
Em meio ao escândalo que envolve o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP) afirmou que o Congresso não tomará nenhuma medida a respeito porque é "covarde". Ele defendeu a manifestação popular e disse que a população é "passiva" sobre os escândalos de corrupção no país.
Na terça-feira, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que revelou mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro dias antes da prisão do banqueiro.
Kataguiri também defendeu a prisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, também citado no inquérito. As declarações do parlamentar foram dadas aos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Denise Rothenburg, no programa CB.Poder, uma parceria entre o Correio e a TV Brasília. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O que o Congresso fará, na sua opinião, em relação ao caso envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro?
Infelizmente, o Congresso não fará absolutamente nada, porque é um Congresso covarde. Trata-se de um Parlamento que, além de covarde, em grande parte está envolvido no escândalo do Banco Master. Vimos as mensagens envolvendo um dos principais líderes do Senado, o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, um dos maiores partidos do país. Vimos também a reação de ontem (terça-feira) do presidente do Congresso, o senador Davi Alcolumbre (União-AP), que é o único com poder para iniciar um processo de impeachment. Ele declarou que não achava nada, deixando muito claro que não iniciará esse processo.
Qual é a sua avaliação sobre o caso?
Eu afirmei abertamente que Alexandre de Moraes é um criminoso. Eu também considero o procurador-geral da República, Paulo Gonet, um criminoso, pois ele está envolvido no escândalo do Banco Master e, ao mesmo tempo, pede a nulidade do processo conduzido pelo ministro André Mendonça. Acredito que a única saída seja o ministro André Mendonça levar esse caso ao plenário na próxima semana. Com o ministro Edson Fachin pondo a matéria em votação, Mendonça precisará obter o apoio de outros ministros — como Luiz Fux, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e o próprio Fachin — para construir uma maioria e derrotar as pretensões de Alexandre de Moraes.
O que pensa sobre a crise que atinge o STF?
É uma situação desesperadora e inédita. Eu sempre mantive um tom muito duro em relação ao Supremo. O Movimento Brasil Livre foi o pioneiro na Nova República ao pedir o impeachment de um ministro da Suprema Corte. Há um consenso de que existe um abuso evidente. Não se trata mais de discordar de uma decisão judicial ou de debater uma divergência ideológica, discussões que fazem parte do jogo democrático. Estamos falando de envolvimento com roubo, o que deve ser consensual, pois não é uma questão ideológica.
Acredita que o Conselho Nacional do Ministério Público é um caminho para responsabilizar o procurador-geral?
O único caminho seria o CNMP indicar um subprocurador-geral da República para apresentar uma denúncia contra o procurador-geral da República. Paulo Gonet ocupa o cargo de PGR hoje, mas nenhum mandato é eterno. Tenho esperança, porque a situação é escandalosa. Paulo Gonet não está apenas envolvido nos esquemas; ele participa de festas, revelando uma promiscuidade tanto figurativa quanto literal. Isso me lembra o filme De olhos bem fechados (Eyes Wide Shut), que retrata uma elite promíscua e extremamente corrupta.
Como o país sairá desse imbróglio? Qual é a sua expectativa?
Na minha opinião, o país deveria parar. Ninguém deveria trabalhar hoje; todos deveriam estar nas ruas. As portas do Supremo deveriam estar bloqueadas, impedindo a locomoção física de qualquer pessoa no Congresso ou na Suprema Corte. Tudo deveria estar paralisado até que Alexandre de Moraes e Paulo Gonet estivessem presos. Essa seria a resposta de uma nação civilizada. Infelizmente, vivemos em um país onde a população está anestesiada e sem esperança. No entanto, enquanto o povo permanecer passivo, a classe política, o Supremo e os banqueiros corruptos continuarão avançando e abusando do poder.
Houve o 8 de Janeiro, que alguns classificam como vandalismo e outros como tentativa de golpe, mas que representou uma mobilização. O senhor vê aquilo também como reflexo de um povo passivo, ou foi uma exceção?
Trata-se de algo completamente diferente. O que proponho é parar o país de forma pacífica. Não me refiro a agredir policiais ou praticar vandalismo, mas, sim, a paralisar a nação pacificamente em protesto contra escândalos de corrupção. Não é cometer atos de vandalismo por descontentamento com o resultado de uma eleição.
Sem pressão das ruas, então, nada mudará em relação ao Supremo?
Não tenho a menor dúvida disso. O Brasil é um país patrimonialista, marcado pelo acordo e pela acomodação; não é uma nação afeita à revolta, à guerra ou a lutar ativamente pelos próprios direitos. Historicamente, convivemos com a passividade e com a aceitação de sermos dominados por uma elite que, além de corrupta, é incompetente, incapaz e inepta. Enfrentamos problemas graves de miséria e pobreza. Nos últimos 40 anos, o Brasil ficou para trás. Quando surge uma crise, diante da ausência de revolta popular, costumam costurar grandes acordos. Isso ocorre em parte pela passividade e em parte pela falta de educação da população. A elite corrupta acredita que o poder lhe pertence: o deputado, o presidente e o ministro do Supremo agem como se fossem donos do poder. Contudo, o principal problema é que o próprio povo acredita que o poder pertence ao governante, e não a si mesmo.
