Entrevista | Romeu Zema | Candidato à presidência pelo Novo

'Nós estamos indignados', diz Zema sobre crise no Supremo

Em sabatina com jornalistas do Correio, presidenciável afirma que trabalhará por investigação de ministros do Supremo Tribunal Federal, promete reduzir ministérios, propõe equiparar facções a grupos terroristas e detalha medidas para segurança e economia

Em Brasília para manifestar o repúdio aos escândalos que abalam a credibilidade do Supremo Tribunal Federal, o candidato do Novo à Presidência da República, Romeu Zema, afirmou que, se eleito, defenderá o afastamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvidos em irregularidades. Em sabatina conduzida pelos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Carmen Souza, Zema voltou a criticar o funcionamento da Corte e disse que pretende combater o que chamou de “farra dos intocáveis”.

A sabatina é uma parceria com a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), a Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais (Febrafite), a Unafisco Nacional e a Federação Nacional dos Auditores Fiscais Tributários (Fenat).

O candidato também apresentou propostas para a segurança pública, com a intenção de equiparar facções criminosas a grupos terroristas e reunir Forças Armadas, Polícia Federal, Receita Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e outros órgãos em uma força-tarefa. Na economia, prometeu uma reforma administrativa e a redução da estrutura federal para 22 ministérios. Leia os principais trechos da entrevista.

Estamos num dia histórico para o Brasil, e o senhor veio especificamente para a capital federal para acompanhar de perto esse momento. Como está avaliando a crise?

Nenhum outro candidato a presidente quanto eu tem criticado e sido tão incisivo com relação a esses absurdos que estão ocorrendo com diversos ministros do Supremo. Há mais de um ano, eu e o Partido Novo temos denunciado e satirizado essa bandidagem em que se transformou o Supremo. O brasileiro está indignado, estarrecido. Ministros da mais alta Corte do Brasil, que deveriam ser sinônimo de exemplo e daquilo que é certo, se transformaram nisso que nós estamos assistindo. Estou aqui hoje porque nós temos de acabar com essa farra dos intocáveis.

Os “intocáveis” estão apenas no Supremo?

Não. Tem uma parte no Senado, outra na Câmara, no Executivo e na Procuradoria-Geral da República. É uma máfia que vai espalhando seus tentáculos. Esse grupo tem feito isso há muito tempo. Agora, me parece que o castelo de cartas começa a ruir. Estão amedrontados, inclusive porque foi uma ação do Partido Novo, pedindo o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, que ocasionou tudo isso, que nós estamos assistindo hoje.

A ofensiva do Novo continua?

A minha luta e a luta do Partido Novo continuam. Nós queremos investigação criteriosa e justa, que prove o que tem de ser provado. Se eles fizeram o que é certo, não têm o que temer. Só que nós sabemos que eles não fizeram o que é certo. Eles fizeram favor para pessoas que estavam presas, para gente envolvida com o sistema financeiro. Houve relatos de ministros que pegaram carona em jatinho, ganharam viagens para a família e tiveram outras vantagens. Isso tem de ser averiguado para a honra de nós, que somos pagadores de impostos.

Como avalia as providências tomadas pelo ministro Edson Fachin, presidente do STF?

Espero que ele tenha coragem, assim como aqueles ministros do bem do Supremo, para votarem pelo afastamento e pela investigação do senhor Alexandre de Moraes. Já vi que ele está querendo manobrar, postergar, juntar processos. Se você cometer um crime e outra pessoa cometer outro, são processos separados. Não tem de juntar. Vamos levar o processo de Alexandre de Moraes. Ele é o intocável-mor. Se algum outro tiver envolvimento, qualquer que seja, que seja levado adiante. Não quero ninguém blindado. Eu não tenho interesse com ninguém.

E o ministro André Mendonça?

Se ele tiver envolvimento, que seja investigado. Qualquer um. Ninguém está acima da lei. Esse pessoal, como o próprio nome indica, “os intocáveis”, se considera acima da lei. O que eles fizeram é um tapa na nossa cara, de quem trabalha todos os dias. E, se a gente vivesse mil anos, não acumularia o contrato que o senhor Alexandre de Moraes fez para a esposa com o maior banqueiro do Brasil.

