
O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, determinado nesta terça-feira (8/9) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), é o resultado mais recente de uma crise que se arrasta há meses entre o magistrado e a chefia da corporação.
A disputa ganhou novos capítulos com as investigações do caso Banco Master, mas começou antes de as apurações colocarem no centro a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Ao longo dos últimos meses, Mendonça passou a impor restrições à circulação de informações dentro da PF, cobrou resultados de investigações e demonstrou desconfiança sobre a atuação da corporação.
Agora, o próprio diretor-geral da PF foi afastado. A Segunda Turma do STF formou maioria para manter a decisão, mas o julgamento acabou interrompido após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.
Para entender como a crise chegou até aqui, é preciso voltar aos primeiros atritos entre Mendonça e a Polícia Federal.
Abril: Mendonça restringe acesso a investigações
Um dos primeiros episódios ocorreu em abril, quando Mendonça determinou que delegados da PF que não participassem diretamente de determinadas investigações deixassem de ter acesso aos respectivos inquéritos. A restrição atingiu, inclusive, integrantes da cúpula da corporação e superiores hierárquicos dos investigadores.
A justificativa do ministro era evitar interferências e vazamentos em apurações consideradas sensíveis. Mendonça afirmou que a medida estava relacionada à experiência que acumulou quando comandou o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União (AGU), durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
O episódio expôs uma preocupação que passaria a aparecer em outros momentos da relação entre o ministro e a PF: quem deveria ter acesso às informações produzidas durante grandes investigações.
Junho: cobrança sobre investigação do INSS
A tensão voltou a aparecer na condução da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em junho, Mendonça determinou que a PF concluísse, em 60 dias, a análise de materiais apreendidos durante a operação, inclusive itens recolhidos de presos e de pessoas submetidas a medidas restritivas.
A corporação pediu mais prazo. Segundo a PF, apenas 11 agentes estavam envolvidos naquela etapa, enquanto seriam necessários mais de 40 servidores. Entre os trabalhos estava a análise relacionada à quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A medida havia sido autorizada por Mendonça em fevereiro.
O episódio reforçou as divergências sobre o ritmo e a condução das investigações sob responsabilidade da PF.
A crise chega ao caso Banco Master
Foi, porém, com o avanço do caso Banco Master que o conflito ganhou uma dimensão ainda maior. Mendonça é o relator das investigações no Supremo. A apuração passou a envolver também informações sobre contatos entre Daniel Vorcaro, banqueiro preso no caso, e Alexandre de Moraes.
No último dia 1º, Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF que registrava contatos entre Vorcaro e uma pessoa apontada como sendo Moraes.
As mensagens indicavam que o banqueiro teria perguntado ao ministro se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025. O documento também apontava que Moraes teria feito alterações em um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes. Os dois teriam se encontrado ao menos seis vezes desde 2024. A divulgação do material elevou a tensão dentro do Supremo.
Gonet reage e Moraes parte para o contra-ataque
Horas depois de Mendonça tornar o relatório público, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do documento. Segundo Gonet, Mendonça teria se valido da Polícia Federal para "impor a investigação" contra Moraes e exercido funções que não lhe caberiam.
A reação seguinte veio do próprio Moraes. O ministro pediu que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade pela condução das apurações envolvendo o Banco Master e o INSS. O pedido foi encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, na quinta-feira (3/9).
Para fundamentar a solicitação, Moraes utilizou um relatório interno de inteligência da PF que fazia referências à atuação de Mendonça. O documento passou a ser um dos pontos centrais da crise. É justamente a produção desse relatório que aparece como justificativa para a decisão tomada agora por Mendonça contra a cúpula da Polícia Federal.
O relatório que colocou a PF no centro da disputa
Segundo as informações reunidas no caso, o relatório utilizado por Moraes levantava suspeitas sobre a atuação de Mendonça e apontava, entre outros pontos, um suposto direcionamento de investigações contra Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado.
O problema, para Mendonça, não estava apenas no conteúdo do documento, mas também na forma como ele teria sido produzido e utilizado. O ministro passou a sustentar que a estrutura de inteligência da PF havia ultrapassado seus limites ao produzir informações sobre sua atuação como integrante do Supremo. É nesse ponto que a disputa entre Mendonça e Moraes se mistura diretamente com o conflito entre o ministro e a direção da Polícia Federal.
Mendonça também é criticado dentro do STF
Enquanto questionava a atuação da PF, Mendonça passou a enfrentar críticas de colegas do próprio Supremo pela forma como conduzia o caso Banco Master. Gilmar Mendes acusou o relator de ter interferido indevidamente em negociações envolvendo uma possível delação de Daniel Vorcaro. Os acordos, segundo as informações apresentadas, haviam sido rejeitados pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
"O direcionamento de uma delação premiada para atingir alvos políticos predeterminados não somente macula a voluntariedade do pretenso acordo como descredibiliza por completo qualquer produto que resulte da suposta colaboração", afirmou Gilmar.
O ministro comparou a condução do caso a questionamentos feitos durante a Operação Lava Jato sobre a atuação de autoridades responsáveis por investigações.
Vorcaro é ouvido sem a PF
Em outro episódio da escalada da crise, Mendonça confirmou que Daniel Vorcaro havia prestado depoimento com a presença do Ministério Público, mas sem participação da Polícia Federal. A assessoria do ministro afirmou que a oitiva ocorreu a pedido da defesa do banqueiro, que alegou estar sofrendo "graves intimidações" e pediu para ser ouvido com urgência.
Mendonça também afirmou que o depoimento não tratou de assuntos relacionados a Alexandre de Moraes. "O depoimento foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência. Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar", afirmou o ministro em nota.
O afastamento
É nesse contexto que Mendonça determinou, nesta terça-feira (8/9), o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal. A justificativa apresentada pelo ministro está diretamente relacionada ao relatório interno produzido pela corporação e posteriormente utilizado por Moraes para pedir a investigação de Mendonça.
A decisão levou a disputa para uma nova etapa: pela primeira vez, a crise deixou de envolver apenas acusações, relatórios e divergências sobre investigações e atingiu diretamente o comando da Polícia Federal.
A Segunda Turma do STF formou maioria para manter o afastamento, com os votos de Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Gilmar Mendes pediu vista e interrompeu o julgamento. Enquanto a análise não é concluída, a decisão que afastou Rodrigues permanece em vigor.

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