Muitas vezes, quem vai às ruas sente que está enxugando gelo. Como o cidadão deve agir, considerando que já se mobilizou anteriormente, e o cenário atual é o mesmo?
O problema não é a mobilização em si, mas, sim, o fato de a população desistir no meio do caminho. É necessário manter a mobilização até o fim. Além disso, não é preciso ir às ruas todos os anos. Após a destituição de Dilma Rousseff, por exemplo, o dever da população era votar de forma consciente nas eleições seguintes. No entanto, em 2018, elegeu-se um Congresso com cerca de 300 deputados do Centrão. De nada adianta protestar nas ruas e, posteriormente, vender o voto — seja diretamente por uma cesta básica, um saco de cimento ou assistência odontológica, seja de forma indireta por promessas locais, como a inauguração de uma creche ou de uma quadra esportiva em seu bairro.
Como o eleitor pode manifestar repúdio a esses acontecimentos por meio do voto?
Eu sou suspeito para falar sobre isso, mas tenho muito orgulho de integrar um partido que possui total independência para tratar do escândalo do Banco Master, que é o foco principal hoje. O PT tem o senador Jaques Wagner enfrentando mandados de busca e apreensão por sua relação com a instituição. Sabemos que Augusto Lima possui relações estreitas com Jaques Wagner, que editou um decreto concedendo o monopólio de crédito consignado que beneficiou diretamente o Banco Máxima, que posteriormente se transformou em Banco Master. É preciso ser muito ingênuo para acreditar que o presidente da República receberia um banqueiro envolvido em denúncias, convocando o futuro presidente do Banco Central, o principal ministro de seu governo e o ministro de Minas e Energia — cujas áreas de atuação coincidem com os negócios do banqueiro —, sem que soubesse de nada. Sinceramente, todos sabem que o presidente tinha plena consciência de suas ações. Também tem o senador Flávio Bolsonaro.
Como avalia o envolvimento dele com o Master?
Ele justifica seus contatos alegando que estava captando recursos para um documentário sobre seu pai. O cachê do ator Jim Caviezel não atinge R$ 100 milhões, e uma produção desse tipo não demandaria tal orçamento. Trata-se de uma sucessão de contradições: inicialmente, ele afirmou não conhecer Daniel Vorcaro; no mesmo dia, ao ser desmentido, alegou ter conversado com ele apenas antes das investigações e da prisão. Posteriormente, apresentou uma nova versão afirmando que o encontro presencial serviu apenas para romper relações. É uma desculpa implausível. Ser íntimo o suficiente para solicitar dezenas de milhões de reais por aplicativo de mensagens e, depois, alegar necessidade de um encontro presencial para encerrar o contato. Além disso, os valores envolvidos são desproporcionais para uma produção audiovisual. Eu não conheço Daniel Vorcaro, e o deputado federal Renan Santos também não. Não há um centavo dele em nossa campanha. Por isso, temos total independência para denunciar que Daniel Vorcaro é corrupto, e expor as ligações de Flávio Bolsonaro e do PT com ele. Antes mesmo do período eleitoral, fomos o único grupo a realizar manifestações contra o escândalo do Banco Master e a pedir a prisão do ministro Alexandre de Moraes e do ministro Dias Toffoli. Sofremos as consequências dessa atuação quando o ministro Toffoli tomou a decisão de suspender, de forma arbitrária, a campanha de Renan, o que nos privou de duas sabatinas em TV aberta.
O que se pode esperar de votações no Congresso nesta semana de esforço concentrado em meio a toda essa turbulência?
Espero aprovar hoje (nessa quarta-feira) a suspensão da chamada taxa das blusinhas. Infelizmente, o governo federal adota um discurso ambíguo, pois ele próprio instituiu essa tributação. Há manifestações públicas anteriores de integrantes do governo defendendo a medida como proteção à indústria nacional. Agora, apresentam a medida provisória como se fosse a extinção da taxa, o que não condiz com a realidade. A proposta não extingue o imposto; apenas autoriza o ministro da Fazenda a zerar a alíquota de forma discricionária. Na verdade, a tributação foi zerada exclusivamente para medicamentos importados sem similar nacional. Para os demais produtos, o imposto permanece sob o controle discricionário do Ministério da Fazenda. O único projeto que previa a extinção definitiva dessa tributação era de minha autoria, mas não obteve apoio governamental. Ainda assim, votarei favoravelmente à medida provisória em pauta por representar um avanço em relação à regra vigente, embora não encerre definitivamente a taxa.
*Estagiária sob a supervisão de Cida Barbosa
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