Ex-presidente

Temer revê bets, chama 8/1 de golpe e fala sobre Vorcaro: 'Muito doce'

Em entrevista ao UOL, o ex-presidente Michel Temer revisou legalização de bets, detalhou bastidores do impeachment de Dilma e repudiou atos golpistas

O ex-presidente da República Michel Temer (MDB) voltou ao debate político ao apresentar um novo conjunto de propostas para o país, defender mudanças no sistema de governo e revisitar episódios que marcaram sua trajetória depois de assumir o cargo mais importante do país.

Em entrevista ao programa "Frente a Frente" do UOL, exibido na segunda-feira (6/7), o ex-chefe de Estado comentou os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff, a relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a crise institucional durante o governo Jair Bolsonaro e fez uma autocrítica sobre a legalização das apostas esportivas. Também respondeu a questionamentos sobre a consultoria prestada ao Banco Master e comentou a situação do empresário Daniel Vorcaro.

Sem demonstrar intenção de voltar à disputa eleitoral, Temer afirmou que pretende influenciar o debate público por meio do documento "Estrada para o Futuro", elaborado com a participação de especialistas de diferentes áreas. O material, com cerca de 100 páginas, foi encaminhado a pré-candidatos à Presidência como uma contribuição para a elaboração de programas de governo.

Na avaliação do ex-presidente, o país precisa abandonar campanhas centradas na imagem dos candidatos e voltar a discutir propostas concretas para os próximos anos. 

"O objetivo central [é] que você não pode ter uma eleição de nome contra nome mas de projeto contra projeto e o eleitor tem direito de saber o que o candidato a presidente vai fazer", declarou.

Temer contou que costuma ser incentivado a disputar novamente a Presidência, mas descartou essa possibilidade. Segundo ele, a idade, os 33 anos de vida pública e a trajetória construída até aqui pesaram na decisão de permancer fora da corrida eleitoral. 

"Se eu sair candidato vou levar tanta chicotada que capaz de perder o prestígio. Prefiro não sair, nem me aventurar nisso."

Reforma política

Ao longo da entrevista, Temer afirmou que o ambiente político brasileiro deixou de ser marcado pela divergência de ideias e passou a ser dominado pela tentativa de eliminar adversários. Para ele, o papel da oposição em uma democracia é contestar e fiscalizar o governo, contribuindo para o aperfeiçoamento das políticas públicas, e não inviabilizar quem venceu as eleições.

Em sua avaliação, a radicalização extrapolou a esfera política e passou a atingir famílias, instituições e diferentes setores da sociedade.

"Aqui no Brasil, se você perde a eleição, o seu objetivo político é destruir quem ganhou a eleição. Isso não pode acontecer mais no país."

Como resposta ao atual cenário institucional, Temer voltou a defender uma reforma política baseada na adoção do semipresidencialismo. Segundo ele, o fortalecimento do Congresso Nacional alterou a dinâmica entre os Poderes, fazendo com que o Legislativo acumulasse influência sobre o Orçamento e sobre decisões do Executivo sem assumir responsabilidades equivalentes pela condução do governo.

Para o ex-presidente, o novo modelo reduziria as crises políticas e evitaria os desgastes por sucessivos pedidos de impeachment. 

"O Congresso está assumindo tantas funções e com tantas funções assumidas não tem responsabilidade governativa... o ideal seria a meu modo de ver a grande reforma política... adotar um sistema semipresidencialista."

Para Temer, o sistema permitiria a troca de governos sempre que a base parlamentar deixasse de sustentar o gabinete, preservando a estabilidade institucional e evitando rupturas como as vividas pelo país nas últimas décadas.

Lula, Dilma e os bastidores do impeachment

Questionado sobre o período que antecedeu o impeachment de Dilma Rousseff, Temer relembrou uma conversa que teve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cerca de dez dias antes da votação do processo. Segundo ele, o encontro ocorreu na Base Aérea de Brasília, quando informou ao então ex-presidente petista que o MDB já não permaneceria unido na sustentação do governo.

"Uns 10 dias antes ele esteve comigo... eu disse: 'Presidente eu não tenho condições de segurar o MDB'.

Apesar das críticas que ainda recebe de Lula por ter assumido a Presidência após o impeachment, Temer afirmou não interpretar as declarações como um ataque de natureza pessoal. Segundo ele, o discurso busca atender à militância petista que nunca aceitou sua chegada ao Planalto. 

"Eu entendo o presidente Lula... ele diz essas coisas porque ele quer agradar uma parte do PT... os petistas que naturalmente se insurgem contra a minha assunção à presidência."

O ex-presidente ressaltou que, em outras ocasiões, Lula reconheceu publicamente sua atuação institucional, chegando a classificá-lo como o melhor presidente da Câmara durante seus mandatos na Casa (1997-1999; 1999-2001; 2009-2010). 

