relações exteriores

Tarifaço dos EUA: governo intensifica negociação para evitar sobretaxa

A uma semana de entrar em vigor a medida norte-americana contra produtos brasileiros, Planalto acelera discussões diplomáticas e endurece o discurso contra o senador Flávio Bolsonaro após audiência no USTR

O ministro Elias Rosa:
O ministro Elias Rosa: "Prefiro falar apenas aquilo que, de fato, está ocorrendo, que é essa representação importante para a negociação" - (crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Com prazo até o próximo dia 15 para tentar evitar o aumento de 25% das tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as negociações com autoridades norte-americanas e o diálogo com o setor produtivo. A estratégia é concentrar esforços nas tratativas diplomáticas para impedir a entrada em vigor da sobretaxa. Nessa terça-feira, em Washington, houve uma audiência pública, promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), para tratar da taxação e, apesar de o governo brasileiro não ter enviado nenhum representante, várias empresas multinacionais se manifestaram contra a elevação das tarifas.

Apesar do acirramento político, ante as eleições deste ano, integrantes do governo afirmam que o foco permanece nas negociações conduzidas com autoridades norte-americanas. A avaliação no Executivo é de que o diálogo técnico deve prevalecer até a conclusão do processo, considerado decisivo para evitar prejuízos às exportações brasileiras e aos setores produtivos.

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Segundo o Planalto, as tratativas vêm sendo conduzidas por meio de reuniões, telefonemas e encontros, sempre com o objetivo de demonstrar que as medidas adotadas pela gestão Donald Trump não possuem fundamento.

O USTR recomendou, em relatório preliminar divulgado em 1º de junho, a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre produtos importados do Brasil, com exceção de grande parte dos itens agropecuários.

Para a audiência dessa terça-feira, o governo não enviou nenhum representante por avaliar que o encontro é direcionado aos setores privado e civil.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que a orientação do presidente Lula é manter o Brasil na mesa de negociações até a conclusão do processo. "Que nada nos retira desse campo de multilateralismo e do campo democrático. Com muito respeito ao que outros reivindicam, mas sem jamais substanciar os interesses do Brasil. É isso que o presidente Lula nos pede todo dia", afirmou.

Prazo curto

Márcio Elias Rosa evitou comentar a participação, nessa terça-feira, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública promovida pelo USTR — o parlamentar disse ter defendido o Brasil na sessão.

"Eu prefiro falar apenas aquilo que, de fato, está ocorrendo, que é essa representação importante para a negociação", afirmou. "O prazo é curto, nós devemos focar naquilo que pode dar resultado positivo para o Brasil."

Após repercussão nas redes sociais, com opositores de Lula questionando por que nenhum representante do governo foi à audiência, o Palácio do Planalto reagiu. Por nota, declarou que repudia a participação do senador no evento. "Ao todo, 78 entidades e pessoas físicas se inscreveram para se manifestar sobre o tarifaço. Desse total (somando brasileiros e estadunidenses), 63 são contra o tarifaço e 15 são a favor. Das 44 intervenções de estadunidenses, 30 são contra o tarifaço e 14 a favor. Entre os 34 brasileiros inscritos, só Flávio Bolsonaro não se posicionou contrário às medidas contra o Brasil, optando por sugerir o seu adiamento, com claro objetivo eleitoreiro", enfatizou o comunicado.

O documento disse ainda que Flávio não rebateu as alegações do governo americano, além de não negar a participação da família, fazendo referencia ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que foi o primeiro membro do clã a pedir intervenções contra o Brasil.

"Em vez de rebater as alegações infundadas do governo norte-americano para taxar o Brasil, o senador optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores do nosso país", destacou. E acrescentou que Flávio "não negou que a campanha promovida por sua família e seus aliados esteve na origem do tarifaço contra o Brasil". "Tampouco aproveitou a audiência de hoje (nessa terça-feira) para reconhecer que errou ao contrariar os interesses do povo brasileiro", frisou a nota.

O Planalto afirmou, ainda, que o senador omitiu o envolvimento do clã Bolsonaro no caso envolvendo o Banco Master. "Também esqueceu de mencionar seus próprios vínculos com Daniel Vorcaro, para quem pediu mais de 130 milhões de reais para, segundo ele alega, produzir um filme sobre o seu pai", citando ainda o rombo bilionário do INSS como de responsabilidade do governo do PL. "Ao contrário do que o senador Flávio Bolsonaro e sua família defenderam ao longo do último ano, ele agora tenta mudar o discurso e passar a imagem de que defende o Pix. Mesmo assim, propõe subordinar o Pix aos interesses norte-americanos."

Por fim, o documento reafirmou que o governo brasileiro negocia ininterruptamente para reverter as tarifas aplicadas injustificadamente contra o Brasil. "Esta manhã, enquanto o senador Flávio Bolsonaro tentava politizar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos, funcionários do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; do Itamaraty; do Ministério da Justiça; e do Palácio do Planalto mantinham reunião com técnicos do USTR para desfazer o tarifaço contra o Brasil", finalizou.

"Tariflávio"

Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que Flávio pratica uma "diplomacia clandestina" voltada a interesses eleitorais. "O senador foi ao Congresso dos EUA pedir para adiarem as tarifas e o ataque ao Pix para depois das eleições. Não foi defender o Brasil, foi defender seus interesses eleitorais. É a versão Tariflavio à prestação!", escreveu o ministro no X.

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) também comentou. "Ele não foi defender o Brasil, mas apenas tentar apagar as próprias digitais. No passado, comemorou o tarifaço contra o país e agradeceu a Trump. Agora só pede adiamento: diz que 'agora' é o pior momento. Depois da eleição, pelo visto, o Brasil que se vire", publicou o parlamentar nas redes sociais.

"Defesa do Brasil"

Após a audiência, Flávio declarou ter feito uma "defesa do Brasil" diante das autoridades norte-americanas e aproveitou para direcionar críticas ao governo Lula. "Acabamos de fazer aqui a defesa do Brasil contra as tarifas e contra o Lula também. Fizemos aqui uma defesa técnica, mas também política", afirmou.

Durante sua participação, o senador pediu que os Estados Unidos desistam da adoção de sobretaxas sobre produtos brasileiros e mantenham o Pix fora do escopo das medidas em análise.

Ele solicitou aos membros da Comissão que "não imponham tarifas ao Brasil, preservem o sucesso do Pix e cancelem essa medida, para que possamos negociar".

O pré-candidato ainda sustentou que o cenário político brasileiro poderá mudar significativamente nos próximos três meses e, por isso, pediu cautela ao governo norte-americano antes da adoção de medidas de difícil reversão.

Apesar das tentativas de autoridades brasileiras e de empresários e entidades junto ao USTR, o novo tarifaço será inevitável. Essa é a percepção de especialistas, ouvidos pelo Correio, que participaram dos dois dias de audiência do órgão de comércio norte-americano em Washington.

"Mesmo com a participação de Flávio Bolsonaro, não mudou o clima técnico desta vez na audiência. Não há dúvidas de que haverá sobretaxa", enfatizou, ao Correio, o especialista em relações internacionais Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores Associados, que participou da audiência.

 

 

 

 

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AH
postado em 08/07/2026 03:55
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