Especialistas têm alertado que, se o Supremo não der conta de resolver essa crise institucional, alguma força terá de fazer isso. Estamos falando sobretudo do Congresso Nacional. Como o senhor imagina essa relação caso assuma o Executivo?

Como presidente, vou trabalhar ativamente para que uma investigação seja feita. O caldo já entornou e está claríssimo, com o telefone do Daniel Vorcaro que foi visto agora. O senhor Alexandre de Moraes, além de tudo, é mentiroso porque vinha negando aquilo que o telefone provou agora. Eu não tenho rabo preso. O mundo de onde venho é o mundo do brasileiro real, que tem de acordar cedo, trabalhar o dia todo e, no fim do mês, ganhar isso aqui. Nós, brasileiros do bem, estamos indignados e eu vou lutar com todas as forças que tenho.

O senhor falou que não há intocáveis apenas no Supremo. Quais são essas autoridades, e o que precisa ser feito?

Temos de alertar que as mais altas autoridades do Brasil, presidente do Senado, presidente da Câmara, procurador-geral da República e ministros, eram íntimos do senhor Daniel Vorcaro. Íntimos. Vamos deixar muito claro. Houve carona em jatinho, férias no exterior, tudo pago, degustações que custavam milhões de reais. Tudo isso feito com o nosso dinheiro. Quando falam que é dinheiro privado, é mentira. O dinheiro do Banco Master é dinheiro público. Veio do Fundo Garantidor de Crédito, que está tendo de aportar bilhões de reais, e todos nós que movimentamos dinheiro acabamos tendo de contribuir por meio dos bancos, que precisam fazer essa reserva. Quando esse fundo é sacado, terá de ser recomposto. Nós, brasileiros, estamos pagando a conta.

O senhor não incluiu na lista o presidenciável Flávio Bolsonaro, que também tem uma relação com Vorcaro. Em eventual segundo turno, o senhor apoiaria Flávio Bolsonaro?

Ele deve explicações da mesma maneira que os outros. Quem esteve com esse bandido tem de se explicar. Sobre o segundo turno, a minha bandeira é contra o PT. Se esse copo aqui for para o segundo turno contra o PT, eu apoio esse copo. O PT destruiu Minas Gerais e coube a mim reconstruir. Então, a minha bandeira é contra o PT. Parece que tem gente de todo lado envolvida, da direita e da esquerda, mas eu sou contra o PT.

Na sua gestão, discute-se a possibilidade de separar o Ministério da Justiça do Ministério da Segurança Pública. Como isso será conduzido?

Minha proposta para segurança pública é combater o crime organizado. No Brasil, nós temos musculatura para combater. Agora temos um presidente que, no ano passado, falou que traficante é vítima da sociedade. Na minha opinião, é o contrário. Traficante fez a opção de exercer essa atividade. Como presidente, vou equiparar essas facções a grupos terroristas e colocar Forças Armadas, Polícia Federal, Receita Federal, Coaf e Abin em uma força-tarefa contra o crime organizado. Com isso, vamos reduzir a taxa de criminalidade no Brasil, que é um dos recordistas de homicídios no mundo, com mais de 40 mil por ano, e vamos impulsionar o desenvolvimento econômico, porque isso é um peso para o desenvolvimento.

O Correio promoveu ontem o CB Talks, tratando da intersecção entre crime organizado e desenvolvimento econômico. Em que medida a ação de quadrilhas atrapalha a atividade econômica?

Vamos pegar o caso da Light. É uma empresa de energia elétrica, como a Cemig em Minas Gerais. A Light, apesar de ter o monopólio do fornecimento, está quebrando. As únicas empresas monopolistas que quebram são as que estão aqui no Brasil. Em outros lugares do mundo, quem tem monopólio geralmente ganha muito dinheiro. No caso da Light, está ligada ao crime organizado. Hoje, quem mora em diversas comunidades do estado do Rio de Janeiro não recebe energia conectada pela Light, mas pelo crime organizado. A Light, que paga impostos e oferece bons empregos, está para fechar as portas. Quem oferece emprego precário, não paga impostos e está crescendo é quem faz contrabando. No Brasil, temos uma economia paralela, clandestina e informal que só tem ganhado musculatura e alimentado gente do mal. Quem trabalha corretamente está perdendo espaço.

O senhor é um dos defensores da política adotada em El Salvador e já se posicionou contra os exageros relacionados a prisões. Como a filosofia de Nayib Bukele se adequaria à realidade brasileira?

