eleições 2026

CNBB faz apelo para voto consciente em 2026

Membros da Conferência dos Bispos do Brasil recomendam exame criterioso dos candidatos e um voto qualificado, a fim de proteger a democracia. Criticam, ainda, o desinteresse dos presidenciáveis em participar dos debates

Cardeal Leonardo Steiner conversou com a BBC News Brasil -  (crédito: BBC)
Cardeal Leonardo Steiner conversou com a BBC News Brasil - (crédito: BBC)
Em vídeo publicado nas redes sociais, bispos que evangelizam a Região Norte do Brasil fizeram um apelo para o voto consciente nas eleições deste ano. A menos de duas semanas do primeiro turno, os clérigos que atuam na Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reúne as dioceses dos estados do Amazonas e Roraima, convocaram os fiéis católicos a exercerem a cidadania no pleito eleitoral marcado para o próximo dia 4 de outubro. Eles fizeram menção à soberania do território brasileiro e ao fortalecimento da democracia.
Dom Leonardo Steiner, que já foi bispo auxiliar de Brasília e hoje é o arcebispo de Manaus, conclamou os fiéis a exercerem o direito e comentou sobre a importância de comparecer às urnas. "Não deixe de votar. É um dever que garante o direito de todos. É a nossa participação, é a garantia da nossa democracia. Votar é exercício de cidadania, é sinal de democracia", disse. Além dele, uma série de outros membros da conferência episcopal deixaram recados contundentes para os eleitores, em um pedido uníssono pelo mesmo objetivo.
Em 2022, mais de 32 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno, o que representava mais de 20% do eleitorado naquela ocasião. O resultado percentual de abstenções foi o maior desde 1998, quando 21,5% do público ato para votar não participou do processo. Outro dado nesse sentido mostra que a parcela de cidadãos que deixam de ir às urnas é maior a cada eleição majoritária desde 2006. Naquele ano, a taxa chegou ao patamar mínimo desde a redemocratização de 16,75% e, desde então, segue em trajetória ininterrupta de alta.
Na sede da CNBB, em Brasília, quarta-feira, o presidente da conferência nacional, Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, comentou sobre a importância da chamada 'festa da democracia' e citou o pensamento grego antigo que diz que política é "a mais nobre das atividades" e que, no entanto, passaria por um de seus momentos mais difíceis da história do país desde a redemocratização, com a crise entre os Três Poderes, sobretudo no âmbito do Judiciário.
O bispo avaliou a crise no STF como "certamente preocupante". "Quando eu imagino que o Poder Judiciário deveria ser uma espécie de fiel da balança, suprapartes, capaz de realmente decidir aquilo que a Constituição apresenta como norma suprema. No entanto, me parece que quando a politicagem entra no Judiciário, quem perde é o Estado. E como vamos sair dessa? Eis aí o grande desafio", desabafou.

Debates

Além da ausência dos eleitores, a CNBB criticou a não participação dos candidatos mais bem posicionados em debates eleitorais. "Isso não ajuda no processo de discernimento que cada cidadão precisa realizar diante do direito do voto", lamentou Spengler.
O presidente da CNBB ainda destacou que a mistura da religião com a política pode ser perigosa. "Ao longo da história, quando política e religião estiveram muito envolvidas, o resultado não foi positivo. O uso da religião, ou se quisermos, de igrejas, para a autopromoção de candidatos, ou de ideologias, não é salutar. Surge no nosso horizonte um aspecto muito perigoso", alertou.
Outro questionamento levantado pelos representantes da conferência episcopal é a falta de propostas para o futuro do país, em contraposição à série de ataques pessoais entre os candidatos no horário eleitoral e nos debates. Dom Ricardo Hoepers, secretário executivo da CNBB e bispo auxiliar de Brasília, lembrou de uma proposta presidencial que possuía apenas duas páginas, ao que ele comentou ser "uma brincadeira com o povo brasileiro".
"Faltou seriedade, essa oportunidade de se entregar um projeto sem ouvir a sociedade, sem ser, de fato, realmente, uma representação daquilo que talvez hoje grita mais, que seria a desigualdade social, então você vê projetos de partidos de duas páginas e isso nos envergonha", destacou.

Tecnologia

As eleições de 2026 também marcam a primeira disputa presidencial com o uso da inteligência artificial amplamente propagado e utilizado pelos candidatos, sobretudo com vídeos que utilizam a IA generativa para fazer imagens caricatas e deepfakes, que podem ser, inclusive, caracterizadas como crime eleitoral, a depender do conteúdo utilizado. O tema vem sendo tratado, inclusive, pela alta cúpula da Igreja Católica. O Papa Leão XIV escolheu o tema para redigir a primeira encíclica de seu pontificado: a Magnifica Humanitas, que é uma resposta à revolução tecnológica no século XXI.
Dom Jaime, por sua vez, defendeu um novo "pacto social" para discutir os limites do avanço tecnológico, aos moldes do proposto pelo Papa Leão XIII que, no final do século XIX, publicou a Rerum Novarum como resposta à revolução industrial naquele tempo. A CNBB lançou, neste ano, um grupo de estudos formado tanto por clérigos quanto por leigos, como professores de universidades e outros pesquisadores, para aprofundar as discussões sobre o uso da IA na Igreja e no país, como um todo.
"Hoje estamos diante de uma revolução tecnológica e que, talvez, a inteligência artificial seja o ponto alto desta revolução. Imagino que nós estamos necessitados urgentemente da construção de um novo pacto social. É uma mudança tremenda que já está impactando na vida concreta de muita gente", destacou o bispo.
O presidente da CNBB, no entanto, não 'demonizou' o uso da tecnologia. Ao contrário, disse que há frutos positivos com o uso da IA, como na ciência e na saúde, e que a questão principal é a forma como os seres humanos a utilizam, seja para o bem ou para o mal.

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postado em 25/09/2026 03:55
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