Já sobre Dilma Rousseff, Temer afirmou que nunca deixou de respeitar a ex-presidente, embora os dois tenham rompido contato após o processo de impeachment. "Respeito a Dilma, mas ela nunca mais falou comigo."

Mediação entre Bolsonaro e o STF 

Temer também relembrou a crise institucional desencadeada após os atos de 7 de setembro de 2021, quando o então presidente Jair Bolsonaro elevou o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes. Conforme o ex-presidente, Bolsonaro telefonou no dia seguinte às manifestações pedindo ajuda para restabelecer contato com a Corte. 

Antes de aceitar atuar como interlocutor, Temer afirmou ter feito uma avaliação dura sobre os discursos proferidos na Avenida Paulista. 

"Foi um desastre. Eu não diria aquilo que você disse para 200 mil pessoas para amigo íntimo."

A partir desse contato, o ex-presidente disse ter elaborado os principais pontos da carta divulgada por Bolsonaro em tom de conciliação com o Supremo. Segundo Temer, o texto foi aceito pelo então presidente e contribuiu para reduzir a tensão institucional vivida naquele momento. 

"Eu tenho uns tópicos aqui... ele aceitou... aquilo pacificou o país naquele momento porque senão iria haver um grande conflito."

Ao analisar os ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, Temer afirmou que os atos tiveram como alvo o funcionamento das instituições democráticas e classificou o episódio como uma tentativa de golpe de Estado.

"Invasão não foi aos prédios, foi aos prédios que abrigavam os Poderes, portanto tentativa de golpe houve."

Na mesma avaliação, elogiou a atuação do STF e de Alexandre de Moraes durante a condução da crise, afirmando que a resposta das instituições foi determinante para preservar a democracia.

Consultoria ao Banco Master 

Outro assunto abordado na entrevista foi a consultoria prestada ao Banco Master antes de a instituição enfrenter sua crise mais grave. 

Temer afirmou que foi contratado meses antes de o caso ganhar repercussão pública para tentar construir uma solução negociada entre o banco e o sistema financeiro, evitando uma intervenção formal das autoridades.

"Fui contratado... para tentar fazer uma composição... uma espécie de liquidação privada do Banco Master e não uma liquidação pública como se deu pelo Banco Central."

Segundo ele, a negociação não avançou e, diante da falta de consenso, decidiu deixar o trabalho. 

Ao comentar os valores recebidos, negou que sua remuneração tivesse qualquer relação com os R$ 129 milhões atribuídos ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório da família de Alexandre de Moraes.

"Eu não recebi 129 milhões... recebi uma importância razoável por aquilo que eu achei que valia o meu trabalho... eu acho que fui bem pago."

Temer acrescentou que o escritório da família do ministro foi contratado antes de as investigações envolvendo a instituição financeira se tornarem públicas e afirmou que cada banca de advocacia estabelece livremente seus honorários.

Daniel Vorcaro 

As investigações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro também foram tema da conversa. Embora tenha destacado que conheceu o ex-banqueiro durante sua atuação profissional, Temer procurou separar a impressão pessoal das acusações que recaem sobre ele.

"Vorcaro é uma figura muito doce pessoalmente."

Na sequência, ponderou que a cordialidade no trato não afasta a necessidade de responsabilização caso irregularidades sejam comprovadas.

"Agora, evidentemente, uma coisa é ser figura suave e outra coisa são as atitudes. Você tem que fazer essa distinção. Eu acho que ele exagerou, evidentemente. Tanto exagerou que está acontecendo o que acontece."

O ex-presidente ainda criticou o que considera uma cultura de condenação antecipada no país. Na avaliação dele, investigações e denúncias costumam ser tratadas como sentenças definitivas antes da conclusão do devido processo legal, comprometendo o princípio da presunção de inocência.

Autocrítica sobre as bets

Temer também revisitou uma das decisões tomadas no fim de seu mandato: a sanção da norma que abriu caminho para a regulamentação das apostas esportivas no Brasil.

Questionado se repetiria a medida diante dos impactos observados nos últimos anos, reconheceu que hoje faria uma avaliação diferente.

"Não aplaudo aquele meu ato... de vez em quando eu recuava de certos decretos... eu não tenho compromisso com o erro."

Embora tenha feito a autocrítica, Temer explicou que a decisão foi tomada em um contexto de forte pressão para a legalização dos cassinos físicos. Segundo ele, permitir as apostas esportivas pareceu, naquele momento, a alternativa menos danosa.

"Havia uma tentativa muito grande de instituir cassinos no país... a fórmula intermediária que me pareceu adequada naquele momento foi autorizar... um mal menor."

Para ele, a expansão das plataformas de apostas exige fiscalização mais rigorosa e regras capazes de reduzir os impactos sociais provocados pelo setor. Entre as sugestões apresentadas está a proibição do uso de recursos de programas sociais em apostas.

"Quem recebe o Bolsa Família não ganhou por conta própria aquele dinheiro... acho que o governo nesse sentido pode interferir sim... seria educativo uma proibição."

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