Não é difícil. Em 24 de março de 2024, eu e os governadores do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) levamos ao ministro Lewandowski sugestões de melhorias na segurança pública. Nenhuma foi acatada. Vou lembrar uma delas: audiência de custódia. Quem cometesse três delitos teria, na terceira audiência, a prisão preventiva decretada. Hoje, no Brasil, temos pessoas que cometem dezenas de delitos e continuam soltas. A Polícia Militar prende, e a Justiça solta. O que queremos é que essas pessoas fiquem detidas. Vai precisar construir mais presídio? Vai. Mas que se construa.

Como essas penitenciárias poderiam ser sustentáveis, considerando o tamanho da população carcerária e os gastos envolvidos?

O problema do gasto público no Brasil é, primeiro, que existe um desperdício sem tamanho. Venho do setor privado e pulei para o outro lado do balcão. Vi que aqui não falta dinheiro. O problema do Brasil é que sobra ladrão. Na hora em que combater fraudes, supersalários, tiver um governo responsável e a taxa de juros cair, vamos pegar só a taxa de juros. Hoje ela está em 14%, com uma dívida de R$ 10 trilhões. Em números redondos, são R$ 1,4 trilhão de juros por ano. Na hora em que entrar um governo sério e disser “estou tomando medidas contra a gastança”, essa taxa de juros vai cair, como já caiu na época do teto de gastos, para 6%. Você já tem uma economia de R$ 800 bilhões por ano. Com 2% ou 3% disso, você resolve o problema dos presídios no Brasil. O Brasil é um país que gasta mal, com um governo populista que concentra renda.

Qual seria a primeira medida do seu governo para reduzir o problema fiscal?

O governo federal é uma máquina gigante. Não é mexendo em um parafuso que você vai fazer um navio ficar melhor. Vai ter de fazer algumas mudanças, mas eu vou fazer uma reforma administrativa. É necessário. O setor público é obeso, pesado e ineficiente. Vi isso. Temos uma reforma administrativa que está em gestação há 10 anos, e ninguém tem coragem de levar adiante. Eu levarei. Só ela, nos próximos 20 anos, deve gerar uma economia de R$ 2 trilhões.

O que o senhor fará em relação aos programas sociais?

Vamos rever programas sociais. Na minha opinião, mulher que cuida de diversos filhos ou de idosos deveria até receber mais. Mulher e homem que cuidam desse público, de dependentes que precisam de cuidado, devem ser considerados. Também temos de ter porta de saída para os programas sociais, que hoje só têm porta de entrada. Quero que quem receba um programa social conclua o ensino fundamental ou médio, se não tiver concluído, e faça um curso profissionalizante para ter mais oportunidades de emprego e melhores salários.

O governo Lula criou pastas como os ministérios dos Povos Indígenas e da Igualdade Racial. Essas estruturas seriam mantidas? Quais seriam as mudanças?

Vamos enxugar. Minha previsão é ter 22 ministérios. Minas Gerais hoje é o estado com o menor número de secretarias do Brasil, 14, inclusive menos do que muitas prefeituras. Não consigo imaginar que alguém consiga lembrar dos 38 ministérios que existem hoje no Brasil. Temos, por exemplo, o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Para mim, ele vai ficar junto com o da Agricultura. Não é criando o Ministério da Honestidade que vamos ter honestidade no Brasil. Esse governo quer muito marketing. A vida do brasileiro melhorou? Feminicídio caiu no Brasil com a criação do Ministério das Mulheres? O que precisamos, antes de tudo, é criar o Ministério da Vergonha na Cara. Esse é o que mais precisa no Brasil, porque está faltando.

Se eleito, o senhor apoiará as entidades de classe dos servidores públicos que defendem a extinção da cobrança de contribuição previdenciária sobre os proventos de aposentados e pensionistas?

Tenho dito o seguinte: a conta da Previdência no Brasil só tem piorado. Temos um país que, infelizmente, está envelhecendo e continua pobre. América do Norte e Europa envelheceram, mas antes tinham enriquecido. Temos de encontrar uma forma de ter uma Previdência sustentável. Direito adquirido é direito adquirido e está na Constituição. Vamos respeitar. Quero que o aposentado seja tratado da melhor forma possível.

 

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