasileiros, eleitoralmente é um tiro no próprio pé para o pré-candidato do PL, além de muito tóxica para as negociações diplomáticas do Brasil com a Casa Branca. O senador atropelou a linha de negociação conduzida pelo Itamaraty e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), deslocou o contencioso do terreno técnico para o palanque eleitoral e mostrou falta de coesão política na defesa dos interesses brasileiros que estão em jogo.
O candidato de oposição entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de bandeja, a bandeira da soberania na campanha eleitoral. Repetiu o mesmo equívoco de seu irmão Eduardo, que vive nos Estados Unidos e comemorou o tarifaço como se fosse uma grande vitória da oposição. Deu errado. Lula estancou a queda e voltou a subir nas pesquisas eleitorais. Em vez de enfraquecer o governo, a carta de Flávio reforça a narrativa oficial de que a família Bolsonaro atua para internacionalizar a crise política brasileira e instrumentalizar interesses externos contra o próprio país.
Mas a crise tarifária com os EUA tem bases mais objetivas do que eleitorais. Nasce de um contencioso comercial complexo, decorrente da disputa comercial com a China e da reestruturação das cadeias globais de valor. Os Estados Unidos concluíram, em junho, a investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite a Washington retaliar parceiros quando considera que eles adotam práticas comerciais "desleais" ou "desarrazoadas".
No caso brasileiro, o USTR é um balaio que reúne comércio digital e o funcionamento do Pix; decisões judiciais envolvendo plataformas digitais; tarifas preferenciais no âmbito do Mercosul e de acordos com Índia e México; acesso ao mercado de etanol; propriedade intelectual; combate à corrupção; e desmatamento ilegal. O governo brasileiro reagiu com prudência. Um documento de 29 páginas, assinado pelo chanceler Mauro Vieira, tecnicamente, rebate ponto a ponto as acusações norte-americanas e sustenta que boa parte da agenda levantada por Washington não diz respeito a comércio, mas a opções regulatórias, institucionais e soberanas do Estado brasileiro.
Na verdade, a negociação conduzida pelo Itamaraty não se limita a uma briga tarifária, questiona o alcance da Seção 301 e o direito de os Estados Unidos transformarem divergências em matéria de política interna brasileira, como a regulação de plataformas, a estrutura do Pix, decisões do STF e o combate ao desmatamento, em razões para sanções econômicas. O Brasil, nas conversas com a Casa Branca, tenta isolar os litígios comerciais das disputas políticas e ideológicas. Ou seja, defende uma política de Estado. Sua atuação é institucional e preserva canais de diálogo, ao discutir cada item da pauta em bases técnicas e evitar a contaminação pela polarização eleitoral.
Implosão diplomática
Nesse sentido, a carta de Flávio implode o esforço diplomático brasileiro. O senador pede que as tarifas não sejam aplicadas agora, mas só depois das eleições presidenciais. Ou seja: em vez de afirmar que as tarifas são injustas, indevidas ou lesivas ao interesse bilateral, ele argumenta que a sua adoção imediata poderia beneficiar Lula politicamente. A essência do apelo é eleitoral, não comercial. "As tarifas propostas entregariam ao atual governo brasileiro precisamente a vitória política que ele vem arquitetando", escreveu para sustentar que a medida "recompensaria o atual governo brasileiro".
Ao pedir apenas o adiamento da punição, e não sua revogação, Flávio legitima a sanção em norte-americana. Esse é o "xis" do problema. Passa a mensagem de que o tarifaço pode ser aceitável — desde que aplicado num momento politicamente conveniente à oposição. Ou seja, tira o tapete da diplomacia brasileira, quando o Itamaraty tenta convencer Washington de que a escalada tarifária é inadequada, desproporcional e fundada em premissas equivocadas.
Flávio sinalizou aos norte-americanos que o problema não é o mérito da retaliação, mas o seu timing eleitoral. A carta, assim, enfraquece a tese brasileira de que a medida é injustificável e reforça a percepção de que o litígio comercial virou peça de uma disputa interna pelo poder. De certa forma, Lula percebeu a oportunidade e subiu o tom contra seu adversário.
"Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço, agora ou depois", escreveu.
Classificou a carta como "inaceitável" e criticou o "entreguismo" da família Bolsonaro, ao afirmar que o clã quer submeter o Brasil a interesses norte-americanos. Ao conectar a carta ao Pix e ao Mercosul, Lula transformou o episódio numa peça de campanha sobre soberania, desenvolvimento e defesa do interesse nacional. O presidente vinha "jogando parado": valoriza a liturgia do cargo, administra a máquina pública e evita antecipar o embate central de 2026.
A carta de Flávio ofereceu um atalho para Lula ocupar o terreno do nacionalismo econômico sem abdicar do cosmopolitismo e do multilateralismo. Pode ser que um objetivo subjacente do filho 01 de Jair Bolsonaro tenha sido mudar a agenda de sua campanha da crise com Michele Bolsonaro para a política externa. Porém, na prática, deu ao presidente a possibilidade de falar como defensor da pátria.
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