
Aproximadamente 25% dos estudantes do ensino médio das escolas públicas afirmam que melhorias relacionadas ao ensino e aprendizagem são a principal expectativa que carregam em relação aos governos que se iniciam em 2027. É o que aponta a pesquisa O Que os Estudantes Pensam Sobre a Educação?, realizada pelo Instituto DataFolha por encomenda da Fundação Itaú e da organização não governamental Todos Pela Educação. O levantamento, publicado ontem, ouviu 5.296 alunos dos ensinos médio e fundamental II, nas cinco regiões do país, e investigou a percepção sobre temas como aprendizagem, atuação dos professores, educação profissional, uso de tecnologia, educação em tempo integral e possibilidades de escolha de itinerários no ensino médio.
Para os entrevistados, a qualidade do ensino está relacionada à atuação dos professores. De acordo com a pesquisa, 11% de todos os alunos ouvidos acreditam que os docentes são responsáveis pela melhora do ensino para 2027. Entre os estudantes, 5% afirmam ser necessário aulas diferentes e novas dinâmicas em salas de aula.
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A qualidade do ensino e aprendizagem também está atrelada à estrutura escolar, conforme constata a pesquisa. Vinte por cento dos alunos acreditam que é necessário melhoria na infraestrutura, com destaque para itens como "manutenção", "ar-condicionado" e "equipamentos novos".
Dados da pesquisa indicam que a percepção dos estudantes sobre a forma como os professores explicam os conteúdos está associada à avaliação que fazem da escola. Entre os que dizem que os professores explicam bem os conteúdos, 75% consideram a escola como boa ou ótima. Já entre aqueles que afirmam que os professores explicam mal, a percepção sobre a qualidade da instituição de ensino cai para 48%.
Ainda sobre professores e ensino, a pesquisa aponta percepções diferentes sobre o corpo docente entre os alunos do ensino fundamental e do ensino médio. No fundamental II, 78% consideram que os professores estão motivados para dar aulas, mas no ensino médio essa avaliação cai para 69%.
A ausência de professores em disciplinas é problema a ser enfrentado. No ensino médio, 66% consideram que é uma carência grave, percentual que cai a 61% no fundamental II.
Além da falta de professores e estrutura escolar, as principais carências do cotidiano escolar apontados pela pesquisa são: indisciplina em sala de aula (40%), casos de bullying e humilhação (33%), problemas com internet e equipamentos (33%), falta de professores (27%) e aulas poucos interessantes (24%). As regiões Norte e Centro-Oeste (ambas com 74%) registram as maiores taxas de avaliação da escola como ótima ou boa, seguidos por Nordeste (71%), Sudeste (68%) e Sul (65%).
Para o diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa, o momento de eleições e início de novos mandatos é quando "os estudantes colocam as oportunidades de aprendizagem no topo de suas expectativas sobre o que é uma boa escola. É um dado que ajuda a reforçar onde deve estar a prioridade da política pública nos próximos anos: na aprendizagem".
Desistência
A pesquisa mostra, também, que nos últimos seis meses, 36% dos estudantes consideraram abandonar os estudos. Entre eles, 10% afirmam que consideraram nessa possibilidade muitas vezes. Essa proporção sobe para 26% entre os estudantes que avaliam a escola como ruim ou péssima e para 18% entre aqueles que já trabalham.
A desistência é motivada, principalmente, por fatores relacionados ao bem-estar emocional — como cansaço, estresse e ansiedade para 29% dos entrevistados (31% somente entre alunos do ensino médio). Em seguida, o ingresso no mercado de trabalho também aparece como um motivo relevante, seja pela busca de independência financeira (21%), seja pela necessidade de contribuir com a renda familiar (17%).
Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, afirma que a intenção de abandonar os estudos é mais frequente entre aqueles que avaliam negativamente a qualidade da escola. Ele frisa que, entre os estudantes que a consideram ótima ou boa, 29% já pensaram em parar de estudar — esse percentual sobe para 57% entre os que avaliam a instituição de ensino como ruim ou péssima.
"Garantir uma educação pública de qualidade passa por colocar a aprendizagem no centro do debate público e criar as condições necessárias para que cada estudante aprenda, permaneça na escola e avance em sua trajetória escolar", adverte.
