
Com prazo até o próximo dia 15 para tentar evitar o aumento de 25% das tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as negociações com autoridades norte-americanas e o diálogo com o setor produtivo. A estratégia é concentrar esforços nas tratativas diplomáticas para impedir a entrada em vigor da sobretaxa. Nessa terça-feira, em Washington, houve uma audiência pública, promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), para tratar da taxação e, apesar de o governo brasileiro não ter enviado nenhum representante, várias empresas multinacionais se manifestaram contra a elevação das tarifas.
Apesar do acirramento político, ante as eleições deste ano, integrantes do governo afirmam que o foco permanece nas negociações conduzidas com autoridades norte-americanas. A avaliação no Executivo é de que o diálogo técnico deve prevalecer até a conclusão do processo, considerado decisivo para evitar prejuízos às exportações brasileiras e aos setores produtivos.
Segundo o Planalto, as tratativas vêm sendo conduzidas por meio de reuniões, telefonemas e encontros, sempre com o objetivo de demonstrar que as medidas adotadas pela gestão Donald Trump não possuem fundamento.
O USTR recomendou, em relatório preliminar divulgado em 1º de junho, a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre produtos importados do Brasil, com exceção de grande parte dos itens agropecuários.
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Para a audiência dessa terça-feira, o governo não enviou nenhum representante por avaliar que o encontro é direcionado aos setores privado e civil.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que a orientação do presidente Lula é manter o Brasil na mesa de negociações até a conclusão do processo. "Que nada nos retira desse campo de multilateralismo e do campo democrático. Com muito respeito ao que outros reivindicam, mas sem jamais substanciar os interesses do Brasil. É isso que o presidente Lula nos pede todo dia", afirmou.
Prazo curto
Márcio Elias Rosa evitou comentar a participação, nessa terça-feira, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública promovida pelo USTR — o parlamentar disse ter defendido o Brasil na sessão.
"Eu prefiro falar apenas aquilo que, de fato, está ocorrendo, que é essa representação importante para a negociação", afirmou. "O prazo é curto, nós devemos focar naquilo que pode dar resultado positivo para o Brasil."
Após repercussão nas redes sociais, com opositores de Lula questionando por que nenhum representante do governo foi à audiência, o Palácio do Planalto reagiu. Por nota, declarou que repudia a participação do senador no evento. "Ao todo, 78 entidades e pessoas físicas se inscreveram para se manifestar sobre o tarifaço. Desse total (somando brasileiros e estadunidenses), 63 são contra o tarifaço e 15 são a favor. Das 44 intervenções de estadunidenses, 30 são contra o tarifaço e 14 a favor. Entre os 34 brasileiros inscritos, só Flávio Bolsonaro não se posicionou contrário às medidas contra o Brasil, optando por sugerir o seu adiamento, com claro objetivo eleitoreiro", enfatizou o comunicado.
O documento disse ainda que Flávio não rebateu as alegações do governo americano, além de não negar a participação da família, fazendo referencia ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que foi o primeiro membro do clã a pedir intervenções contra o Brasil.
"Em vez de rebater as alegações infundadas do governo norte-americano para taxar o Brasil, o senador optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores do nosso país", destacou. E acrescentou que Flávio "não negou que a campanha promovida por sua família e seus aliados esteve na origem do tarifaço contra o Brasil". "Tampouco aproveitou a audiência de hoje (nessa terça-feira) para reconhecer que errou ao contrariar os interesses do povo brasileiro", frisou a nota.
O Planalto afirmou, ainda, que o senador omitiu o envolvimento do clã Bolsonaro no caso envolvendo o Banco Master. "Também esqueceu de mencionar seus próprios vínculos com Daniel Vorcaro, para quem pediu mais de 130 milhões de reais para, segundo ele alega, produzir um filme sobre o seu pai", citando ainda o rombo bilionário do INSS como de responsabilidade do governo do PL. "Ao contrário do que o senador Flávio Bolsonaro e sua família defenderam ao longo do último ano, ele agora tenta mudar o discurso e passar a imagem de que defende o Pix. Mesmo assim, propõe subordinar o Pix aos interesses norte-americanos."
Por fim, o documento reafirmou que o governo brasileiro negocia ininterruptamente para reverter as tarifas aplicadas injustificadamente contra o Brasil. "Esta manhã, enquanto o senador Flávio Bolsonaro tentava politizar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos, funcionários do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; do Itamaraty; do Ministério da Justiça; e do Palácio do Planalto mantinham reunião com técnicos do USTR para desfazer o tarifaço contra o Brasil", finalizou.
"Tariflávio"
Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que Flávio pratica uma "diplomacia clandestina" voltada a interesses eleitorais. "O senador foi ao Congresso dos EUA pedir para adiarem as tarifas e o ataque ao Pix para depois das eleições. Não foi defender o Brasil, foi defender seus interesses eleitorais. É a versão Tariflavio à prestação!", escreveu o ministro no X.
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) também comentou. "Ele não foi defender o Brasil, mas apenas tentar apagar as próprias digitais. No passado, comemorou o tarifaço contra o país e agradeceu a Trump. Agora só pede adiamento: diz que 'agora' é o pior momento. Depois da eleição, pelo visto, o Brasil que se vire", publicou o parlamentar nas redes sociais.
"Defesa do Brasil"
Após a audiência, Flávio declarou ter feito uma "defesa do Brasil" diante das autoridades norte-americanas e aproveitou para direcionar críticas ao governo Lula. "Acabamos de fazer aqui a defesa do Brasil contra as tarifas e contra o Lula também. Fizemos aqui uma defesa técnica, mas também política", afirmou.
Durante sua participação, o senador pediu que os Estados Unidos desistam da adoção de sobretaxas sobre produtos brasileiros e mantenham o Pix fora do escopo das medidas em análise.
Ele solicitou aos membros da Comissão que "não imponham tarifas ao Brasil, preservem o sucesso do Pix e cancelem essa medida, para que possamos negociar".
O pré-candidato ainda sustentou que o cenário político brasileiro poderá mudar significativamente nos próximos três meses e, por isso, pediu cautela ao governo norte-americano antes da adoção de medidas de difícil reversão.
Apesar das tentativas de autoridades brasileiras e de empresários e entidades junto ao USTR, o novo tarifaço será inevitável. Essa é a percepção de especialistas, ouvidos pelo Correio, que participaram dos dois dias de audiência do órgão de comércio norte-americano em Washington.
"Mesmo com a participação de Flávio Bolsonaro, não mudou o clima técnico desta vez na audiência. Não há dúvidas de que haverá sobretaxa", enfatizou, ao Correio, o especialista em relações internacionais Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores Associados, que participou da audiência.
Saiba Mais
Rafaela Gonçalves
RepórterJornalista formada pela UCB, com especialização em Economia pela Saint Paul Escola de Negócios e MBA em Gestão Ambiental e Sustentabilidade pela Uniube. Atua na cobertura política em Brasília desde 2018.
Vanilson Oliveira
Formado em Comunicação Social - Jornalismo pela UFPB, pós-graduado em Comunicação Digital pelo Inst.de Posgrado de Madri e com MBA em Marketing pela Estácio de Sá.

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