Ampliação de experiências
A pesquisa mostra que os alunos entrevistados valorizam a possibilidade de ampliar experiências e perspectivas de formação durante o ensino médio. Para tanto, 91% consideram importante ter a oportunidade de fazer um curso técnico ou profissionalizante nesta etapa da educação — desses, 60% classificam tal possibilidade como "muito importante". Entre os estudantes que não cursam o ensino técnico, sete em cada 10 (73%) afirmam que estariam dispostos a se matricular em uma escola profissionalizante se tivessem a oportunidade.
Sobre habilidades e recursos aplicados pelos professores em sala de aula, a tecnologia é considerada presente na rotina escolar. Segundo 70% dos estudantes, o corpo docente utiliza tecnologia nas aulas pelo menos uma vez por semana.
Aliás, a inteligência artificial (IA) aparece entre as ferramentas utilizadas pelos próprios jovens: 71% dizem usá-la para estudar. Mas um em cada três (33%) estudantes considera que seus professores não estejam bem preparados para empregar a tecnologia em sala de aula.
Segundo a diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo, Lia Glaz, a pesquisa mostra que a tecnologia e a IA são parte da rotina dos estudantes e estão transformando a forma de aprendizagem. Ela observa, porém, que o desafio é garantir um uso cada vez mais pedagógico e responsável, com protocolos claros.
"Também é fundamental assegurar que as aprendizagens previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Computação cheguem, de fato, às escolas, como direitos de aprendizagem de todos os estudantes do Brasil. Para isso, é essencial fortalecer a formação dos professores para incorporar a tecnologia às práticas educacionais", afirma.
Colégio integral
A educação integral é um dos temas centrais no debate sobre educação de qualidade e que ocupa destaque no Plano Nacional de Educação 2026-2036. Segundo a pesquisa, entre os alunos que estão nesta modalidade 74% avaliam a escola como boa ou ótima. Entre os benefícios associados pelos estudantes ao tempo integral estão: mais tempo para aprender; participação em atividades esportivas, artísticas e culturais; preparação para o futuro; e mais tempo de estudo para vestibular e Enem.
Entre os estudantes do ensino médio que afirmam que não estar no tempo integral, 20% dizem trabalhar ou exercer atividade para garantir remuneração. A percepção de que a jornada é cansativa aparece como uma das principais barreiras ao ingresso no ensino em tempo integral (31%). Na sequência, destacam-se a falta de interesse (13%) e dificuldades para conciliar essa modalidade com o trabalho outros cursos ou atividades (12%).
A Região Nordeste lidera a participação de alunos no ensino integral (33%), enquanto o Sul registra o menor alcance (9%). O Sudeste tem 23%, e Norte e Centro-Oeste têm 14% cada.
A possibilidade de escolher uma área de aprofundamento ou um itinerário formativo também está relacionada à avaliação dos próprios itinerários. No ensino médio, a pesquisa identifica diferença expressiva na avaliação da qualidade dos itinerários, de acordo com a chance de escolha de uma trajetória alinhada aos interesses dos estudantes.
Entre aqueles que afirmam ter conseguido escolher plenamente uma trajetória alinhada aos seus interesses, 90% avaliam a qualidade do itinerário como boa ou ótima. Entre os que tiveram pouca ou nenhuma possibilidade de escolha, o percentual é de 43%. Os dados aparecem no contexto das mudanças recentes no ensino médio e da ampliação do cenário de possibilidades e aprofundamento da formação dos estudantes.
Lia Rolnik, diretora-executiva interina no Instituto Sonho Grande, diz que a educação integral é uma proposta pedagógica que amplia as oportunidades de aprendizagem e oferece aos estudantes espaço para participar ativamente da própria formação. Conforme observa, isso se traduz em aspectos valorizados pelos alunos, como mais tempo para aprender e preparação para o futuro.
"Isso também aparece na forma como (os estudantes) enxergam seus professores, já que jovens de escolas integrais avaliam melhor a clareza das explicações e a motivação para ensinar. Juntos, esses elementos dão mais qualidade e propósito à experiência escolar deles", avalia.
*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi
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